sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sandman - Os Caçadores de Sonhos


Eu gosto das entrelinhas. Gosto do que é implícito. Do que não é revelado logo de cara, do que está por trás. Costumo ver essas coisas como as verdades escondidas por aí. Pra mim, o mundo não é o assalto, a corrupção, os crimes e sacanagens que os noticiários exibem. “Pé no chão” e “realismo” não são julgar tudo que existe com base no que o jornal ou os outros falam.

Pra mim, a realidade está nas fantasias. Sim, nas fábulas, nas lendas, nos mitos (principalmente naqueles que repetem padrões). Está nas histórias que as pessoas contam desde sempre, nos sonhos que elas têm (dormindo ou acordadas), no que motiva as ações de todo mundo.  Não sei explicar porquê, sempre foi assim pra mim.

Talvez seja por isso que eu goste tanto das coisas que o Neil Gaiman escreve. Quando eu leio, tenho a impressão de que ele pensa assim também, e tenta entrar nesse mundo que fica atrás das cortinas, debaixo do tapete, atrás das névoas, ver o que acontece, o que ele faz. E, muitas vezes, parece que ele consegue mostrar pra gente um pouquinho do que tem lá. Nenhum livro conseguiu me dar uma sensação desse tipo mais do que American Gods – que inclusive inspirou uma tatuagem minha, sobre os deuses virem do coração.

Mas acho que até hoje é difícil superar Sandman. É, aquela história que muita gente torce a cara porque é em quadrinhos (graphic novel, na verdade), porque foi publicada pela mesma editora do Superman (a Vertigo, selo que publica Sandman, pertence à DC Comics), porque tem personagens considerados fantasiosos e bobos demais.

Só que bastou eu ler o Annotated Sandman (versão da graphic novel com explicações, fundamentações e interpretações para cada detalhe) pra ver que tem mais coisas ali do que a gente imagina (foi uma leitura bem demorada até, porque tinha explicação pra cada quadro da história. E eu só tenho 2 volumes, hein).

Enfim, esse post é sobre um pedaço específico de Sandman, que é subdividida em diversos arcos (ou histórias mesmo).

É sobre “Os Caçadores de Sonhos”.

Eu não conheço muito sobre a mitologia/imaginário japonês, que inspira essa história, mas sempre tive a impressão de que é tudo mais bonito, mais intenso, mas ao mesmo tempo delicado e sutil. E “Os Caçadores de Sonhos” é exatamente isso.

A edição que eu li (comprei na FNAC) é em português e em formato de prosa, com o texto dividindo espaço com ilustrações (lindas). É uma adaptação da história que foi publicada há alguns anos em forma de quadrinhos mesmo.

Nela, Gaiman reconta uma lenda antiga japonesa, mas claramente adaptando tudo ao universo de Sandman, onde sonhos não são “só” sonhos. Um monge e uma raposa se envolvem, mas precisam enfrentar os sonhos e a morte e, no final, aprendem lições. E não sabemos claramente que lições são essas, só que elas estão lá, podem ter certeza. Cada um tira as suas, da mesma forma que cada um enxerga o Sonho de uma maneira própria...

Nós, leitores, também tiramos lições. São as que a gente aprende todo dia ouvindo histórias, lendas, mitos. Lições que sempre estiveram por aí, mas nem todo mundo presta atenção.

É uma história linda, recomendo muito! Li em uma manhã, numa “sentada” só!


A edição é capa dura, papel de qualidade e precinho muito amigável (vinte e poucos reais)! Nunca li a versão em quadrinhos, mas ouvi falar que essa versão em prosa dá um show e está muito melhor! Também dá um ótimo presente – pra quem ainda faltou algum :P

Nome: Sandman - Os Caçadores de Sonhos
Autor: Neil Gaiman
Ilustrações: Yoshitaka Amano
Páginas: 132
Editora: Panini (no Brasil)
Nota no Skoob: 5/5

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Revista Trasgo 5


Finalmente acabei de ler alguma coisa! Hahaha

Assim que chegou a 5ª edição da Revista Trasgo, baixei, coloquei no Kobo e comecei a ler. Mas como o fim de ano foi um dos mais movimentados que já tive, acabei lendo de forma meio picada, um conto de cada vez, em cada pausa que eu encontrava. Isso me fez ter menos daquela sensação de conjunto, da revista como uma coisa única. Senti como se estivesse lendo contos avulsos por aí mesmo.

Alguns contos pareceram “curiosos”, outros interessantes, outros surpreendentes, outros com a sensação de “mas hein?”

Curti o conto “O preço da cura”, mas que pra mim ficou com cara de prólogo, deixou a sensação de “cadê? O que aconteceu com a menina?” (assim que é bom, né). Já o “Isso é tudo, Pessoal” me fez pensar em Interstelar (é, o filme do Nolan): duvido que o pessoal das estações era toda a população do mundo, ainda que ela já estivesse reduzida. Então o que aconteceu com quem ficou? Também gostei de “Canção Abissal”, que foi o toque de fantasia inocente do jeito que eu gosto! Hehehe

Gosto dessa junção de contos diferentes que a Trasgo faz. Antes dela eu não costumava ler muitas revistas de literatura, confesso. Comecei a ler porque ela surgiu no exato momento em que eu senti necessidade de saber o que tava sendo feito na literatura de fantasia e ficção científica no Brasil. A gente só costuma ver Harry Potters da vida (e Neil Gaiman), e eu realmente queria saber se existiam escritores se aventurando na área por aqui, e como eles estavam fazendo isso. Encontrei de tudo: ideias legais, estilos legais, ideias legais que poderiam ser melhor trabalhadas, estilos legais que compensavam ideias não tão legais, contos que não curti tanto porque não eram o que eu gosto de ler, contos que eu achei que não ia curtir mas gostei bastante, e por aí vai. Ou seja, TUDO. E isso foi bem legal!

Só pra deixar claro, eu não tenho nada contra ler só autores estrangeiros, ou só autor brasileiro. Nunca me importei em separar ou definir bem as coisas. Minha visão é de ‘mundo globalizado’, leio e gosto do que eu quiser. Mas ver que a coisa também tava ganhando espaço na minha terra foi bem legal porque deu a sensação de proximidade, de fazer parte da minha realidade também. 

A Trasgo está na 5ª edição, pela primeira vez sendo vendida (iniciativa muito legal, porque aí os autores poderão receber pelo próprio trabalho, o que é sempre justo) – as 4º primeiras edições foram gratuitas, pra gente conhecer a revista. Rolou uma promoção interessante, onde quem publicasse sobre as 4 primeiras edições no próprio blog ganharia uma assinatura com as 4 próximas edições, e por isso ganhei essa 5ª edição. Dá pra comprar ela AQUI (também com a opção de assinar várias edições, com um preço bem válido)

Mas o mais legal é que eu também ganhei a chance de dar pra algum interessado essa 5ª edição + uma assinatura anual, sem custos, pra mais gente conhecer a revista. A sugestão foi dar ou fazer sorteio com leitores e tal. Mas como eu sei que meu blog é bastante pessoal, sem muito público definido, vou dar a edição pra quem manifestar interesse! Então vamos lá: se você ficou curioso e quer ler, me fale e seja feliz! hehehe

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Por aí...


Então, muito tempo que não posto nada, né? Soa clichê, mas fim de ano é difícil pra leitores que tem vidas paralelas hahaha Não só as coisas apertaram na faculdade, como peguei freelas de revisão de texto (pelo menos continuei lendo :P) e mais alguns trabalhos. Tinha que garantir as férias, já que a renda diminui nessa época, né?

Eu não cheguei a parar ficção e coisas afins, eu só não conseguia terminar nada por conta do tempo. Continuo defendendo que não existe 'não ter tempo pra ler', até porque tem sempre aqueles momentos em que a gente tá em fila de espera, leva um bolo, atrasa um compromisso... e por aí vai. Estava lendo uma biografia do Tolkien, que ainda não terminei, mas assim que conseguir posto aqui!

Só que provavelmente vai ser depois da Revista Trasgo 5, que me fez furar a fila de leitura! Tá em passos lentos também, mas já já posto!

Além da Trasgo 5 (no Kobo), a lista de leitura tem esses outros livros da foto, que foram as aquisições/presentes recentes. Já li Jogos Vorazes em inglês (ebooks), mas sentia falta de ter os livros físicos, já que curto a trilogia. comprei em português na Black Friday! \o/ Tem também Sandman - Os Caçadores de Sonhos, que eu não li ainda mas visualmente posso dizer que é LINDO, além da edição especial de The Lord of the Rings (sim, pretendo reler tudo em inglês agora) e outros 3 livros que comprei numa promoção na Livraria da UFMG. E mais alguns ebooks que estão no Kobo, ou seja, a fila tá grande!

