quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Revista Trasgo - Edição Piloto


Há alguns dias, pelo twitter da Karen Alvares, fiquei sabendo da criação da revista Trasgo, uma revista que seria dedicada a contos de fantasia e ficção científica, tentando não só incentivar a produção desse tipo de histórias no Brasil, como abrir espaço pra elas. Achei a iniciativa fantástica (rááá, trocadalho do carilho), porque não só concordo que esses dois estilos não andam muito fortes ultimamente, como também tenho minha vontade de me aventurar nesse mundo... (interesseeeeeeira!) 

Enfim, saiu a primeira edição, que eu baixei no site, e aqui estão meus comentários! Só deixando claro que eu escrevi cada um a medida em que ia lendo e que só depois descobri as entrevistas no final do livro hahaah E bom, não coloquei os nomes dos autores nesse post não só porque minha intenção é comentar os contos e como foi ler cada um deles, e não falar do trabalho de autores especificamente, como também quis dar fogo à revista como uma coisa só, e não como "um monte de contos nada a ver entre si colocados juntos", ok? Leiam a revista, que tem download gratuito, e divirtam-se!


Conto: Ventania

Qual a primeira coisa que vem à cabeça quando se lê o nome "Ventania" e a explicação de que o conto se passa no nordeste? Na minha, imediatamente veio a imagem de um cavalo correndo pelo sertão e causos fantásticos.Bom, não tem cavalos, a não ser os mecânicos (palavras do próprio autor). A ação não se passa exatamente no sertão, mas no litoral nordestino. Mais precisamente, em um farol gigantesco, o Ventania, que dá nome à história. 

Gosto de histórias "pós-apocalípticas", mas reconheço que não é sempre que a gente acha a coisa bem feita. Normalmente as pessoas se preocupam tanto em contar aventuras hollywoodianas que se esquecem da estrutura, do envolvimento do leitor... Não é o caso desta. Curti ainda mais a forma como algumas coisas são só sugeridas. Adoro quando o autor sugere coisas, confiando na inteligência e imaginação de quem está lendo. Fica chato quando tudo é explicadinho e óbvio. 

Outra coisa que eu "reparei": nunca li/vi Akira, mas vendo resumos e um pedacinho do filme, acabei associando as criaturas estranhas à história japonesa. Não sei se procede, mas algo me diz que sim, principalmente quando li a biografia do autor e vi que ele mora no Japão! :P

Pra encerrar, acho que foi uma ótima escolha pra começar a revista!


Conto: Azul

Bom, não é mistério pra ninguém que eu não gosto de histórias de terror/horror (tá, algumas de terror ainda vai, dependendo de como são estruturadas). E tenho a impressão de que ler "Azul" me fez perceber um dos motivos: eu fico um tempão me perguntando qual a explicação praquele elemento extra, justamente o elemento principal da história. Sou racional, gosto de explicações, e muitas dessas histórias simplesmente não tem explicação. Quando a gente lê uma história de fantasia (bem escrita), geralmente existem regras criadas para explicar elementos fantásticos, porque eles são capazes de fazer e provocar acontecimentos que seriam impossíveis no "mundo real". Em histórias de terror, isso não existe. A intenção é justamente que algo fique deslocado.

(Sobre eu não gostar de histórias de horror: eu não gosto de monstruosidades por monstruosidades, violência, assassinatos e afins. Não acho isso diversão, fim. Acho que em algumas histórias elas podem até ter um propósito melhor - como quando se conta uma história sobre alguma guerra - , mas nunca vi ter propósito em histórias de horror...)

Em Azul, eu fiquei sim me perguntando daonde saiu o tal do "azul". Mas eu sei que não interessa hahahaha É a estranheza que conta. E a estranheza está lá no conto, até o final, até o último momento. Não sei opinar muito sobre qual seria o efeito do conto pra quem curte o estilo, mas vale a pena ler e decidir! (e poxa, eu curtia tanto o Blue Man Group antes desse conto... :S)


Conto: Náufrago

Adorei a história desse conto. Acho que se a gente considerar a intenção da revista Trasgo, que é incentivar a produção de contos fantásticos no Brasil, "Náufrago" cumpriu perfeitamente a missão. E também achei muito legal a "tacada" do Caramuru! Misturar a história do Brasil com uma história de fantasia parece difícil, porque não vemos isso com muita frequência, mas o autor conseguiu fazer de um jeito que não soou forçado, nem cansativo, mas perfeitamente natural. Gostei muito mesmo!

A única coisa que eu senti um pouco incômoda no conto foi a parte da escrita. Acho que a história merecia uma revisão um pouco mais detalhada. Essa parte é importantíssima, acho que inclusive influencia em como o conto é lido, a fluência, o quanto a história nos prende. Já larguei um livro no meio porque não suportava a estrutura gramatical e ortográfica. E olha que eu não me considero muito chata nisso, nem sou fã de coisas muito bonitinhas e "cheias de frescura", com cara de literatura clássica. Adoro histórias que usam a linguagem popular mesmo, do dia a dia, mas acho que mesmo nesses casos, a pontuação tem uma enorme influencia. É ela que dá as respirações, as pausas dramáticas, que tira o fôlego... Sorte que a história do conto é legal e salvou!


