sexta-feira, 28 de junho de 2013

Em Chamas

Quando a gente lê Jogos Vorazes, termina o livro com uma sensação de “Isso, Katniss, pra cima deles!”

Acompanhar o início da revolução através das ações da personagem, que não só vence o jogo (que dá o título) provoca excitação, sim, e cria expectativas. Existem doze distritos e uma capital, cujos governantes e a cultura oprime todo o resto. Os jogos estão lá para intimidar quem quer que se atreva a desafiá-los. Então surge Katniss que, ao se recusar a deixar a irmã morrer, e depois evitar a todo custo a morte de seu parceiro, Peeta, e a própria, acaba mostrando que existem, sim, formas de desafiar o poder.

E aí, nós, leitores, acabamos o livro com aquela esperança de que nas sequências Katniss vai “quebrar o pau” e iniciar uma revolução.

Mas não é bem assim que as coisas funcionam. E é aí que a autora puxa o nosso pé de volta para o chão.

Em Em Chamas (Catching Fire, no original), descobrimos que Katniss é sim um espírito rebelde, dono de si própria, e que não se submete facilmente às ordens e restrições alheias. Desde o primeiro livro sabemos que ela sempre desafiou a proibição de perambular pela floresta que fica ao redor do distrito 12, que ela vende suas caças para diversas pessoas dali, e por aí vai. Mas antes disso, Katniss é uma garota, agora com 17 anos. Tudo o que ela faz tem um único objetivo: sobreviver.

Sim, nós a vemos “desafiar” o presidente e todos na capital durante o livro. Mas é preciso lembrar que o livro está em 1ª pessoa: muito do que é dito ali se passa apenas na cabeça da personagem. E, em muitos momentos, ela própria deixa bem claro que é uma garota “egoísta”, cujos primeiros impulsos são sempre voltados para salvar a si mesma, ou àqueles com quem ela se importa. Mesmo sua promessa de manter Peeta vivo, custe o que custar, se baseia na maior parte no seu medo de perdê-lo.

Como uma garota de 17 anos que tem medo de perder aqueles que ama e que, num primeiro momento, cede às ameaças do Presidente Snow (a autoridade máxima) pode conseguir derrubar todo um governo opressor e a cultura estabelecida em torno dele?

Inspirando as ações de outras pessoas.

Essa, pra mim, é a premissa de Em Chamas: Katniss é o vórtice de toda a revolução que se anuncia, e é graças a ela que a esperança de mudança volta a tomar conta dos moradores dos distritos. Não como a “guerreira fantástica mocinha protagonista hollywoodiana que explode coisas, atira flechas e mata seus inimigos”, mas como um símbolo de resistência que leva outras pessoas (muitas pessoas) à ação. Vemos, então, que o pássaro do broche que ela usou nos Jogos Vorazes passa a representar todos aqueles que decidem agir. Aparece em relógios, biscoitos, pulseiras, etc etc etc. Mesmo os habitantes da capital, alheios ao que realmente acontece nos distritos, passam a usar o Mockingjay como enfeite, como algo da moda. A revolução está no ar, e nem todos percebem. Mas ela está aí.


Não quero falar muito sobre o que realmente acontece no livro. Isso é pra quem se interessar em ler. Mas posso dizer que o livro é sobre isso: uma pessoa só não faz uma revolução, mas ela pode inspirar. Mas, mesmo inspirando, é preciso que outras pessoas tomem uma atitude. É como uma fagulha que se espalha e se transforma em um incêndio. E essa é a função de Katniss Everdeen, a “garota em chamas”. Função que a autora deixa claro brilhantemente em uma cena do livro em que um estilista a veste de Mockingjay, o símbolo da revolução. Katniss é o Mockingjay.

Título do livro: Catching Fire
Autora: Suzanne Collins
Editora: Scholastic
Nota no Skoob: 5/5


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Jogos Vorazes

E eis que eu finalmente li o famoso e polêmico Jogos Vorazes.

Preciso dizer que fiquei impressionada: achei um livro muito bem escrito, do tipo que vale a pena estudar em aulas de literatura. Achei o conteúdo muito válido, do tipo que vale a pena estudar numa aula de filosofia ou história. Enfim, acho que vou acabar concluindo que é um livro bem subestimado. 

A polêmica em torno de Jogos Vorazes tem relação com o público: a história é vista como juvenil, uma vez que a protagonista (e vários outros personagens) tem 16 anos, por aí. Só que o conteúdo é violento, muito violento. Pessoas morrem o tempo todo. Pessoas se matam o tempo todo.