Bora aproveitar as férias!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Dragão de Gelo


Se você tem um filho pequeno, ou sobrinho, ou afilhado, ou filho da amiga do vizinho do namorado (e por aí vai), e quer introduzi-lo ao mundo de George Martin, está aí a sua chance: dê a ele uma cópia de O Dragão de Gelo! Se for menina então, aumentam as chances de ela se identificar com a protagonista, Adara.

Adara é uma menina de sete anos que vive com a família em uma fazenda no Norte. Não é uma menina comum: Adara é filha do inverno, fria como o gelo. Seus sorrisos são divididos com poucas pessoas, e ela não costuma chorar. Sua mãe faleceu no momento em que ela nasceu, quando o inverno a tomou.

Que poético!

Enfim, o que todo mundo quer saber é: qual a relação entre O Dragão de Gelo e as famosas Crônicas de Gelo e Fogo, ou, como é conhecida entre os fãs que só assistem à série, Guerra dos Tronos?

Na primeira vez que ouvi falar sobre o livro, era como se fosse um spoiler para o que ainda está por vir na história. O Dragão de Gelo entregaria a explicação sobre como uma coisa muito grande e importante aconteceu. Bom, eu já tinha lido a teoria conspiratória na internet, então o livro só me confirmou que as chances de ela ser verdadeira eram grandes. Mas se você não sabe de teoria conspiratória nenhuma, não leu os livros (ou leu, mas não todos os que já saíram), só acompanha a série de TV, e por aí vai, não se preocupe: o livro infantil não entrega nada de cara assim. Ele apenas apresenta um novo elemento que não vemos nas Crônicas: um dragão de gelo. Sim, óbvio desse jeito, principalmente pra quem se apegou aos dragões de fogo da Daenerys.

A história é bonitinha, com cara de lendas muito antigas de povos com tradição bem forte, daquelas que contam como uma montanha surgiu, ou como os oceanos foram formados e tal. Pras crianças que se sentem deslocadas, pode ser bem legal acompanhar Adara, que não é muito bem compreendida por se dar bem com o inverno.

E gente, tem ilustrações muito legais!


A escrita é bem simples, com frases curtas e bem claras, bem como costumam ser os livros infantis mesmo. Mas não quer dizer que adultos também não possam ler, hein!

Nome: O Dragão de Gelo
Autor: George R. R. Martin
Editora: LeYa
Páginas: 128
Nota no Skoob: 4/5

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Charlotte Sometimes



Comecei a leitura tão perdida quanto Júlio, o protagonista.

"Quê que é isso? Quê que tá acontecendo, alguém me explica? Não to entendendo nada!" - a escrita "amontoada", sem pontos nem parágrafos, sem fôlego nenhum, reforça essa sensação de bagunça, de falta de direção.

Aos poucos, quando Júlio começa a se localizar, a gente também se localiza na leitura. E aí a gente percebe que está na cabeça dele, e que a confusão que sentimos no início da leitura era a própria confusão do personagem ao não saber o que estava acontecendo. As palavras se atropelavam como um fluxo de pensamentos muito rápido e muito cheio, uma confusão mental, um atordoamento de quem acabou de se perceber em um lugar estranho sem conseguir se contextualizar. 

E a sacada é muito legal. Curti tanto a "reviravolta" sobre quem está controlando as coisas ali, quanto a ideia de que sonhos tem vida dentro deles, inclusive em sentidos que vão além da interpretação que a gente possa fazer automaticamente. 

Curti ainda mais a ideia de que uma música pode trazer tanto à tona (e pode mesmo, né). Charlotte Sometimes, do The Cure, que provoca sensações e ativa memórias que aparecem de vez em quando, mas que mantém algumas coisas ali pra sempre (é, pode-se fazer um trocadilho aí, mas achei que fazer em forma de piadinha ia desfazer o tanto que a ideia é legal).


Enfim, ando meio atarefada e cheia de coisas, mas às vezes é bom parar e dar uma lidinha, né? hehehe Nessas horas, é sempre bom ir atrás de contos. Este eu li numa "sentada", super rapidinho (eu até ia achar legal se ele demorasse mais um pouquinho, porque foi um conto legal). Se você é da turma que fala que não tem tempo pra ler, que tal tentar histórias curtas? :P

Nome: Charlotte Sometimes
Autor: Fábio Fernandes
Editora: Draco (Série Contos do Dragão)
Páginas: 18
Nota no Skoob: 5/5


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

If I Stay


Um dia desses vi uma entrevista com a Chloë Moretz sobre o novo filme dela, Se Eu Ficar, e me interessei pela história. Consegui o ebook (agora to com a “política” de só arrumar livro físico se eu realmente fizer muita questão e for uma edição especial, porque, GENTE, NÃO TEM ESPAÇO :O) em inglês, e acabei de ler agora.

Não sei bem o que dizer. Não queria fazer um textinho propaganda, com um resumo clichê da história – isso vocês vão encontrar muito fácil por aí, ainda mais porque o filme tá aí. Então vou me ater ao que eu sempre considerei a intenção do blog: falar minha impressão inicial, minha sensação lendo a história.

Como muitas chamadas já devem ter dito por aí, Se Eu Ficar mostra um dia na vida de Mia Hall logo após sofrer um acidente de carro que levou sua família inteira. Em coma no hospital, ela acompanha tudo o que acontece (numa daquelas experiências extracorpóreas ou algo assim, sei lá como chamam) enquanto tem que decidir se fica ou se acompanha seus pais e seu irmão mais novo. Nisso, o livro vai intercalando cenas do hospital com memórias que surgem relativas a cada pessoa que aparece pra visitá-la, mostrando o peso que cada uma tem pra sua decisão.

É uma história para o público jovem, mas bem profunda. No começo, pode ser que algum leitor ache que a Mia está bem demais pra quem acabou de viver uma tragédia, que ela consegue organizar muito bem os pensamentos, narrar acontecimentos e por aí vai. Mas aos poucos, a gente vai entendendo que não é bem assim: no estado em que está, ela ainda parece um pouco “entorpecida”, ao mesmo tempo que em estado suspenso. Enquanto não decide, ela também não “vive” (trocadilho sem querer hehehe) a dor, as informações, os acontecimentos. É como se ela estivesse esperando mesmo.

De um lado, o fato de ter perdido os pais e o irmão. De outro, o violoncelo (e eu preciso dizer, como alguém da Música, que achei muito legal o modo como a relação dela com o instrumento aparece, como algo bem natural, que surgiu e ganhou importância aos poucos, sem planejamento, mas que é uma parte poderosíssima em sua vida – Mia é tão talentosa que um dos fatores de peso é a probabilidade muito forte de ela ir estudar na Juilliard School, escola hiper tradicional na área, sonho de muita gente), e Adam, o namorado que vive em um mundo totalmente diferente do dela, mas que em momento algum duvidamos que deveria estar com ela.

Não sei até que ponto o filme consegue transmitir o peso e a profundidade de tudo o que Mia pensa e “sente”, pois aqui acontece o mesmo que em Jogos Vorazes: o livro está em primeira pessoa, o que consegue fazer com que tenhamos acesso aos pensamentos da personagem e perceber quando ela age de uma forma contraditória ao que pensa/sente. Ali, deu no que deu: Katniss heroína adolescente com romancezinho bobo fazendo adolescentes suspirarem, ao invés de uma menina quebrada e envelhecida pela dureza que a cerca, etc e tal. Veremos. Ignoraram tudo o que tem de decente em Jogos Vorazes pra comparar com Divergente (esse sim, livro adolescente bobo e ingênuo), e tenho minhas desconfianças de que Se Eu Ficar acabe sendo jogado no grupo dos dramas adolescentes que A Culpa é das Estrelas encabeça (o livro é legal, mas o "auê" em torno do filme não). Não curto essas coisas, que eu considero deturpações – poxa, tem bem mais que um romancezinho nessas histórias! –, mas sei que faz parte, né?

E não, o fato de ter um namorado com cara de relacionamento perfeito não faz com que vire romance malhação, pelo menos na minha opinião. Adam está na história por um motivo: desorganizar a “ordem natural das coisas” na vida de Mia. A história deixa bem claro que sem ele, Mia teria tido uma vida tranquila e “normal”, seguido pra Juilliard, se transformado numa grande violoncelista e por aí vai, ou mesmo não ter dúvida se ficaria depois do acidente. Ele é um peso em um lado da balança, um algo a mais que um simples namorado de colégio – como a mãe de Mia diz, uma complicação que é boa, mas que veio cedo demais para Mia, que tem 17 anos e está bem na fase de fazer escolhas e mudanças na vida (significativo, não?)

