sábado, 21 de junho de 2014

A Dama das Ameixas


Estou com dificuldades para começar esse comentário, talvez por conta do final da história. Difícil falar quando se tem essa sensação de que a garganta não responde (tentando não dar spoilers haha).

"A Dama das Ameixas" tem, pra mim, um “quê” de fábula, de conto dos irmãos Grimm, de lenda antiga com alguma lição pra passar. Mas é um conto da Karen Alvares, escritora brasileira, jovem e que não é da época dos Grimm. Enfim.

Quando eu faço essa comparação, devo ressaltar de que os Grimm eram bem diferentes de Perrault e afins: a versão deles era sempre as, digamos, com menos finais mágicos estilo Disney. Bom, mágicos sim, mas um outro tipo de magia. Uma mais “dura”, mais cruel, com mais cara de lição pra vida, e não de lição pras crianças não fazerem coisa errada. Ser “mágico” nem sempre é sinal de ser bom, encantador e feliz pra sempre. Magia tem um preço, como alguns contadores de história sempre fazem questão de ressaltar, e “A Dama das Ameixas” mostra exatamente esse lado.

A história mostra os últimos dias de uma moça que convive com uma maldição. E fica bem claro que estar sob uma maldição não é sempre sinal de que um milagre divino vai acontecer e salvar a mocinha, que Merlin vai descobrir uma saída, que um beijo de amor cura tudo, e por aí vai. Estar sob uma maldição implica em lidar com sentimentos obscuros também, como mágoa e raiva. Mas ainda assim, não ocupa todo o espaço, deixando lugar também pra pequenas esperanças ou satisfações. É tudo junto, é tudo complexo (e convenhamos, vivemos num mundo muito mais cheio de “nuances” do que aquele dos irmãos Grimm, né).

De certa forma, me lembrou um pouco do Lago dos Cisnes e a maldição da Odete. Mas sem mais detalhes, senão entrego tudo do conto. É curto, vale a pena ler e saber do que eu estou falando! É emocionante, triste ("triste" naquele sentido que é bom de ler - tá, sei que é uma definição estranha hahaha) e mágico. E é sobre libertação. Eu diria que a moral da história é "o amor liberta" - relembrando aulas na escolinha, quando discutíamos fábulas e contos. :P


disponível em ebook aqui por R$2,99, pra Kindle, Kobo e Google (alguém me explica como funciona ebook nesse esquema do Google?)

Nome: A Dama das Ameixas
Autora: Karen Alvares
Editora: Draco
Nota no Skoob: 4/5

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Revista Trasgo n°3


Acabei de ler a 3a edição da Revista Trasgo, uma revista dedicada à fantasia e ficção científica nacional.

Lembro que meu primeiro contato com ela foi motivado pela curiosidade com o que andava sendo feito dentro desses estilos no Brasil. Confesso, eu não costumava ter muito contato com isso antes, e acabou sendo uma experiência bem legal. Eu diria que me deu alguns pontos de vista diferentes.

Por exemplo: eu gosto muito de fantasia, mas costumo ficar irritada com algumas histórias clichês, principalmente que puxam pro lado adolescente. Eu sei que tudo tem seu público, e que eu não sou parte desse público citado. Só estou dizendo um pouco sobre meu lado pessoal (até porque tenho conhecidos que adoram e se divertem com Crepúsculo ou Percy Jackson, e eu não tenho nada contra isso. Cada um tem seu gosto, e gostos diferentes são a parte mais legal), que acaba se manifestando sempre que topo com alguma produção "sem querer". Eu li A 5a Onda e Divergente ficando muito irritada com o tom "ingênuo", porque me senti desavisada. Mas também me surpreendi com o quanto ADOREI O Circo da Noite, que li esperando água com açúcar clichê, mas encontrei uma história muito bem escrita e que me prendeu (eu ainda me pego querendo voltar pro Le Cirque, às vezes...).

Na primeira vez que li a Trasgo, tive que lidar com sensações parecidas. Eu estava lendo uma coletânea de contos variados que, apesar de se encaixarem num estilo mais específico, eram bem diferentes uns dos outros. E mais: ninguém sabia o que esperar de cada história ali. Me deparei com contos que me pareceram estranhos, assim como descobri coisas muito, muito legais (o suficiente pra ir atrás de mais coisas sobre os autores. Não tenho tido verba pra comprar e apoiar tudo que queria, mas o que eu consegui me animou.. hehehe)

