sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

À mesa com o Chapeleiro Maluco - Ensaios sobre corvos e escrivaninhas

“Viemos ao mundo como animais leitores. Nosso primeiro impulso é decifrar o que percebemos a nossa volta, como se tudo o que existe no universo tivesse um significado.”

À mesa com o Chapeleiro Maluco me surpreendeu. Eu confesso, não sabia o que esperar dele. Primeiro, fui atraída pelo nome. Pensei: “ó, referência ao Chapeleiro, deve ser interessante!” Depois, li algumas coisas que me fizeram pensar que se tratava de um livro de filosofia. E como eu andava empolgada com as aulas de filosofia que fiz ano passado, achei isso muito legal...

Então eu li o livro. E a cada página, a cada texto, descobri coisas novas (coisa óbvia de se dizer sobre um livro). Não é sobre o Chapeleiro, não é sobre filosofia. Ou talvez seja. Enfim, é um livro sobre leitura. Sobre ler, sobre leitores, sobre tudo relacionado a essa atividade que fazemos desde que evoluímos dos macacos (ou talvez desde antes disso, vai saber).

O autor, Alberto Manguel, reuniu uma série de ensaios e pensamentos sobre temas diversos, muitos deles do tipo que a gente acha que não tem nenhuma ligação uns com os outros. Como se ele quisesse publicar um livro com o que ele pensa sobre um monte de coisas. Só que ele uniu tudo isso – desde livros, jardins (Sanssouci), pintura (Van Gogh), arquitetura (a catedral de Gaudí) e por aí vai – pela leitura. Pela busca de significado, pela interpretação de cada um. Ele também discutiu essa interpretação. Os melhores leitores estão no futuro, e cada um tem a sua visão do texto. E nem sempre o autor tem poder sobre isso: Cervantes achava Dom Quixote uma de suas obras de menor importância, por exemplo.

Manguel passa por tudo o que está relacionado ao tema, trazendo à tona coisas que a gente talvez jamais pensaria. Qual o significado de “aprender a ler”? O que/quem é o leitor ideal? Que perigo representa um livro não lido? (pra quem ficou curioso: ‘aprender a ler’ pode ter 3 significados básicos, segundo o autor, entre os quais está usar o código da escrita para aprendermos a ‘ler a sociedade’ e nos conhecermos. Daí vem o perigo de um livro não lido, ou a ameaça representada por um professor que ensina seu aluno a questionar quem está no poder – e que por isso, o torna um profissional tão mal valorizado, numa tentativa de “diminuir os efeitos de seu trabalho”)

Coisas interessantes (e empolgantes) também foram citadas, como a influência da imaginação na leitura. Palavras, pontos, vírgulas, e até o espaçamento de 2 centímetros que dá o limite de uma página, são capazes de provocar emoções, curar – ou causar – sofrimentos, criar e mover mundos.

Outra coisa que eu achei MUITO LEGAL de o autor ter citado: histórias em quadrinhos. A diferença entre palavras e imagens é que uma contém a passagem de tempo, a outra a passagem de espaço. As HQs são a junção das duas coisas, e muita gente ainda não se deu conta do que isso representa. (eu já! Hahaah - acho)

Alguns ensaios do livro são dedicados a livros e autores que tiveram grande importância na vida do autor. E isso faz com que a gente crie admiração e simpatia por escritores e livros até que a gente nunca ouviu falar. Ao falar sobre um autor judeu, por exemplo, ele usou um argumento que achei bastante significativo: os livros dão a sensação de pertencimento a um povo que sempre andou de um lado para outro, em busca de sua terra. E os livros são de fato muito importantes na cultura hebraica.

Não posso deixar de comentar a vontade enorme que Alberto Manguel me deixou de reler Robert Louis Stevenson. Mesmo, é bonito ler os comentários! Hehehehe (ele também me fez colocar Sherlock Holmes como os próximos na lista de leitura)

"...se um leitor é capaz de ir além da superfície de determinado texto, tal leitor pode extrair de suas profundezas uma questão moral, mesmo que essa questão não tenha sido formulada pelo escritor com muitas palavras, pois sua presença implícita desperta no leitor, de qualquer modo, uma emoção à flor da pele, um pressentimento ou simplesmente uma lembrança de algo que conhecemos há muito tempo."