Enfim, eu curti bastante o livro! Só teve um momento que eu achei meio forçação de barra: quando a amiga da família, que é enfermeira, surge quase como um milagre e resolve todo o “problema” burocrático do hospital, que obviamente tem regras de visitação e tal, depois de todo um showzinho (no sentido literal) pra burlar essa questão.  Mas isso é pequeno, dá pra relevar :)

Historinha curiosa que aconteceu quando eu decidi ler o livro: não prestei atenção no nome da autora e peguei o primeiro ebook com o título If I Stay que encontrei. O resultado foi um livro até bem escrito, mas que (não sei bem se entendi direito) se envolve com um professor na faculdade, e com um cara que conheceu na balada, incentivada pelo amigo gay imensamente sedutor ou algo assim, com um clima bem "apimentado". Larguei quando percebi que era o livro errado, mas procurei algum comentário na internet pra saber do que se tratava e achei engraçado :P

Nome: If I Stay
Autora: Gayle Forman
Páginas: 272
Nota no Skoob: 4/5

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Revista Trasgo #4



Gente, essa edição da Revista Trasgo TÁ DE PARABÉNS, viu? Acabei minha leitura com cara de *.* (não consigo me expressar melhor do que com esse ‘emoticon’) e fantasiando horrores na minha própria cabeça hahaha

Na verdade, eu acho que a ordem dos contos contribuiu pra isso. No começo, eu lia e achava legal, mas aí iam passando as histórias e a coisa ia ficando cada vez melhor!

O clima geral, explicando com uma comparação meio simplista mas bem prática, é a de que eu estava revendo (ou vendo novos) filmes clássicos de fantasia da Sessão da Tarde, daqueles que eu adorava quando era mais nova. Pra mim isso é elogio, até porque eu considero que a Sessão da Tarde de quando eu ficava em casa vendo TV era outra completamente diferente da de hoje em dia, que só mostra filme de princesa adolescente Disney besta e umas comediazinhas chatas. (tem que deixar claro, vai que alguém não entende a minha comparação hahaha)

Eu me senti vendo filmes do Tim Burton, ficções científicas tipo Perdidos no Espaço (eu curto, tá!), histórias de fantasia tipo Abracadabra e... Labirinto! Foi uma leitura cheia de nostalgia junto com novas descobertas, mais o alívio de poder escrever só elogios à revista inteira!

Então vamo lá comentar conto por conto (da última vez acho que eu não quis fazer isso pra não ficar cansativo, mas dessa vez tem contos que eu faço questão de comentar):

Rendição do Serviço de Guarda

Esse é um conto meio Space Opera, onde os humanos estão envolvidos (ainda que não saibam) com uma guerra que dura milênios (bom, eu discutiria – de um jeito legal – os motivos da tal guerra, mas isso é secundário haahah), entre diversos povos de diversos planetas por aí. E curti que o conto não tem intenção de ser amostra de um livro maior, mas uma cena bem específica de uma história que pode ou não crescer – porque assim fica mais completo, mais independente e mais fluido. Aliás, “fluido” é uma palavra legal, porque finalmente li um conto de ficção científica brasileiro sem parecer que tava lendo um artigo científico hahaha. Só tive minha ressalva com o tanto de variações de “lograr” que surgiu nos últimos parágrafos da história, mas relevei. :P

Vivo. Morto. X

Esse conto me pareceu bem no estilo dos contos fantásticos clássicos, daqueles que acontecem no mundo real, com elementos reais e corriqueiros, até que uma coisa que não deveria estar ali aparece. Uma “coisa” até legal, que eu consegui visualizar bem nitidamente na minha cabeça, e que também me lembra Neil Gaiman (tudo me lembra, né haahha). O conto é curto, e o clima meio suspenso no final, bem no estilo “não há nada que você possa fazer quanto a isso” é uma das melhores coisas.

Isaac

Eu acabei esse conto meio sem reação. Meio “hein?”, sem saber o que pensar. O personagem Isaac aqui está disposto a se sacrificar pelo futuro da humanidade - como na Bíblia -, e há algumas referências como alguns cortes (olha eu tentando não entregar a história hahah) e a relação com deuses. Acho que o que me deixou meio no ar quando acabei de ler não foi o conto ser bom ou ruim, mas eu pensar que o cenário é assustador e tem uma visão tão pessimista com relação à humanidade que me incomodou. Sou uma pessoa otimista nesses assuntos :P (mas não se preocupem, as perspectivas pro futuro na história parecem melhores!)

Estive assombrando seus sonhos

Eu li esse conto me sentindo em filmes do Tim Burton, ou Abracadabra, ou qualquer dessas histórias com seres estranhos e monstros incompreendidos, mas que são legais! A história me pareceu super bonitinha, e curti a intenção de mostrar que justamente as coisas que não entendemos e que são tidas como medonhas no mundo podem ser as mais bonitas e emocionantes – aprendizado do próprio protagonista ao longo do conto. Visualmente, minha cabeça associou àquele filme Dark Shadows, meio sombrio mas colorido hehehe

Arca dos Sonhos

Foi aqui que eu decretei que essa foi a melhor Revista Trasgo até agora! A princípio, é uma história de ficção científica sobre uma nave/arca que viaja pelo espaço com um propósito específico. Mas durante a leitura, me pareceu que pendia bem mais pra fantasia mesmo, tanto na linguagem como no que era importante na história. A forma como o Capitão e a Arca eram um só, como se comportavam, o clima de esperança de algo a ser alcançado, tudo só realça a segunda parte do título. Não é o espaço que interessa, nem a tecnologia, nem a decisão da humanidade de realizar um feito que outras espécies do universo consideram absurda, nem o lado científico envolvido. São os sonhos, a expectativa, a espera. E o que acontece enquanto não se chega lá. Eu, particularmente, acho isso lindo. (mas claro que os sonhos também tem uma relação mais ‘concreta’ na história, aparecendo também no lado prático de como a Arca funciona, né :P) 

E mais uma vez associei a filmes: um pouco de Planeta do Tesouro (temas náuticos no espaço!), e um pouco daquele Titan

No Labirinto

Para tudo aí e vai assistir Labirinto, aquele filme do David Bowie, se você nunca viu! Aqui aparece um olhar diferente do reino encantado e imortal onde vivia o Rei “Bowie”, e pra onde a mocinha viaja e vive sua aventura. Só que aqui é um pouco mais adulto e tal. Tem o mesmo clima de ritual de passagem mágico que a personagem passa num momento em que considera sua vida meio entediante, mas com um desafio um pouco maior (eu achei). Associei não só ao filme, mas também à história da Morte, no livro Noites Sem Fim, do Neil Gaiman (só pra quem não conhece: na história, a Morte precisa entrar num castelo parado no tempo há séculos, onde os habitantes vivem numa festa eterna - e meio tensa – e dar um jeito na coisa). Só que o conto é mais mágico, mais brilhante. Outra referência que me veio à mente foi Sonho de Uma Noite de Verão e todo aquele mundo das fadas governado pela Titânia...

Eu acho que talvez fosse mais legal se o final ficasse mais no ar, mas entendo que a intenção é outra. Ele tem bem a cara do filme Labirinto mesmo, do tipo “tudo acaba bem, calma!” hehehe


Essa foi a última edição grátis da Revista Trasgo, que a partir de agora será paga. Acho a cobrança necessária pra mantê-la existindo e para atrair autores bons (além de valorizá-los, claro). Também vai começar a rolar alguma publicidade nela, algo já experimentado nessa 4a edição. Se continuar sendo como foi, por mim está tranquilo, não atrapalha em nada uma paginazinha de propaganda entre um conto e outro (só não vou curtir se interromper, hein! :P). Bora lá conhecer a Revista e incentivar a literatura de ficção científica e fantasia nacionais!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Pó de Lua


Vou confessar pra vocês: eu costumo dizer a mim mesma que não gosto de poesia. :S

Vou explicar: já li um tanto, já estudei na faculdade, tenho alguns livros de poetas famosinhos em épocas em que me empolguei com alguma temática específica (tipo comprar uma coletânea do Baudelaire quando eu tinha mania de “gótica” hahaah). Mas um dia me dei conta de que a minha relação com esse tipo de texto era meio vazia, não rolava identificação, eu lia e ficava nisso. Nunca mexeu comigo. Era mais um jogo de palavras com rimas e métrica (e eu curti aprender a separar sílabas em poemas, achava o raciocínio muito legal) que não tinha nada a ver comigo. Era como ler uma história de outra pessoa e pensar ‘legal, mas não me interessou’. Às vezes, eu até achava que faltava a história, que eram palavras meio soltas só pra rimar. O que eu curto em literatura são as narrativas, a imaginação. Por isso sempre preferi textos em prosa.

Mas enfim, não odeio, então sempre dou uma chance. :P

Nessa, um dia vi no perfil da Intrínseca que iam lançar um livro com os poeminhas desenhados de uma página do facebook chamada “Pó de Lua”. E como tudo que tem qualquer coisa de céu, estrelas, espaço e etc no meio me atrai, fui checar. Curti a página, achei cada posto super bonitinho, tanto no conteúdo quanto visualmente... e comprei o livro, que estava na pré-venda.