Tive que aprender a lidar também com a forma como manifestava o meu descontentamento com alguns contos, assim como manifestava minha empolgação com outros. Meu lado acadêmico, que ataca de revisora de textos as vezes, fica muito irritada quando encontra frases/parágrafos não tão bem construídos assim. Uma vozinha lá no fundo grita "poxa, se vocês querem ser escritores custa revisar a própria história?"
Meu lado fangirl as vezes também não tem muita paciência quando o tema da história, ou o contexto, é algo que não faz parte dos meus interesses pessoais. (Paciência comigo gente, meu ascendente é Aquário hahaha)

Lendo essa terceira edição da Trasgo, eu parei pra pensar em mim mesma como leitora, levando em consideração esses requisitos aí em cima. Alguns contos me causaram estranheza no início, mas aí eu parei pra pensar que existem outras coisas envolvidas. E se eu estivesse no lugar daquele autor, como contaria aquela história?

E aí parei pra pensar que existem formas e formas de se contar histórias. E muitas vezes, o que aquele autor quis foi só passar a dele pra frente, tirá-la da cabeça e dividir com outras pessoas. Ainda que ele não seja um especialista em gramática, ou que não ligue muito pro estilo literário da escrita *bote um tanto de vocabulário acadêmico chato aqui*. E nisso, ressalto: vale pra tudo, não só pra essa edição da Trasgo.

Teve uma história que li com uma sensação de "err... não sei". Aí pensei em como seria se fosse um filme, e ela passou a funcionar melhor na minha cabeça. Outra pareceu meio "simples demais", mas tava tão bem contada em palavras que ficou linda. Outras foram divertidas, o que me fez ignorar outras coisas (ignorar no sentido de: não sei dizer se tinha alguma coisa que eu normalmente consideraria errada ali hahaha).

Enfim, existem histórias e histórias. E existem leitores e leitores. Assim como contadores de história e escritores. Gostei dessa revista (e adorei a capa, adoro tudo com essa combinação de cores hahaha) e recomendo pra quem curte fantasia e afins.

E sei que esse texto já ficou enorme, então aviso que no geral, é isso. Mas se você ficou curioso e quiser ler alguma coisinha do que achei sobre cada conto, é só continuar... :)

1o conto: O Empacotador de Memórias
Gostei do tom meio nostálgico, meio parado no tempo, bem com cara de memória mesmo. Dá a sensação de que tudo acontece dentro de uma bolha de sabão do Tom de 6 anos (leiam pra entender hehehe). Queria comentar algo que ele falou na entrevista depois: que o conto "apesar de parecer um conto de ficção científica, o Empacotador é um conto sobre a nossa atual realidade". Poxa, pois pra mim, pessoalmente, ficção científica boa É sobre a nossa realidade do presente. É uma forma de recontextualizar algo que vivemos, de contar (ou protestar) coisas que acontecem com a gente. Enfim...

2o conto: Rosas Brancas
Não consegui decidir minha opinião. Tem um quê de ficção científica misturada com coisas hollywoodianas (matadores de aluguel, contrabandistas, colonização, e por aí vai). Curti a entrevista do autor, quando ele fala que tentou favorecer também o atrativo humano na história. É isso que eu sinto falta em muitas histórias de ficção científica atuais: lembrar que por mais que os personagens sejam androides, é o lado humano que prende e cria tudo isso, porque faz o leitor se identificar com a história.

3o conto: Feita de um sonho
Gostei muito da ideia desse conto. Mas achei que ele foi muito corrido, que as informações foram entregues muito rápido, muito fácil, as vezes meio jogadas. Dava pra fazer ele ser um conto de boa, com um suspense maior sobre o envolvimento das personagens com sonhos e como vivem com isso. (ou é o que eu queria saber mais, sendo leitora dessa história hahaha)

4o conto: Invasão
Eu ainda to confusa sobre esse conto. Pra mim ele foi estranho, esquisito, incomodou. Fiquei pensando se não era essa a intenção do autor, já que o personagem principal tá muito mais do que incomodado, ele está p*** com a situação descrita. Talvez a forma de escrita fosse proposital, pra dar esse efeito: teve paráfragos com frases tão longas que eu ficava sem ar, esperando um ponto final pra respirar. Em outros trechos, a linguagem era meio escrachada, largada, ás vezes soava machista, as vezes ficava agressiva e tal, mas tudo sempre combinando com o personagem, fazendo a gente visualizar a cena direitinho e talz. Mas na entrevista com o autor, ele falou de contos de humor, o que me deixou perdida. Não achei o conto engraçado, achei 'what the fuck'. Então não sei se entendi. Depois leio de novo O.o

5o conto: Viral
Eu gostei desse conto. Muito. Achei muito legal e curioso misturar zumbis com linguística com criptografia com política e por aí vai. Muito criativo, muito bem escrito, e induzindo a gente a visualizar as cenas e personagens de um jeito muito efetivo. Na entrevista, vi que o autor tem planos de uma história com folclore brasileiro, só que sem clichê de curupira. Sobre isso, só um comentário: por favor, me avise quando isso sair, porque eu quero muito ler!