Os Jogos Vorazes, que dão título à história, são isso aí: 24 adolescentes são reunidos numa arena para se matarem, até que sobreviva apenas um, o vencedor. É brutal a ideia? É. Mas mais brutal ainda é o que está por trás dela.

Devo dizer que eu ter escolhido ler esse livro agora foi pura coincidência (comprei um Kobo e resolvi testar lendo um livro que eu não tinha em papel, mas queria ler), mas o timing foi perfeito, tendo em vista as discussões relacionadas às manifestações que têm ocorrido no Brasil. Jogos Vorazes, mais do que uma história sobre crianças se matando, é uma história sobre opressão política e seus efeitos. Os jogos acontecem com o objetivo de intimidar, quando a Capital, centro do poder, mostra para os distritos quem é que manda. "Violento é o Estado" poderia ser o lema do livro.

A história se passa num futuro distante, quando os EUA deixaram de existir, dando lugar a Panem, um tipo de país formado pela Capital e 12 distritos subordinados. Esses distritos, na verdade, são perdedores de uma guerra, e por isso devem entregar, todo ano, 2 jovens que participarão dos Jogos, transmitidos em todos os lugares. Todos os habitantes dos distritos são obrigados a assistir às transmissões.

Importante dizer: em nenhum momento do livro eu senti que o foco da história estava nos jogos em si e na sua violência, nem na facilidade com que alguns jovens matam outros competidores (alguns distritos chegam a treinar gente para competir, transformando os jogos em algo valioso e símbolo de status, ao invés da punição que deveria ser). Desde o início, a autora destaca as dificuldades vividas pelo povo no distrito 12, de onde vem a protagonista Katniss. A fome, a miséria, e a opressão estão sempre presentes nas escolhas feitas por ela, ainda que isso não seja explícito – só o leitor conhece suas opiniões porque a narração é em primeira pessoa.

Não acho que seja spoiler dizer que Katniss vence os Jogos Vorazes (até porque esse é apenas o 1º de três livros onde ela é a protagonista). E é aí que percebemos que não, o pior não passou. Após conseguir não ser assassinada de forma brutal na arena, ela descobre que sobreviver foi fácil. Difícil será não ser engolida pelo poder político da capital e seu controle sobre tudo o que acontece. Tudo o que ela disser ou fazer a partir de agora será vigiado, ainda mais por mostrar um comportamento com “tendências subversivas”.

Outra coisa que me chamou atenção é a relação entre feminino e masculino: temos uma protagonista mulher, e temos contato com suas emoções, impasses, medos e questionamentos, tudo de uma forma muito bem trabalhada e apresentada. Katniss expõe sua opinião quanto ao "que se espera de uma mulher", afirmando que não quer ter filhos (por que se recusa a dá-los para os Jogos), e também não quer se casar. Ao se ver forçada a fingir um relacionamento (tudo pela sobrevivência), se encontra completamente perdida pois,nunca se apaixonou, nunca beijou, nunca pensou em se envolver com alguém - o que fica muito claro não só em seus momentos com Peeta, mas na forma como ela pensa em seu melhor amigo Gale. Apesar disso, se encontra o tempo todo envolvida em um ambiente absolutamente masculino: sobrevive da caça que pratica em uma área proibida, participa de um jogo onde, para sobreviver, deve saber manejar armas e por aí vai. E o tempo todo, se questionando sobre quem ela é, verdadeiramente.


Enfim, estou ansiosa pra saber a continuação. Volto com comentários sobre ela assim que terminar os próximos livros! 

Nome do Livro: The Hunger Games
Autora: Suzanne Collins
Editora: Scholastic
Nota no Skoob: 5/5

segunda-feira, 3 de junho de 2013

The Witch Must Die

Enfim, leitura concluída!

A bola da vez é o livro The Witch Must Die – The Hidden Meaning of Fairy Tales, do professor de psicologia Sheldon Cashdan. Não preciso nem dizer o quanto esse livro é bom, preciso? No meu caso, bastava avisar que era sobre contos de fadas. Juntou ‘análise psicológica’ e eu PRECISEI ler!