 "Talvez não haja nenhum poema, por mais poderoso que seja, que possa aliviar um pingo da dor ou transformar um único momento de injustiça. Mas talvez tampouco exista algum poema, por mais mal escrito que seja, que não possa conter, para seu leitor secreto e eleito, um consolo, uma chamada às armas, um fulgor de felicidade, uma epifania."

Ficha:
Nome: À mesa com o Chapeleiro Maluco - Ensaios sobre corvos e escrivaninhas
Autor: Alberto Manguel
Editora: Companhia das Letras
243 páginas
Nota no Skoob: 5/5


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Cartas do Papai Noel


Andei lendo dois livros ao mesmo tempo nesses últimos dias. O negócio é que eu andava lendo um que é um pouco mais complexo, então não rolava de lê-lo à noite, antes de ir dormir, porque eu acabava não dando atenção a coisas importantes dele. Precisava de algo mais leve, algo que fosse legal de ler naquele momento em que você não está com sono, mas já não está mais ativo pra outras atividades. Então resolvi ler a minha última aquisição por impulso: Cartas do Papai Noel, de J. R. R. Tolkien.

Gente, que livro LINDO!

A proposta desse blog não é fazer críticas, mas escrever sobre a sensação e a impressão que os livros me deixam. Por isso também não me preocupo em escrever em linguagem “rebuscada”, nem completamente certinho, nem nada assim. Acabo escrevendo até de um jeito desleixado, eu sei, mas acho assim mais fiel ao que eu senti lendo, e não ao que eu pensei lendo. E esse é o livro perfeito pra isso, sério!

Cartas do Papai Noel é uma compilação de cartas escritas por Tolkien para seus filhos, se passando pelo Papai Noel. As cartas foram escritas ao longo de 20 anos, de 1922 a 1942, acompanhando a infância de John, Michael, Christopher (é, o famoso cara q não vende os direitos das obras do pai de jeito nenhum haha) e Priscilla Tolkien.

No início as cartas são endereçadas a John, o mais velho, para mais tarde vermos incluídos os irmãos mais novos, ao mesmo tempo que Papai Noel cumprimenta pelos novos irmãos. Mas o contrário também acontece: os irmãos vão “saindo” da contagem a medida em que crescem e param de se preocupar com o assunto – e isso dá um clima tão melancólico... Papai Noel sempre se despede com um “mande carinhos ao XXXXX, ainda que ele não ligue mais para meias” e coisa parecida, e aí percebe-se como Tolkien se sente em relação ao crescimento dos filhos. 

Sério, achei esse livro LINDO. Me lembra aqueles filmes infantis que se passam no início do século XX, onde as crianças ainda tem sonhos mágicos e ligam pra fantasia, e tudo parece muito mais cheio de esperança e possibilidades (o tipo de coisa que sempre me faz pensar no Quebra-Nozes O.o). Acho lindo pensar em como Tolkien se preocupava em escrever as cartas, inventando todo um contexto e cronologia pros acontecimentos do Polo Norte – que tinha uma rotina, adequada às suas especificidades e moradores, como o Urso Polar, os elfos, os trasgos...

O livro traz cópias das cartas, e pode-se ver como eram bem trabalhadas, cada personagem com sua caligrafia própria – e cheia de comentários extras do Urso Polar –, e cheia de desenhos. Papai Noel sempre mandava desenhos dos acontecimentos, que ele gastava 2 minutos para fazer (muito tempo, já que as crianças Tolkien mereciam essa dedicação). Chegavam cartas e desenhos desde outubro, perguntando o que as crianças queriam de presente, até a véspera de Natal, explicando que provavelmente os presentes não estavam tão completos porque os trasgos estragaram alguns.

Mas o livro também tem uma parte muito tensa e triste, ainda que mascarada pela guerra dos trasgos do Polo Norte: a II Guerra Mundial. Nessa época, apenas Priscilla recebia as cartas (os outros já estavam adultos e, mesmo o livro não mencionando isso, sabe-se que John, o filho mais velho, lutou na Guerra). Papai Noel, aqui, conta sobre crianças que tiveram que mudar de casa, e que estão dando trabalho por não informarem o novo endereço. Os depósitos de presentes também estão mais vazios, já que está difícil repor peças importantes para a fabricação dos brinquedos.