6o conto: O Vento do Oeste
Eu tenho um fraco com histórias de deserto. Adoro histórias que levam para o lado mágico do mundo árabe, que é muito pouco conhecido no ocidente. Mas não foi só por isso que eu adorei esse conto: adorei porque a história é tão bem construída, tão bem contada, que eu quis saber mais, quis entrar naquele mundo. E adoro quando os personagens são bem tratados, não sendo só pecinhas de um jogo de fantasia. Acho que essa edição da revista já vale a pena por esse conto!

Conto extra: Quando Todos Viraram Filmes (disponível para os assinantes da newsletter da revista)
Curti! Gostei de adivinhar às vezes quais séries especificamente o autor fazia referência em alguns momentos, ou de visualizar cada personagem como um filme. O tom meio nonsense também foi legal. Senti falta de falar um pouco mais do personagem, além do “bidimensional” que ele escuta da namorada heheeh


sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Circo da Noite


“Você pode contar uma história que passe a morar na alma de alguém, se transforme em seu sangue e propósito. Essa história vai motivar e impulsionar e quem sabe o que ela poderá fazer por causa disso, por causa das suas palavras.”                Senhor A. H...

Enfim, a copa chegou, as férias vieram junto meio que forçadamente, e eu finalmente pude parar pra ler alguma coisa legal com calma. E, não sei se por sorte, acabei fazendo uma bela escolha!

Eu não sei bem como falar sobre esse livro, apesar de ter muitas coisas na cabeça que podem ser ditas. Enfim, é como um sonho. É mágico. É um pouco trágico, e é bonito. É encantador. Você pode ler cada capítulo as vezes meio perdido, sem saber como as coisas se conectam.

Mas no final, é tudo sobre o circo.

Mesmo que todas as resenhas e comentários falem sobre ser uma versão moderna de Romeu e Julieta. É sobre eles também, e é sobre um desafio no qual a mocinha e o mocinho estão presos. É sobre o sonho de várias pessoas, é sobre relógios, é sobre acreditar ou não em magia. De fato, o tal desafio/ parte romântica com um casal que não pode ficar junto é sim importantíssima. Mas porque eles são o circo. É sobre as pessoas que veem “mágica”, que veem o impossível na frente delas (de verdade), mas que chamam de ilusionismo bem calculado e pensado, porque simplesmente é inadmissível acreditar que aquelas coisas possam ser feitas de verdade. Então essas pessoas preferem sentir que estão sendo enganadas por truques de engenharia mesmo.

O livro é o circo. Não dá pra esquecer que o título dele é “O Circo da Noite”.

O mais legal, na minha opinião, é que o livro inteiro tem a estrutura do Le Cirque des Rêves (esse é o nome do tal circo): cada capítulo é uma tenda, que pode parecer um pouco desconexa com os anteriores. Como andar perdido pelo circo, esperando a próxima surpresa ao acaso. Até a cronologia é um pouco assim, alternando coisas do futuro com coisas do passado. Personagens de diversos cantos do mundo.

Mas no final, é simples assim: tudo o que aparece, tudo o que a gente lê é o circo. Cada personagem, cada período de tempo, tudo que antes parece meio solto uma hora vai se mostrar como parte de um conjunto.

Só que aí, no último capítulo (ok, esse último eu achei que quaaaase caiu na armadilha do Scooby doo, onde ficam explicando tudo o que aconteceu, mas conseguiu se salvar por pouco) a gente descobre que mais do que sobre o circo, é sobre histórias. Não só a história de cada personagem envolvido com o circo (não subestimem nenhum deles, sério), mas sobre a história que eles constroem juntos, ainda que sem querer.

Histórias tem poder.

Editado pra acrescentar:
- Tem Shakespeare no livro, muito Shakespeare. Do jeito óbvio e do jeito não óbvio.
- Ler o livro é entrar no circo. No sentido de ter todas as sensações que os frequentadores descrevem na história. Cada vez que eu pegava pra ler, me dava vontade de tomar chocolate quente com especiarias, maçã com caramelo, a "coisa com canela"... Dava pra visualizar cada tenda também :)

Nome do livro: O Circo da Noite
Autora: Erin Morgenstern (adorei esse sobrenome haaha)
Páginas: 368
Editora: Intrínseca
Nota no Skoob: 5/5