sexta-feira, 5 de julho de 2013

Comprei um Kobo, e aí?


Eu tinha um monte de teorias e ideias sobre o futuro dos livros e dos hábitos de leitura. Desde que veio a internet, e com ela os downloads, todo mundo se arrisca em dar um palpite. A maioria (que eu vejo) critica. Muita gente já decretou a morte dos livros, das leituras. Confesso que quando comecei a ouvir isso, também tinha um certo medinho dos livros virarem peça de museu. Até que eu olhei pra minha estante e vi meus vinis e concluí que se os vinis ainda têm quem lhes dê valor, os livros também terão.

Tudo isso eu concluí apenas observando o que as pessoas falavam por aí, as invenções tecnológicas, os hábitos da população segundo pesquisas publicadas na mídia em geral. Até que eu resolvi comprar um Kobo.

Não foi uma compra muito planejada e pesquisada, eu confesso. Eu ouvia falar dos leitores digitais, achava um pouco distante da minha realidade (adoradora de livros mas sem muita verba pra comprar eletrônicos que não fossem estritamente necessários) e os ignorava. Via muitos e-books sendo vendidos na Amazon, via que eram muito mais baratos que livros físicos, mas ok, por enquanto eu preferia o papel mesmo. Um dia, pensando em acesso mais fácil a alguns livros (já que muitos dos que eu leio são em inglês, em versões internacionais), comecei a considerar. Olhei pra minha pilha de volumes de As Crônicas de Gelo e Fogo (com uma média de 700 páginas cada) e pensei que também seria ótimo ter livros mais fáceis de carregar na bolsa. Surgiu um freela, recebi um dinheiro que não tinha nenhum planejamento pra ser gasto, e fiz a compra.

Foi uma das melhores compras que já fiz.  Os últimos três livros que eu li (já comentados aqui – Jogos Vorazes, Em Chamas e Mockingjay) foram todos através do Kobo. E, bom, minha opinião agora vai se basear na experiência que tive com eles:

Leitores digitais são uma chance única que a humanidade tem de espalhar livros, ideias, conhecimento e facilitar o acesso à informação. Se a gente pensar em sites que oferecem livros gratuitos (como o Domínio Público ou o Project Guttenberg – e porque não livros postos para download mesmo ilegalmente, né), é uma oferta que não dá pra medir. Meu Kobo tem espaço (segundo as especificações) para 30 mil livros. TRINTA MIL LIVROS. Eu posso ter uma biblioteca gigantesca dentro da minha bolsa, disponível a hora que eu quiser.

E é aí que eu acho que a coisa é mais complicada do que “somente” o argumento da indústria e do prejuízo que editoras podem ter ao verem as vendas de livros físicos diminuírem. Por que, por trás disso, ainda temos a questão do acesso à informação. Mesmo sem na parte do hábito de leitura (que ainda é pequeno em alguns países, como aqui), podemos ver que o acesso facilitado ao conhecimento é algo perigosíssimo pra certos governos, pessoas no poder, ou qualquer coisa parecida. Um povo que sabe é um povo que pensa, e um povo que pensa é um povo que não engole qualquer coisa. (Me lembrou um comentário sobre Pinóquio feito no livro do Alberto Manguel, que eu também já comentei aqui) Então, imagina um povo que pode ter 30 mil livros na bolsa?

Ok, isso foi um comentário bem hipotético mesmo. Sabemos que primeiro esse povo teria que ter condições de saúde, alimentação e um monte de coisas, pra aí terem uma forma de adquirir um leitor digital, além do acesso à internet e afins, pra só depois ter todos esses livros à disposição. E, além disso, esse argumento só vale se estivermos falando de pessoas que têm o hábito ou ao menos valorizam a leitura.

Tá, mas aí vamos voltar pra discussão de sempre, a mais básica: e-books vão acabar com livros de papel?

Na minha opinião, baseada na minha experiência – que até agora foi bem curta –, é: NÃO SEI. O que eu pude perceber é que eu estou tendo a chance de ser mais seletiva. Meu quarto tem algumas estantes, mas que já não tem mais tanto espaço pra livros. Preciso controlar isso. O que eu faço? Escolho melhor o que eu vou comprar e colocar lá. Porque cada compra significa um espaço a menos pra outro futuro livro.  Com um leitor digital, eu posso ler antes de decidir comprar, no caso de um livro que eu não faça tanta questão assim. Mais ou menos como acontece com download de músicas. Já comprei CDs mesmo só conhecendo uma música deles, quando o acesso às mp3 era mais difícil. Hoje eu escuto na internet e, se for de um artista ou banda que eu gosto muito, compro.

Da minha parte, como eu sempre tive esse hábito, é bem capaz de eu comprar um livro ou outro por impulso sim, simplesmente porque achei a capa bonita na livraria, mesmo que a frequência disso diminua. Por outro lado, uma pessoa que pense mais antes de comprar pode acabar usando o leitor digital pra escolher melhor. Se gostar do livro e quiser tê-lo na estante, pode comprá-lo.

O oposto também pode acontecer: livros que eu jamais imaginava que leria um dia, não por falta de interesse, mas por não estarem na minha lista de prioridades de compra (uma lista que só existe porque a verba é limitada), ou por não serem tão facilmente acessíveis, podem estar disponíveis pra mim digitalmente. E, talvez, se eu ler um desses e gostar muito, faça um esforço maior pra comprá-lo. Mas, por favor, Livraria Cultura (onde eu comprei o Kobo), e-books não deveriam custar o mesmo valor que livros físicos. R$40 reais em um é meio absurdo, poxa! 

Se eu fiquei com vontade de comprar as versões físicas dos 3 livros de Jogos Vorazes? Sim. Mas em inglês (ando insatisfeita com algumas traduções ultimamente, então prefiro os originais).

Se eu me senti satisfeita lendo os livros digitais, sem necessidade de sentir o papel nos dedos? Durante essas leituras, sim. Nem senti falta de virar página.  Mas que não tirou a graça de voltar a pegar meu paperback velhinho de Fragile Things e escolher um conto qualquer, não tirou. O papel continua tão legal quanto sempre, as duas plataformas podem ser perfeitamente complementares, só dependendo das preferências de cada um.


Não sei qual o impacto que livros digitais e leitores vão ter nos hábitos de consumo de livros, mas posso dizer que acredito sim que vão haver mudanças na leitura e na relação com textos daqui pra frente, viu?

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