Essa semana ele chegou, e eu devorei em pouco tempo. Gente, é lindo, to apaixonada S2

O livro é dividido em 4 partes, uma pra cada fase da Lua. Alguns poemas ocupam uma página, outros ocupam duas, e todos são desenhados (e lindos). E o melhor: me identifiquei com muitos deles.

Foi a primeira vez que li poesia e senti que ela falava comigo, lá dentro, encontrando pedacinhos escondidos de mim mesma que tinham a ver com o que estava escrito ali. Me senti meio Lua!

Gostei como a Clarice Freire, a autora, pega coisas aparentemente insignificantes e transforma em mensagens bonitas. Coisas no sentido literal, objetos que normalmente a gente trata como corriqueiros: fósforo, tomada e balão, entre outras coisas. Também curti como ela parece dar uma outra visão pra “símbolos” que já estão em todos os cantos e que normalmente a gente nem se dá ao trabalho de interpretar, porque o mundo já tem interpretações prontas (como o Sol, a própria Lua, a alma, o mundo...)

Minha leitura teve o tempo todo esse clima de poesia, de delicadeza, de beleza. De ver o lado bonito de coisas que as pessoas estão acostumadas a tratar como dor. Enfim, um clima de vida que é bonita nas coisas pequenas do dia a dia.

Vai virar livro de cabeceira, desses que a gente pega de vez em quando e folheia. Li ele todo seguido, mas dá perfeitamente pra abrir em páginas aleatórias e ler algo legal. As vezes, algo legal que fala exatamente o que a gente tá precisando ouvir :)

Nome: Pó de Lua - Para diminuir a gravidade das coisas
Autora: Clarice Freire
Editora: Intrínseca
Páginas: 192
Nota no Skoob: 5/5


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Antologia da Literatura Fantástica


Há uns dias atrás a Cosac Naify fez uma promoção com descontos maravilindos, e claro que eu quis aproveitar. Como estava sem verba pra uma compra gigantesca, acabei ficando só com esse livro, que vale por vários e é daqueles que a gente quer exibir na biblioteca pessoal. :P

Na verdade, comprei sem saber muito o que esperar. Minhas expectativas se basearam apenas no título e nos autores: “Antologia da Literatura Fantástica” me fez pensar em um apanhado de contos de um dos meus estilos favoritos reunidos, e a chance de conhecer mais contos que eu nunca ouvi falar. “Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo”, os organizadores, me fizeram pensar em garantia de qualidade na seleção e nas traduções (que eles mesmos fizeram).

Bom, essa é a primeira vez que escrevo aqui sobre um livro que não acabei de ler. Aliás, não li nem a metade. Antologias não são pra ser devoradas, são pra ser “degustadas”. Um dia a gente pega o livro e lê um conto, digere, processa a informação, decide o que achou... em outro dia a gente pega outro. Em alguns dias pegamos vários ao mesmo tempo, dos curtinhos, por curiosidade e empolgação. E por aí vai.

Uma das primeiras coisas que noite quando comecei a ler os primeiros contos é que eu tava com MUITA SAUDADE de literatura bem escrita, viu? Digo ‘bem escrita’ no sentido de cuidado com palavras, alguma sensação de cuidado com as palavras escolhidas e não só com o conteúdo da história. Vou ter que confessar pra vocês que, investindo muito em livros de autores atuais, esse quesito as vezes anda muito sumido, quase descuidado mesmo.

Ok, em alguns contos o estilo vai parecer bem rebuscado, cansativo e exagerado, mas a gente tem que lembrar que pode ser característica da época (até agora, os contos que li são do século XIX ou do início do século XX, época em que tudo tinha que ser racional, rebuscado, poético e científico ao mesmo tempo, e cheio de expressões em francês – quando os personagens são “cultos”). Mas não consideraria isso algo ruim. No máximo me faz alertar: não é pra leitores “jovens”, é pesado e eu recomendaria a leitura somente depois que a pessoa já tiver costume e gosto e hábito e tudo o mais, uma certa “fluência pra ler”, sabe?

A edição brasileira fez uma tradução de tudo a partir da tradução dos organizadores (que escreveram em espanhol, né), pra manter o estilo e as intenções deles. Super válido. Mais a capa dura, mais a fitinha pra marcar página, mais as margens azuis que deixam o livro colorido e bonitão... Muita qualidade!

Outra coisa: acho que TALVEZ, tendo em vista que hoje em dia a fantasia tá ganhando um espaço cada vez maior, é muito válido lembrar que o termo “literatura fantástica” não se refere aos Harry Potter e histórias de fadas da vida. Ou melhor, não somente a esse tipo de história. Literatura Fantástica diz respeito a qualquer história onde aconteça algo no mundo real que não pode ser explicado por esse mundo real, pelo menos não com as leis da física que conhecemos no momento em que o conto foi escrito. Pode ser desde histórias de fantasmas, até ficção científica, até contos das mil e uma noites, até um quadro que envelhece no lugar do dono dele, até uma história normal por 500 páginas com o personagem voando para o céu na última. Esse tipo de coisa.

Por que eu quis falar isso? Pra ninguém achar que vai comprar o livro e encontrar um monte de histórias de fadas. Hahahaha Tá mais pra Faustos da vida, algumas lendas folclóricas de diversos países, pactos com o diabo e por aí vai. É a estranheza em algum momento que conta.

Super recomendo o livro pra quem se interessar não só pelo estilo, mas por ler coisa boa no geral! Ainda que só você só leia um conto e guarde o livro por 20 anos, ele sempre vai estar lá co mais contos rapidinhos a hora que der na telha! :P 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Explicando Tolkien


Um dia desses fiquei sem o que fazer no centro por algumas horas, e não valia a pena voltar pra casa. Tentei ir ao cinema, mas no horário só tinha filme dublado (tirando algumas animações, ME RECUSO a ver filme assim), então a minha única escolha acabou sendo bisbilhotar uma livraria. Não tinha muito dinheiro e não devia comprar nada, mas... Poxa, era sobre Tolkien! *.*

Foi assim que o livro Explicando Tolkien veio parar nas minhas mãos. Pra gastar o tempo, eu olhava livro por livro, memorizava alguns interessantes pra procurar depois, lia trechinhos, pegava cada volume em cada prateleira. E, numa das últimas, mais escondidas, com livros sobre teoria da literatura, vi esse livro que prometia explicar muita coisa sobre a Terra Média.

Gente, eu sempre fui fã de Tolkien, mas esse livro me fez aumentar a admiração. O cara não era desse mundo. Se era, tinha alguma anteninha a mais pra captar coisas. *.* Além de tudo, encontrei nele uma forma de “explicar” pras pessoas porque eu curto tanto as histórias dele (e eu nunca soube dizer direito). O autor pontua algumas coisas de forma bem clara: nas obras do escritor o real e o imaginário se fundem, e mostram um mundo sólido.

Explicando Tolkien foi escrito por Ronald Kyrmse, maior “fanboy” (hahaha) de Tolkien nessas terras tupiniquins, responsável pela revisão nas traduções de vários livros do autor, pela tradução de Contos Inacabados, e pela união de um monte de fãs de Tolkien espalhados pelo país. No livro, ele explica bem resumidamente diversos aspectos da obra do autor inglês, passando por aspectos que a gente nem imaginaria. Comenta desde os mapas, as línguas e os povos até a fauna e a flora criadas para dar mais realismo à história, passando pelas adaptações cinematográficas, as traduções (inclusive comentando coisas muito legais sobre traduções bem ou mal feitas e o que faz com que elas sejam como são), até as críticas positivas e negativas acerca de O Senhor dos Anéis. Faz inclusive uma comparação entre o mapa da Terra Média e da Europa (dá pra comparar até latitude de algumas cidades!) e a cronologia das Eras em suas histórias e o nosso tempo. – Essa parte me fez lembrar de quando li Roverandom, história do autor que se passa no nosso mundo mesmo, no século XX, e o cachorrinho vê de longe uma ilha brilhante que seria o famoso Oeste... :)

E claro, também tem um apanhado de citações legais e frases de efeito (todo mundo adora hahaha), além de uma sugestão de bibliografia pra quem quiser se aprofundar.

Tolkien não teve a ideia repentina de criar histórias que se passavam num mundo aleatório fruto de sua imaginação. Ele criou um mundo que possuía diversas culturas altamente complexas, resultantes dos povos que vivem ali, com influência de acontecimentos, geografia, características físicas e muito mais, muito por interesse em fundamentar melhor as línguas, que ele estudava apaixonado desde criança. E, segundo ele, línguas não existem sem uma cultura/estrutura/estética como base. E por mais que muita gente duvide (principalmente quem não conhece a obra e considera apenas um fenômeno pop), as línguas criadas por ele também não são aleatórias. As duas línguas élficas que aparecem em O Hobbit, O Senhor dos Anéis, e O Silmarillion (só pra começar), chamadas quenya e sindarin, são derivadas do finlandês e do gaélico, respectivamente, tanto em sonoridade quanto em estrutura gramatical (cara, depois de ver os 10 casos do quenya eu to achando alemão ainda mais fácil hahaha).