Enfim, um livro interessantíssimo e bonito de se ler. Sim, acho muito bonito ver como Tolkien se esforçou pra manter a fantasia presente na vida dos filhos, seja insistindo nas cartas ainda que eles tivessem crescido, seja tentando reescrever acontecimentos duros da realidade como parte da rotina mágica do Papai Noel. 

Recomendo demais! 

P.S.: Também gostei muito da tradução do livro, que não só foi bem fiel e transmitiu o sentido que Tolkien queria dar aos termos, como separou as páginas finais para explicar alguns termos que brasileiros possam não entender por não compartilharem a cultura inglesa, como Yule, o dia de Santo Estevão e algumas marcas de brinquedos e autores de livros infantis.


Ficha:
Nome do livro: Cartas do Papai Noel
Autor: J. R. R. Tolkien
Editora: Martins Fontes
168 páginas
Nota no Skoob: 5/5


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Quem é seu autor favorito?

Eu não sei como cada pessoa define ou percebe que tem um autor favorito, ou quem é seu autor favorito. Será que param um momento pra comparar algumas obras lidas? Será que simplesmente pensam na empolgação que sentem ao ler algum livro? Será que simplesmente surge o nome na mente, magicamente, quando alguém pergunta qual o autor favorito?

Enfim, tudo isso é porque eu cheguei à conclusão de que não sei apontar um autor favorito. Isso porque o posto está dividido entre dois... :S Sempre que ouço a pergunta, dois nome vêm instantaneamente à minha cabeça: Tolkien e Neil Gaiman

Já tentei fazer um comparativo (só na minha cabeça hahaha) pra ver se um deles se destaca em relação ao outro. Não adianta, não consigo. Adoro os dois igualmente. 

Aliás, igualmente não. Talvez eu não consiga escolher um como melhor que o outro simplesmente porque não acho justo compará-los. 

São dois autores de gerações diferentes, só pra começar. Tolkien vivenciou a passagem do século XIX para o XX, contexto bem diferente da passagem do século XX para o XXI, que é quando Neil Gaiman escreve. Entre eles existem mudanças absurdas e muito drásticas vividas pela humanidade. Ambos escrevem "fantasia" baseada no imaginário da sociedade em que vivem (um imaginário que herdou diversos elementos de várias culturas ao longo do tempo). Ambos criam/criaram mundos próprios, mas com os quais os leitores se identificam, por diversos motivos. 

Enfim, não estou aqui pra analisar cada um e fazer quem estiver lendo decidir quem é o melhor. Pra mim essa escolha nunca será possível. Prefiro gostar dos dois igualmente mesmo! hehehehe  Acho até legal alternar! 

Quer indicações?

Tolkien: todo mundo já sabe, né? Mas se você nunca leu nada dele, recomendo começar por O Hobbit. Mais leve, mais bem humorado e mais fácil de ler! O Senhor dos Anéis é mais denso e pesado, mas é muito bom também! No momento estou lendo Cartas do Papai Noel, super bonitinho! Já já faço um post sobre ele!

Neil Gaiman: American Gods! Meu livro preferido dele, com certeza! E vai virar série da HBO (vi anúncios ao longo de 2012)... Alguns livros infantis dele também são ótimos (e não julgue por ser "infantil"! Ele trata os leitores mirins como seres inteligentes! hahaha), como Coraline e The Graveyard Book, que é uma releitura de The Jungle Book - aquele livro que conta a história do Mogli. Ah, claro que você pode contar com a mesma qualidade narrativa nos quadrinhos caso resolva conhecê-lo através da graphic novel Sandman!

sábado, 12 de janeiro de 2013

A Sabedoria do Condado - Noble Smith


Então, primeiro post dessa nova fase do blog! Iuhuuu!

To acabando de ler A Sabedoria do Condado, de Noble Smith, publicado pela editora Novo Conceito. A minha primeira impressão (e acho que a primeira impressão de quase todo mundo que leu ou pelo menos folheou o livro) foi/é a de que ele é uma espécie de autoajuda baseada na obra de Tolkien. Aliás, "uma espécie" não, autoajuda mesmo.

Falar sobre "autoajuda" é caminhar por um terreno perigoso. É polêmico, e muitas vezes põe a qualidade do texto em cheque. Eu preferi continuar lendo o livro ignorando essa parte, pra não ser influenciada. E sabe que é um livro gostoso de ler?