Conto: Gente é tão bom!

Eu confesso, não sei se entendi esse conto. Talvez não tenha o que entender. Me pareceu uma crítica à sociedade mas, se for mesmo, acho que esse lado poderia ter sido mais desenvolvido, não sei... Me pareceu no meio do caminho entre a fantasia e a ficção científica: neve amarela? Mágica! Ou talvez tenha uma explicação científica (como um acidente em experimentos de uma fábrica). Ainda assim, meio indefinido. E tão pequenininho! 

Outra coisa que eu posso dizer é que tive a impressão de que a autora tava tentando convencer os leitores a não comer coisas industrializadas (tipo o frango - e eu saquei a crítica, mas acho que ela ficou um pouco na superfície, então tem hora que eu não tinha certeza...). A protagonista, que não é lá das mais simpáticas (e que mostra aquele lado mal humorado e sem regrinhas morais) é a parte que eu gostei do conto. Mas mesmo ela eu acho que poderia render mais coisas. Quando eu começo a me identificar, tenho vontade de ter mais acesso, mais informações, mas aí o conto acabou :S


Conto: A Torre e o Dragão

Na minha cabeça, esse conto tem duas partes: a história principal, que aparece já no início, e a história de Tristam na cidadela, "contada" pela Princesa na Torre. Essa segunda parte é uma história "normal", com aquele clima de fantasia tradicional, onde um rapaz simples tenta crescer e correr atrás dos sonhos, se transformando em Cavaleiro. Legal, mas normal.

O que chama atenção no conto, e que me fez gostar BASTANTE dele, é a primeira parte que eu mencionei, a parte maior e principal: a Princesa na Torre. Não é a descrição da princesa ou do lugar onde ela está (hahaha não consegui não pensar na Fiona presa no castelo quando o Shrek vai resgatá-la, MALZ AE! HAHA), mas o que se passa na cabeça dela. É o lado psicológico que dá o tom e a graça da história: no começo, como uma forma de fazer o leitor pensar no que a Princesa encarcerada sente, já que, normalmente, só prestamos atenção nos acontecimentos e no lado "bonitinho e fantasioso" desse tipo de história; depois, como uma forma de mostrar que essas histórias podem ter outro significado, um mais profundo e complexo. Aliás, essa palavra "complexo" acaba sendo um ótimo adjetivo pra história. É como se finalmente tivéssemos um conto de fadas contemporâneo, onde o sujeito não é simplesmente um arquétipo ou estereótipo, mas tivesse várias facetas (professora de Psicologia ia curtir ver que eu lembro dos textos do Morin, AHN HEIN!). E curti a apresentação da Princesa, que vem devagar, revelando um pouquinho de cada vez, à medida em que a história é contada. Gostei mesmo do conto!


Ilustrações de Filipe Pagliuso: Curti, mas não entendo nada de ilustrações, não me sinto no direito de falar "é legal por isso, gostei do traço X". Sei que me lembram ilustrações de livros de RPG (que eu nunca joguei, mas gostava de folhear quando era adolescente). E ajudam a dar um clima legal pra revista!

4 comentários:

  1. Poxa, você não gosta mesmo de terror, hein?! O_o Buá, buá... =/
    Quem sabe se você lesse meu conto de fantasia + romance, "A Dama das Ameixas"? Só pra me dar mais uma chance? Nem sempre eu faço terror... rsrsrs
    Eu curti muito essa revista, achei que ela ficou super caprichada, trabalho bem profissional mesmo. O conto da Mel eu conhecia há muito tempo, revisei logo depois que ela escreveu, isso que você falou é totalmente verdade, mostra um lado dos contos de fadas que a gente nem se ligava, o do sofrimento da princesa e tals... Não é nada romântico, é mais real mesmo.
    Um dos meus preferidos aqui foi o conto Náufrago, gostei muito dessa mistura da história com a fantasia, ficou super bacana!
    Também não sei falar de desenho, mas os do Filipe foram incríveis para meus olhos amadores! rsrs

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    1. hhahaha confesso que até achei paia meu comentário, fiquei com aquele sentimento de culpa de "mas poxa, c só sabe falar q num gosta, é? muda o disco!" hahahaha Depois vou ver o outro conto!!! :)

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  2. Obrigada pela resenha. Eu também gostei da seleção de contos da Trasgo nessa edição, acho que ficou bem bacana, apresentando vários tipos de histórias fantásticas e de ficção científica.

    Fiquei muito feliz que você tenha gostado do meu conto. Realmente, são duas histórias, uma dentro da outra, mas acho que elas se complementam num certo sentido. Fiquei lisonjeada com seu comentários sobre ser um "conto de fadas contemporâneo". Que bom que foi uma leitura legal pra você.

    Ah, e sobre a Karen, ela escreve coisas não-terror, de fantasia. E é bem legal. Vale a pena dar uma olhada. :)

    Falar de desenho é complicado, né, mas gostei do que vi, assim, desse meu jeito super não-profissional. A revista ficou bem feita. Disponibilizar em ebook foi uma ótima ideia, porque ler em pdf é complicado...



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    1. Dando um pitacão, acho inclusive q vc devia investir num romance inteiro com uma história parecida, hein :)

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