Mas mais do que criar um fundamento para suas línguas, Tolkien criou uma história que não tem nada de escapista, mas reflete exatamente o mundo em que vivemos, lidando com mitos e arquétipos, descrevendo situações com as quais nos deparamos as vezes, ainda que metaforicamente. Escapismo é o que torna alheio, e não é bem isso que faz O Senhor dos Anéis. Concordo com o autor quando diz que um dos problemas para os que criticam Tolkien é que ele não pode ser comparado a nada, pois não existe na literatura um autor com uma obra com a mesma profundidade e características. Não há um parâmetro. Mas não foi por acaso que ele ganhou a alcunha de ‘autor do século XX’.

Enfim, talvez alguém que não se interesse ache tudo isso muito meh e sem graça, mas eu só me empolguei ainda mais. Pra mim, ninguém ainda foi capaz de chegar perto da complexidade da Terra Média, ao mesmo tempo que conseguindo tocar em pontos tão específicos e ser tão significativo!

Kyrmse fala de uma forma bem resumida sobre tudo o que faz a obra de Tolkien ser mágica, como se tirasse dos livros teóricos mais extensos as informações mais importantes e interessantes, fazendo com que a gente fique ainda mais curioso pra ler mais e mais e mais...

E um último comentário, caso alguém se interesse: tudo isso aí diz respeito aos LIVROS. E os livros de Tolkien nem sempre funcionam como histórias pra serem devoradas em pouco tempo (como eu fiz com Guerra dos Tronos, só pra dar um exemplo que costumam comparar sempre). É complexo, dá trabalho, tem um milhão de nomes que a gente esquece e tem que voltar pra lembrar quem ou onde era e por aí vai. Mas se não fosse assim, não seria tão rico!

  
Nome do livro: Explicando Tolkien
Autor: Ronald Kyrmse
Editora: Martins Fontes
Páginas: 180
Nota no Skoob: 5/5

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Fim da Maratona Literária

Acabou a Maratona Literária. E gente, eu sou o fracasso desse desafio! Hahahahahaha

Negócio é: não sei se o problema é a Maratona em si ou o desafio que eu me propus, mas percebi que o jeito como tava não funciona pra mim. Ok, talvez o problema tenha sido o desafio especificamente.

O negócio é: eu não funciono com esse negócio de ler porque preciso ler (eu já sabia, mas acho que tinha esquecido e precisei da Maratona pra me lembrar). Não consigo ler um livro/conto/qualquer coisa porque preciso, porque tenho uma meta a ser alcançada, porque foi pré-estabelecido. Nem na faculdade de Letras eu fazia isso – eu confesso, eu lia resumo dos contos no Sparknotes 99% das vezes, simplesmente porque não conseguia ler as coisas para o prazo determinado. Muita coisa que era pra eu ter lido durante a faculdade eu acabei lendo depois, quando ia ser por prazer, porque EU QUIS E FIM.

(Oi, muito prazer, sagitariana com aquário, vocês não mandam em mim! :P)

O que aconteceu nesse sentido na Maratona foi ter decidido quais livros ler com antecedência. E aí eu acabava uma história e a vontade era ler uma próxima que fosse no estilo X, mas já estava pré-determinado que eu leria o estilo Y. E olha que a minha meta pra semana de Maratona era bem pequena, hein, 2 livros e meio!

E aí foi assim: acabei de ler o Anansi Boys (só metade dele foi pra Maratona, porque eu já tinha começado a leitura antes) e queria ler alguma coisa mais de fantasia. Mas o próximo da lista era uma Space Opera. Ok, li, gosto do gênero e usei isso como incentivo. Aí acabei de ler no clima de ficção científica, e o próximo da lista ia ser uma graphic novel com personagens da Marvel vivendo no período elisabetano.

Gente, eu não li esse último. Por pura preguiça. :S

Também acabei não participando dos desafios propostos nos blogs da Maratona, mas aí já era mais uma questão de eu estar na primeira semana de aula pós-férias, pegando repertório novo, resolvendo pepinos na secretaria com relação à matrícula errada (vocês que reclamam do acerto na UFMG não sabem o que é o sistema da UEMG. Hahahaha), começando aula de redação com um aluno novo e por aí vai. Enfim, uma semana cheia (não tão sem tempo, mas cheia de informação demais pra eu poder processar tudo hahah).

Conclusão do jogo: foi uma boa experiência. Primeira vez que participo de uma Maratona Literária, e deu pra ver como eu funciono nessa situação. Talvez na próxima eu pense num desafio melhor: já que eu prefiro ser espontânea pra escolher minhas leituras, quem sabe da próxima eu não escolho ler um livro só, daqueles bem grandes. To devendo terminar Os Miseráveis tem um bom tempo. hahahahaha

domingo, 27 de julho de 2014

Space Opera - Um Novo Começo


Acabei (bem em cima da hora) a segunda meta da Maratona Literária: a Space Opera “Um Novo Começo”.

Foi também a “estreia” do meu aplicativo Kindle, ou seja, a primeira vez que eu li qualquer coisa no celular. Eu costumava ter um certo preconceito por conta da tela ser brilhante e colorida e muito iluminada, já que essas coisas costumam me cansar muito fácil. Mas pelo menos o tamanho da tela dessa vez colaborou, porque uns tempos atrás eu arrumei um smartphone decente hahaha

Enfim, vamos à obra: “Um Novo Começo” mostra duas histórias paralelas com dois protagonistas: Jout e uma prisioneira humana entre ‘alienígenas’. Os trechinhos são apresentados alternativamente, até que no final as duas histórias se conectam. Na primeira história, os últimos humanos pousam sua nave no planeta Kepler, com intenção de colonizá-lo e fazer dele sua nova casa, após a destruição da Terra. Na segunda, uma prisioneira aguarda sua execução em uma prisão de segurança máxima alienígena, aparentemente pelo crime de ser humana.

Sabe toda vez que eu leio alguma coisa com cara de ficção científica e reclamo que falta o lado pessoal, as emoções, as entrelinhas, o lado humano? Pois é, aqui não falta. Aliás, o que mais tem aqui é isso: a ligação entre duas crianças, o relacionamento entre pai e filho, as memórias de uma prisioneira condenada à pena de morte.

Só achei algumas coisas nesse sentido meio corridas, tipo o final onde os capítulos e o interlúdio se entrelaçam. Achei um tiquinho repentino. Não sei, é a impressão que me deu. Meu lado paranoico que pensa em detalhes também ficou reparando em coisas menores, do tipo “como esse menino consegue passar assim tão fácil? Só tem recruta, não tem câmeras?” e por aí vai. Ou no início da história só existir um planeta habitável, mas depois ser revelado que existem outras espécies e que o capitão sabia disso. Isso não seria o mesmo que dizer que existem um monte de planetas habitáveis? O.o Ou então: mas só Kepler? Não sei quando a história foi escrita, mas acho que tem um tempo que já descobriram um monte de planetas “com potencial” por aí, só esperando confirmação (eu acho). Ou “porque esses dois povos querendo habitar o mesmo planeta não podem nem tentar entrar num acordo? São a mesma espécie, todo mundo terráqueo!”

Também achei que algumas explicações de coisas mais práticas pareceram meio repentinas, tipo do nada sabermos que existem sim outras civilizações por aí e o ‘chefão’ sabia disso. Sei que era um tipo de informação necessária pra ligarmos as duas histórias paralelas, mas não sei, quando processei a informação a história já estava acabando...

Eu vou confessar uma coisa pra vocês: o fato de a história ser da Karen Alvares e da Melissa de Sá, de quem eu já li outras coisas e com quem tenho algum contato via twitter e tal, o que faz com que eu não as veja como seres de outro mundo (rááá!) me fez ficar com um pé atrás pra escrever esse comentário, mais cheio de críticas do que de coisas legais. :S

Mas só pra esclarecer: eu sei que as histórias são como os autores a escrevem. Tudo o que eu falei aqui foram escolhas das autoras. E é óbvio que eu imagino que mais gente por aí vai discordar e talz. Escrevi apenas minhas impressões iniciais, como comentaria com um amigo que também tivesse lido (igual a gente costuma comentar filmes ao sair do cinema, ou seriados depois do episódio semanal). E é por isso que eu chamo meus textos nesse blog de COMENTÁRIOS, não de "resenhas"...