O autor, Noble Smith, dá vários conselhos, ou faz comentários do tipo "seria muito melhor se fizéssemos assim ao invés de assado". Tudo baseado em personagens, situações, lugares e coisas relacionadas ao Senhor dos Anéis ou O Hobbit. Ele usa muito os apêndices de SDA também, e algumas coisas do livro O Silmarillion (ou seja, deu pra ver que é tudo baseado nos livros, e não na adaptação cinematográfica). Por mais que algum "conselho" possa parecer forçado para o leitor, vale a pena ver como ele retirou a ideia da obra. Achei interessantíssimo em alguns trechos descobrir coisas sobre personagens que eu jamais teria notado se ele não tivesse falado. Coisas corriqueiras, como entender porque Boromir foi facilmente corrompido pelo Anel, enquanto seu irmão Faramir resistiu e conseguiu deixar Frodo ir embora: Faramir era a representação do "homem pensador", que estuda, que entende o mundo. Era pupilo de Gandalf.

Essas tentativas de exemplificar conselhos com atitudes dos personagens também faz a gente entender melhor o que Tolkien quis escrevendo aquilo. Vocês sabiam que os hobbits comemoram o aniversário presenteando os convidados, e não o contrário? E que quando Gollum afirma que ele ganhou o Um Anel no seu aniversário, ele está corrompendo e deturpando essa tradição? E mais ainda: vocês imaginariam que as histórias não tem cenas de amor ou sexo porque era esse o contexto em que Tolkien foi criado e, mais tarde, desenvolveu seu estilo literário (ele nasceu no fim da era vitoriana, uma época cheia de pudores)? Mas que, se você parar pra ler os apêndices percebe muito dessas coisas lá, meio implícitas. Como você acha que o Sam acabou tendo 13 filhos depois que se casou, hein?

Uma coisa que achei cansativa no livro foi o tanto que o autor se coloca no texto como exemplo do que está falando. Na tentativa de exemplificar como seria no mundo real algum aspecto retirado do Hobbit, por exemplo, ele acaba se repetindo contando inúmeras vezes sobre seu casamento, sobre o quanto ama a própria esposa, sobre como se apaixonaram a primeira vista, sobre como fizeram seu jardim de hobbit, etc etc etc. Ou criticando aspectos da sociedade contemporânea, como "não se curte amizades propriamente hoje em dia, só por facebook". Pra mim soou como uma generalização total do padrão americano de vida (que é o que o autor conhece) em alguns trechos. Não que as vezes ele não tenha tido razão, mas sei lá, ficou sendo um ponto de vista meio fechado.

Mas gostei bastante das instruções para criar seu próprio jardim de hobbit no fim do livro (quais plantas, como cultivá-las, como cuidar, etc), ou da receita de Sopa de cerveja e cogumelo dos hobbits, além de outras coisas que são pequenas e parecem bobas, mas devem ser super gostosas de experimentar...


P.S.: Não posso deixar de comentar que a edição, a capa, o material do livro e tal são tão legais que mesmo que você não goste do conteúdo, fica legal na estante. hahahahahah

Nota no Skoob: 3 estrelas 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

So many books!

Ok, eu sei que sou enrolada com blogs. Desde os meus 15 anos, quando a internet chegou em casa, eu crio, deleto, abandono, 'ressuscito' ou troco de blogs. Acho que o quanto eu troco de blogs ou o que faço com eles está relacionado às minhas fases da vida. As vezes troco só o nome, as vezes o layout, o tema...

Enfim, já perdi a conta de quantos blogs tive antes deste. E esta é a 1a vez que eu resolvo ressuscitar o Vermelho Colorido depois de abandoná-lo. Eu já o criei com uma intenção mais específica do que simplesmente fazer posts pessoais e desabafo, mas acho que eu não sabia bem qual era. Mas to começando a ter um vislumbre, e resolvi botar a ideia em prática.

De agora em diante, este será um blog sobre livros (e quadrinhos, e contos, e afins). Sem nenhuma ambição de ser crítica - sério, já cansei de falar sério sobre livros durante o curso de Letras, então aqui só quero dar opinião e pitacos espontâneos e sem pretensão de julgar nada.

O critério pra escolher que livros eu comento vai ser o mesmo que eu uso pra escolher livros pra ler: o que eu estiver afim, vai. Na maioria das vezes, influência do meu humor. Fiz uma limpa nos posts já existentes no blog, e deixei uns três que já tinham a temática. E vamo que vamo!