O livro é isso, uma análise da influência dos contos de fadas na “formação” psicológica (não sei se existe esse termo ou se psicólogos me matariam por falar besteira, então pus as aspas) das crianças. Pra isso, o autor não só tentou os contos originais (digo que foi tentativa porque esses contos tem tantas versões antigas que é quase impossível dizer qual é a original), como comentou um pouco as adaptações feitas a partir do século XX, principalmente por empresas como a Disney. Ele também separou os capítulos em pecados capitais, utilizando um conto principal para cada um – além de comentar outros contos relacionados, secundariamente.

A minha maior impressão é a de que eu queria que tivessem me contado a história original da Branca de Neve quando eu era criança. Sempre detestei a personagem da Disney, porque pra mim ela era boboca. Aprender que ela não só não era, como também cometia erros foi revelador. Se bem que, no meu caso, talvez fosse melhor ter ouvido as originais da Cinderela, ou ter dado mais atenção ao Mágico de Oz (o conto de fadas do século XX).

Eu também detestava o Pinóquio, que pra mim era bobo e ingênuo (já deu pra ver que personagens ingênuos me irritam? Hahaha Devo ser o Espantalho O.o). Há pouco tempo, lendo outro livro, aprendi que a história dele pode ser bem interessante. Agora confirmei: foi a Disney que tirou a essência dele quando fez o filme – mas aqui não entro em julgamentos, porque as mudanças feitas foram necessárias para adaptar a história à época. Uma criança que é tida como “perdida” porque não queria trabalhar não é uma coisa com a qual as pessoas do século XX se identificariam, não é?

Posso dizer, também, que voltei a gostar da Pequena Sereia, personagem que andava me dando “um pouco” de antipatia, graças à superexposição recente (alguns projetos com os quais me envolvi uns anos atrás).

Os contos são explicados aqui de acordo com sua função: THE WITCH MUST DIE porque, ao matarmos a bruxa, matamos nosso próprio lado obscuro. A bruxa É um lado do próprio protagonista, que é com quem nós (ou as crianças) nos identificamos. É o lado que devemos vencer pra que possamos nos desenvolver e seguir em frente. A Branca de Neve supera seu lado mais vaidosamente negativo quando a Rainha Má é derrotada, assim como a Cinderela lida com a inveja, Jack (ou João, no Brasil) vence a ganância matando o gigante, e por aí vai. Vitórias essas que deixam de fazer total sentido quando a Branca de Neve da Disney não se mostra vaidosa, ou quando releituras de João e o Pé de Feijão tentam mostrar o ponto de vista do Gigante, fazendo com que a criança se identifique com ele e sinta pena.

Ah, claro que fica óbvio que todos esses contos de fadas refletem lições adequadas à época em que eram contados, né? Hoje, as ações de alguns personagens pode parecer muito absurda, mas na época eram tidas como “adequadas”. Além disso, sofreram muitas mudanças quando foram registradas por pessoas como Perrault, os irmãos Grimm e outros, que adequaram alguns detalhes ao seu público. Perrault, por exemplo, adequou cada uma das histórias às crianças da alta sociedade, omitindo alguns detalhes tidos como muito sexuais ou violentos (é possível achar as mesmas histórias que ele contou em um livro dos Grimm com muito mais violência, por exemplo).

E pra quem acha que os contos de fadas vendem uma ideia machista, o autor também mostra versões atuais dessas histórias, além de uma antiga mesmo, compilada por uma escritora francesa. Minha próxima meta é ler Briar Rose, do escritor Robert Coover, uma releitura da Bela Adormecida.

O autor também comenta o futuro dos contos de fadas, e aqui vai uma das coisas que eu achei mais interessantes: os contos de fadas surgiram como histórias para adultos, sendo adaptados para crianças mais tarde, com o objetivo de ensiná-las lições. Ficaram com essa característica “infantil” por alguns séculos, mas voltaram a chamar a atenção dos adultos na transição do século XX pro XXI. E isso pode ser um indicativo muito forte de que, uma vez nas mãos dos adultos – como Briar Rose, que mostra dúvidas e questionamentos que jamais passariam na cabeça das crianças, como imortalidade –, abre-se o espaço para novas histórias, novas lições, novos contos de fadas. Uma nova geração de histórias que trabalham aspectos psicológicos utilizando fantasia e afins. E, muito provavelmente, serão esses novos contos que mostrarão a identidade do século XXI pros leitores (ou expectadores) do futuro.


Enfim, li esse livro emprestado, mas já está na minha lista de futuras compras!

Nome do livro: The Witch Must Die – The Hidden Meaning of Fairy Tales
Autor: Sheldon Cashdan, PhD.
Editora: Basic Books
283 páginas
Nota no Skoob: 5/5