Autoras: Karen Alvares e Melissa de Sá
Páginas: 61
Editora: Draco

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Anansi Boys


Tem coisas que a gente precisa fazer de tempos em tempos. Tipo tirar férias. Ir a um restaurante muito bom. Dormir até meio-dia. Ou ler um livro do Neil Gaiman.

Foi assim que me senti lendo Anansi Boys: fazendo algo que eu não fazia há algum tempo, mas tava precisando. Pelo menos pra mim, histórias do Neil Gaiman dão um “refresco” na rotina, no mundo de sempre. Não só pela história, mas pela forma como ele apresenta o mundo. Em tempos de mísseis israelenses e guerra da Ucrânia, grandes personalidades partindo desse mundo e racionamento de água, é muito bom ser lembrada de que o mundo é muito mais do que a gente vê nos jornais. Existem mundos em cima de mundos, existem entremundos, entrelinhas, coisas implícitas, sugestões, influências, grandes viradas e tudo o mais que for possível imaginar.

E existem as canções.

“Songs remain. They last. The right song can turn an emperor into a laughingstock, can bring down dinasties. A song can last long after the events and the people in it are dust and dreams are gone. That’s the power of songs.” (Canções permanecem. Elas duram. A canção certa pode transformar um imperador em alguém digno de troça, pode derrubar dinastias. Uma canção pode durar até muito depois dos eventos e das pessoas que fazem parte dela se transformarem em pó. Esse é o poder das canções.)

E, seguindo uma mitologia/tradição (desculpem, não sei que palavra usar) vinda do oeste da África, todas as canções são de Anansi. Todas as HISTÓRIAS são de Anansi. E cada pessoa tem sua canção. Alguns aprendem a cantá-la, outros não a escutam, outros a vivem como compensação por não conseguirem aprendê-la. Mas no fim, todas elas pertencem a Anansi.

Mas o mais legal é que Anansi não é uma divindade solene que manda no destino das pessoas. Anansi é uma aranha que tece teias no mundo (e assim são as histórias: conectadas, todas levando a um centro, que seria o fim, o clímax, a meta de tudo).

Mas Anansi também é um “tiozão” (pq eu imagino ele assim hahaha) cara de pau, assanhado e pregador de peças, do tipo que é capaz de irritar pessoas ou levar o próprio filho ao ódio absoluto depois de passar por tanta vergonha – vergonha que pro pai é sempre alguma piada muitíssimo engraçada.  Anansi é o cara bon vivant, que sabe o que é bom, que só faz o que quer, que se dá bem no que faz. É o cara que tá acostumado a se livrar de enrascadas absurdas (cantando), e acabar se metendo em outras ainda maiores (cantando também).

Antigamente, as histórias eram do Tigre. Naquela época, as pessoas só se preocupavam em caçar e ser caçadas. Era um mundo selvagem. Agora não, agora as histórias são de Anansi, e agora as pessoas começaram a descobrir como se livrar dos problemas e das caçadas PENSANDO. Como disse nosso caro Anansi, muito melhor assim, não?

Anansi teve filhos, que obviamente herdaram algo dele (ainda que um demore a perceber isso).  E isso implica em herdar enrascadas também. O que nos leva ao enredo principal da história: Charlie Nancy (ou Fat Charlie, como o pai fez com que ele fosse conhecido pelo mundo, mesmo não tendo nada de “fat”), após uma vida tediosa e certinha, acaba se deparando com sua herança familiar (que inclui enrascadas). E aí, descobrindo um mundo novo que ele antes consideraria absurdo e impossível – imagine descobrir que o pai que você quer longe da sua vida era um deus –, cresce, descobre o próprio potencial, e se transforma em outro. 

Basicamente, mais uma releitura da saga do herói. Mas com uma bela pitada de Gaiman, o que faz toda a diferença. E, pensando em outros livros do autor, acabei achando que segue um estilo parecido com o de Neverwhere, tanto nos desafios quanto no tom da história, mais leve, engraçadinho, profundo (diferente de Deuses Americanos, que eu acho mais sério, de Stardust, que é mais "ingênuo", ou de Belas Maldições, muito engraçadinho mas menos "profundo"...)

E claro, um livro cheio de citações pra vida (pelo menos pra mim, que saí marcando todas hahahaha – não se preocupem, eu li em paperback :P).

“People take on the shapes of the songs and the stories that surround them, especially if they don’t have their own song.” (As pessoas tomam a forma das canções e histórias que as cercam, especialmente se eles não têm sua própria canção.)

“The world may be the same, but the wallpaper’s changed. Yes? People still have the same story, the one where they get born and they do stuff and they die, but now the story means something different to what it meant before.” (O mundo pode ser o mesmo, mas o papel de parede mudou. Sim? As pessoas ainda acreditam na mesma história, aquela onde elas nascem e fazem coisas e morrem, mas agora a história significa algo diferente do que costumava significar antes)

“They [stories] don’t mean a damn unless there’s people listenin’ to them.” (Elas [as histórias] não significam nada a não ser que tenha alguém escutando)

Ah! Só um esclarecimento: Anansi Boys faz parte do mesmo universo de Deus Americanos (se você leu esse livro, deve se lembrar do Mr. Nancy, né?), mas as histórias são independentes uma da outra. Dá pra ler qualquer um em qualquer ordem, embora eu ache mais legal ler Deuses Americanos primeiro, pois dá um panorama mais legal de como "funciona" essa coisa de deuses, deuses no mundo real, deuses que morrem mas continuam aí e por aí vai... :P

Nome: Anansi Boys
Título brasileiro: Os Filhos de Anansi

Autor: Neil Gaiman
Páginas: 400
Nota no Skoob: 5/5
____________

E essa foi a primeira parte da minha Maratona Literária! Hoje foi o dia “leve” da semana, 1º dia de aula e tal. A partir de amanhã a coisa volta a ficar mais tensa, mas vamo que vamo pro próximo item!

domingo, 20 de julho de 2014

Maratona Literária


Não, ainda não acabei a leitura atual. Esse post não é sobre ela.

Esse post é sobre a Maratona Literária!

Nunca participei disso antes. Na verdade, acabei de descobrir a existência desse desafio (foi pelo twitter da Karen Alvares). Mas achei que poderia ser divertido, além de ter ficado interessada em tentar algo que eu nunca fiz: desafiar a mim mesma.

Eu confesso, não gosto de desafios. Nunca fui fã de competições. Sempre que alguém me desafiava, eu entregava os pontos e falava "ok, você venceu, pode ficar feliz agora", meio que sem paciência. Nem é por idealismo, é por preguiça de disputas mesmo.

Mas desafiar a mim mesma é outra coisa. Não é uma disputa de egos, pra ver quem é melhor. É uma maneira de superar barreiras, de sair da zona de conforto, de ir além. Antes que eu possa dizer "ah, não vou dar conta", vou me propor o desafio e bora cumprir, sem chororô! hahahaha

Demorei bastante pra resolver fazer a inscrição na Maratona Literária por um motivo até bem bobo: não conseguia pensar no que propor como "auto-desafio". É, a ideia é essa mesma: você se propõe uma meta, eles só dão o prazo (e uns desafios extras ao longo desse prazo, só pra rolar alguma interação entre os participantes e tal).

Isso é legal porque torna o desafio adaptável - ninguém tem a mesma rotina e o mesmo tempo livre, né? Se você está de férias, dá pra se propor ler um milhão de coisas. Se você trabalha o dia inteiro, pode se propor ler umas 50 páginas (sei lá) além do que costuma conseguir com o tempo que tem. E foi por isso que curti a ideia.

Na conversa via twitter com a Karen Alvares, não só ela ficou tentando me convencer a participar, como me convenceu a ler mais um livro dela (hahahaha :D). E foi a partir da conversa que tive a ideia do meu desafio: plataformas diferentes. Então lá vai:

Essa semana eu volto às aulas na UEMG e aos ensaios do coral, o que vai me tomar bastante do tempo. Ou seja, não posso me propor nada pesado. Por isso, quis pensar em algo diferente: vou ler obras em plataformas diferentes. Ebook, graphic novel e romance "tradicional". Ao todo, vão dar 2 "livros" e meio:

- ANANSI BOYS, o tal "romance tradicional". Ele seria o meio livro, já que eu já comecei a leitura antes de saber do desafio, e não quero interromper (é muito bom!)
- SPACE OPERA - UM NOVO COMEÇO, o tal livro que a Karen Alvares me convenceu a baixar :P (a autoria é dela e da Melissa Sá). Ele seria o ebook (aproveitando pra estrear o app do Kindle no meu celular)
- 1602, graphic novel da Marvel, escrita por Neil Gaiman. É releitura, mas tem muito tempo que li e queria relembrar.

E é isso! A Maratona Literária está em vários blogs por aí, mas o link que eu peguei e usei pra me inscrever foi esse (clica no link que tem explicação pro que acontece)!!!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coração de Tinta


Aviso pra começar: acho que empolguei tanto falando sobre porque li o livro que acabei escrevendo uma introdução muuuuuuito grande. Se você não liga pra isso e só quer saber se o livro é bom e o que tem nele, pule essa parte!

Há muito tempo atrás, passeando pela locadora, vi um DVD que me chamou atenção pelo nome e por parecer ser um filme de fantasia. Mesmo sendo filme do Brendan Fraser (HUE), resolvi alugar.

Coração de Tinta.

Não posso falar muito do filme hoje em dia, confesso que já tinha esquecido ele quase todo. Depois de ler o livro então, eu correria o risco de confundir o que eu imaginei com o que eu vi. Só posso dizer que o livro me deixou com a impressão de que o filme é uma droga. Tipo versão Hollywood lado B de Super Xuxa contra o Baixo Astral. Hahahaha Pra escrever esse texto, recorri ao Google pra lembrar que atores faziam alguns personagens e descobri que o Capricórnio era o Andy Serkis de um jeito muito ridículo. ARGH. Hahaha (reitero: tenho que assistir de novo pra ver se a memória tá me enganando :P)

O motivo de eu ter tido vontade de ler o livro mesmo assim foi que, além de ele ter uma temática que quem me conhece já tá cansado de saber que me atrai, eu descobri que ele é alemão. E eu tive a minha época de estudar alemão (to tentando ressuscitar algumas coisas agora nas “férias da copa”), e achei que seria o livro perfeito pra ler e treinar a língua, já que ler sobre o que a gente gosta ajuda, né. Só que eu não conseguia achar ele em alemão sem ter que importar pagando um absurdo, além de eu não ter (e me recusar a fazer até o dia em que precisar MESMO) cartão de crédito internacional, pra evitar gastos, o que também me impossibilitou de comprar o ebook em alemão, que eu só achava em euros. Acabei adiando a leitura imensamente por causa disso.

Só que toda hora começava a aparecer algo sobre a Cornelia Funke, autora do livro, em coisas que eu lia ou via por aí. E cada vez que eu via ela falando sobre literatura e afins, sentia que precisava ler o livro dela pra entender o lado prático do que ela falava. Até que, no final do ano passado, fiz um curso online chamado “The Future of Storytelling”, oferecido pela Fachhochschule Potsdam, que incluía depoimentos e aulas de várias personalidades, incluindo a própria Cornelia Funke (que no curso falava sobre um livro interativo dela criado para ipad, Mirrorworld).

E aí, vasculhando os confins da internet, consegui o ebook em inglês, que eu acabei de ler. :P

Chegando ao fim essa enooooorme introdução sobre como eu cheguei nesse livro, vamos enfim às impressões:

Curti IMENSAMENTE! Não só pelo conteúdo, mas também pela forma como tudo é trabalhado e apresentado. A estrutura do livro é uma coisa muito bem feita, e dá pra ver como cada coisinha foi bem pensada e considerada. Resumindo: é nítido o quanto foi um trabalho bem feito.

É um livro sobre um livro, e sobre livros em geral. Um “metalivro” hahaha. Isso quer dizer que tudo dentro da história tem que/pode ser comparado com livros em si, seja no aspecto físico e material, seja no conteúdo. E, sendo um livro “infanto-juvenil” (bem grandinho pra crianças, eu acho), muito desse paralelismo pode ser feito com outras histórias de fantasia infanto-juvenis também (ou não). Tanto é que no início de cada capítulo vem uma pequena citação de alguma história, desde A Ilha do Tesouro, passando por As Mil e Uma Noites e Peter Pan, até O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia e Onde Moram os Monstros, sempre relacionada com a ação que está para ser apresentada.

A história fala sobre personagens que saíram de um livro, Coração de Tinta, e o problema que isso causa na vida da família de Mo (Mortimer), Meggie e Elinor. Mais especificamente, fala sobre um vilão cujo coração é negro como a tinta, e que, saído do livro, passa a “executar suas vilanices” no “mundo real” (apesar de “real” ser algo bem relativo na história. Tudo ali é real, só que com origens em mundos diferentes). É legal também ver que, mesmo tendo coração negro, Capricórnio é sempre descrito como sendo pálido e sem cor, refletindo a falta de sentimentos como medo ou remorso, exibindo a sua frieza.

A gente vê o tempo todo esses personagens saídos do tal livro (e de outros também, como a Tinker Bell) se relacionando com as pessoas do nosso mundo, onde tudo acontece. Depois de algumas páginas, mesmo tendo aprendido a gostar de alguns dos “nativos do Coração de Tinta”, dá pra perceber a diferença entre uns e outros. Enquanto Capricórnio, Basta e outros (alguém pode me dizer como traduziram Dustfinger na edição brasileira?) tem características quase poéticas, mas muito bem definidas, algumas quase clichês, as pessoas reais, como a mocinha Meggie, têm mais camadas, mais dilemas, mais “humanidade”.

Aliás, preciso falar que eu gostei muito da forma como a autora trata Meggie, que é a personagem que mais recebe foco na história, uma menina de apenas 12 anos. Meggie passou a vida com o pai, acreditando que a mãe tinha abandonado a família, até descobrir que ela tinha sido sugada para dentro do Coração de Tinta (mas a resenha da história vocês podem achar em qualquer lugar, só digitando o título do livro no Google). Eu diria que, mesmo que considere Capricórnio o protagonista (tanto do livro de verdade quanto do fictício – é só lembrar que o título da história faz referência a ele), é com Meggie que o leitor pode se identificar, e é dentro da cabeça dela que se consegue entrar mais fácil.

Mas não é uma mocinha ingênua e romantizada, como as que costumamos ver em livros do estilo – aliás, no próprio livro dá pra ver Elinor tentando comparar Meggie a alguma heroína de histórias de aventura, mas se decepcionando porque só conseguia pensar em heróis, nenhuma mocinha valente como a sobrinha. Meggie é ingênua sim, mas do jeito que meninas de 12 anos costumam ser. Mesmo assim, é atrevida às vezes, teimosa, e se pega sentindo ciúmes da própria mãe ao perceber o quanto o pai sente falta dela, concluindo que não tem como sentir falta de alguém que nunca conheceu (ok, já deixo vocês aliviados falando que o sentimento muda quando as duas se encontram pessoalmente :P). 


Enfim, ainda to na fase de digestão da leitura, que foi longa. O que mais me chamou atenção foi o fato de tudo não só girar em torno de livros, mas de ser feito como um, quase como uma aula sobre como escrever histórias e criar personagens. É bem legal, inclusive, quando Mo e Meggie vão atrás do autor de Coração de Tinta (o fictício) e este se mostra empolgadíssimo em conhecer seus personagens, ainda que sejam vilões temíveis. Depois pretendo ler as sequências (tem mais dois livros) e ver se isso continua. Mas já digo que toda essa questão sobre citações, livros, personagens e mundos se cruzando fazem com que, mesmo sendo uma história de fantasia infanto-juvenil, seja bem interessante mesmo pra adultos, e não tão clichê e boba. Vale a leitura! (ah é, e se imaginar nas paisagens da costa italiana durante a leitura também é bem legal, viu!)

Nome do Livro: Coração de Tinta (eu li em inglês, então é Inkheart. O original é Tintenherz)
Autora: Cornelia Funke
Páginas: 416 (no ebook)
Nota no Skoob: 4/6

sábado, 21 de junho de 2014

A Dama das Ameixas


Estou com dificuldades para começar esse comentário, talvez por conta do final da história. Difícil falar quando se tem essa sensação de que a garganta não responde (tentando não dar spoilers haha).

"A Dama das Ameixas" tem, pra mim, um “quê” de fábula, de conto dos irmãos Grimm, de lenda antiga com alguma lição pra passar. Mas é um conto da Karen Alvares, escritora brasileira, jovem e que não é da época dos Grimm. Enfim.

Quando eu faço essa comparação, devo ressaltar de que os Grimm eram bem diferentes de Perrault e afins: a versão deles era sempre as, digamos, com menos finais mágicos estilo Disney. Bom, mágicos sim, mas um outro tipo de magia. Uma mais “dura”, mais cruel, com mais cara de lição pra vida, e não de lição pras crianças não fazerem coisa errada. Ser “mágico” nem sempre é sinal de ser bom, encantador e feliz pra sempre. Magia tem um preço, como alguns contadores de história sempre fazem questão de ressaltar, e “A Dama das Ameixas” mostra exatamente esse lado.

A história mostra os últimos dias de uma moça que convive com uma maldição. E fica bem claro que estar sob uma maldição não é sempre sinal de que um milagre divino vai acontecer e salvar a mocinha, que Merlin vai descobrir uma saída, que um beijo de amor cura tudo, e por aí vai. Estar sob uma maldição implica em lidar com sentimentos obscuros também, como mágoa e raiva. Mas ainda assim, não ocupa todo o espaço, deixando lugar também pra pequenas esperanças ou satisfações. É tudo junto, é tudo complexo (e convenhamos, vivemos num mundo muito mais cheio de “nuances” do que aquele dos irmãos Grimm, né).

De certa forma, me lembrou um pouco do Lago dos Cisnes e a maldição da Odete. Mas sem mais detalhes, senão entrego tudo do conto. É curto, vale a pena ler e saber do que eu estou falando! É emocionante, triste ("triste" naquele sentido que é bom de ler - tá, sei que é uma definição estranha hahaha) e mágico. E é sobre libertação. Eu diria que a moral da história é "o amor liberta" - relembrando aulas na escolinha, quando discutíamos fábulas e contos. :P


disponível em ebook aqui por R$2,99, pra Kindle, Kobo e Google (alguém me explica como funciona ebook nesse esquema do Google?)

Nome: A Dama das Ameixas
Autora: Karen Alvares
Editora: Draco
Nota no Skoob: 4/5

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Revista Trasgo n°3


Acabei de ler a 3a edição da Revista Trasgo, uma revista dedicada à fantasia e ficção científica nacional.

Lembro que meu primeiro contato com ela foi motivado pela curiosidade com o que andava sendo feito dentro desses estilos no Brasil. Confesso, eu não costumava ter muito contato com isso antes, e acabou sendo uma experiência bem legal. Eu diria que me deu alguns pontos de vista diferentes.

Por exemplo: eu gosto muito de fantasia, mas costumo ficar irritada com algumas histórias clichês, principalmente que puxam pro lado adolescente. Eu sei que tudo tem seu público, e que eu não sou parte desse público citado. Só estou dizendo um pouco sobre meu lado pessoal (até porque tenho conhecidos que adoram e se divertem com Crepúsculo ou Percy Jackson, e eu não tenho nada contra isso. Cada um tem seu gosto, e gostos diferentes são a parte mais legal), que acaba se manifestando sempre que topo com alguma produção "sem querer". Eu li A 5a Onda e Divergente ficando muito irritada com o tom "ingênuo", porque me senti desavisada. Mas também me surpreendi com o quanto ADOREI O Circo da Noite, que li esperando água com açúcar clichê, mas encontrei uma história muito bem escrita e que me prendeu (eu ainda me pego querendo voltar pro Le Cirque, às vezes...).

Na primeira vez que li a Trasgo, tive que lidar com sensações parecidas. Eu estava lendo uma coletânea de contos variados que, apesar de se encaixarem num estilo mais específico, eram bem diferentes uns dos outros. E mais: ninguém sabia o que esperar de cada história ali. Me deparei com contos que me pareceram estranhos, assim como descobri coisas muito, muito legais (o suficiente pra ir atrás de mais coisas sobre os autores. Não tenho tido verba pra comprar e apoiar tudo que queria, mas o que eu consegui me animou.. hehehe)

Tive que aprender a lidar também com a forma como manifestava o meu descontentamento com alguns contos, assim como manifestava minha empolgação com outros. Meu lado acadêmico, que ataca de revisora de textos as vezes, fica muito irritada quando encontra frases/parágrafos não tão bem construídos assim. Uma vozinha lá no fundo grita "poxa, se vocês querem ser escritores custa revisar a própria história?"
Meu lado fangirl as vezes também não tem muita paciência quando o tema da história, ou o contexto, é algo que não faz parte dos meus interesses pessoais. (Paciência comigo gente, meu ascendente é Aquário hahaha)

Lendo essa terceira edição da Trasgo, eu parei pra pensar em mim mesma como leitora, levando em consideração esses requisitos aí em cima. Alguns contos me causaram estranheza no início, mas aí eu parei pra pensar que existem outras coisas envolvidas. E se eu estivesse no lugar daquele autor, como contaria aquela história?

E aí parei pra pensar que existem formas e formas de se contar histórias. E muitas vezes, o que aquele autor quis foi só passar a dele pra frente, tirá-la da cabeça e dividir com outras pessoas. Ainda que ele não seja um especialista em gramática, ou que não ligue muito pro estilo literário da escrita *bote um tanto de vocabulário acadêmico chato aqui*. E nisso, ressalto: vale pra tudo, não só pra essa edição da Trasgo.

Teve uma história que li com uma sensação de "err... não sei". Aí pensei em como seria se fosse um filme, e ela passou a funcionar melhor na minha cabeça. Outra pareceu meio "simples demais", mas tava tão bem contada em palavras que ficou linda. Outras foram divertidas, o que me fez ignorar outras coisas (ignorar no sentido de: não sei dizer se tinha alguma coisa que eu normalmente consideraria errada ali hahaha).

Enfim, existem histórias e histórias. E existem leitores e leitores. Assim como contadores de história e escritores. Gostei dessa revista (e adorei a capa, adoro tudo com essa combinação de cores hahaha) e recomendo pra quem curte fantasia e afins.

E sei que esse texto já ficou enorme, então aviso que no geral, é isso. Mas se você ficou curioso e quiser ler alguma coisinha do que achei sobre cada conto, é só continuar... :)

1o conto: O Empacotador de Memórias
Gostei do tom meio nostálgico, meio parado no tempo, bem com cara de memória mesmo. Dá a sensação de que tudo acontece dentro de uma bolha de sabão do Tom de 6 anos (leiam pra entender hehehe). Queria comentar algo que ele falou na entrevista depois: que o conto "apesar de parecer um conto de ficção científica, o Empacotador é um conto sobre a nossa atual realidade". Poxa, pois pra mim, pessoalmente, ficção científica boa É sobre a nossa realidade do presente. É uma forma de recontextualizar algo que vivemos, de contar (ou protestar) coisas que acontecem com a gente. Enfim...

2o conto: Rosas Brancas
Não consegui decidir minha opinião. Tem um quê de ficção científica misturada com coisas hollywoodianas (matadores de aluguel, contrabandistas, colonização, e por aí vai). Curti a entrevista do autor, quando ele fala que tentou favorecer também o atrativo humano na história. É isso que eu sinto falta em muitas histórias de ficção científica atuais: lembrar que por mais que os personagens sejam androides, é o lado humano que prende e cria tudo isso, porque faz o leitor se identificar com a história.

3o conto: Feita de um sonho
Gostei muito da ideia desse conto. Mas achei que ele foi muito corrido, que as informações foram entregues muito rápido, muito fácil, as vezes meio jogadas. Dava pra fazer ele ser um conto de boa, com um suspense maior sobre o envolvimento das personagens com sonhos e como vivem com isso. (ou é o que eu queria saber mais, sendo leitora dessa história hahaha)

4o conto: Invasão
Eu ainda to confusa sobre esse conto. Pra mim ele foi estranho, esquisito, incomodou. Fiquei pensando se não era essa a intenção do autor, já que o personagem principal tá muito mais do que incomodado, ele está p*** com a situação descrita. Talvez a forma de escrita fosse proposital, pra dar esse efeito: teve paráfragos com frases tão longas que eu ficava sem ar, esperando um ponto final pra respirar. Em outros trechos, a linguagem era meio escrachada, largada, ás vezes soava machista, as vezes ficava agressiva e tal, mas tudo sempre combinando com o personagem, fazendo a gente visualizar a cena direitinho e talz. Mas na entrevista com o autor, ele falou de contos de humor, o que me deixou perdida. Não achei o conto engraçado, achei 'what the fuck'. Então não sei se entendi. Depois leio de novo O.o

5o conto: Viral
Eu gostei desse conto. Muito. Achei muito legal e curioso misturar zumbis com linguística com criptografia com política e por aí vai. Muito criativo, muito bem escrito, e induzindo a gente a visualizar as cenas e personagens de um jeito muito efetivo. Na entrevista, vi que o autor tem planos de uma história com folclore brasileiro, só que sem clichê de curupira. Sobre isso, só um comentário: por favor, me avise quando isso sair, porque eu quero muito ler!

6o conto: O Vento do Oeste
Eu tenho um fraco com histórias de deserto. Adoro histórias que levam para o lado mágico do mundo árabe, que é muito pouco conhecido no ocidente. Mas não foi só por isso que eu adorei esse conto: adorei porque a história é tão bem construída, tão bem contada, que eu quis saber mais, quis entrar naquele mundo. E adoro quando os personagens são bem tratados, não sendo só pecinhas de um jogo de fantasia. Acho que essa edição da revista já vale a pena por esse conto!

Conto extra: Quando Todos Viraram Filmes (disponível para os assinantes da newsletter da revista)
Curti! Gostei de adivinhar às vezes quais séries especificamente o autor fazia referência em alguns momentos, ou de visualizar cada personagem como um filme. O tom meio nonsense também foi legal. Senti falta de falar um pouco mais do personagem, além do “bidimensional” que ele escuta da namorada heheeh