segunda-feira, 16 de junho de 2014

Revista Trasgo n°3


Acabei de ler a 3a edição da Revista Trasgo, uma revista dedicada à fantasia e ficção científica nacional.

Lembro que meu primeiro contato com ela foi motivado pela curiosidade com o que andava sendo feito dentro desses estilos no Brasil. Confesso, eu não costumava ter muito contato com isso antes, e acabou sendo uma experiência bem legal. Eu diria que me deu alguns pontos de vista diferentes.

Por exemplo: eu gosto muito de fantasia, mas costumo ficar irritada com algumas histórias clichês, principalmente que puxam pro lado adolescente. Eu sei que tudo tem seu público, e que eu não sou parte desse público citado. Só estou dizendo um pouco sobre meu lado pessoal (até porque tenho conhecidos que adoram e se divertem com Crepúsculo ou Percy Jackson, e eu não tenho nada contra isso. Cada um tem seu gosto, e gostos diferentes são a parte mais legal), que acaba se manifestando sempre que topo com alguma produção "sem querer". Eu li A 5a Onda e Divergente ficando muito irritada com o tom "ingênuo", porque me senti desavisada. Mas também me surpreendi com o quanto ADOREI O Circo da Noite, que li esperando água com açúcar clichê, mas encontrei uma história muito bem escrita e que me prendeu (eu ainda me pego querendo voltar pro Le Cirque, às vezes...).

Na primeira vez que li a Trasgo, tive que lidar com sensações parecidas. Eu estava lendo uma coletânea de contos variados que, apesar de se encaixarem num estilo mais específico, eram bem diferentes uns dos outros. E mais: ninguém sabia o que esperar de cada história ali. Me deparei com contos que me pareceram estranhos, assim como descobri coisas muito, muito legais (o suficiente pra ir atrás de mais coisas sobre os autores. Não tenho tido verba pra comprar e apoiar tudo que queria, mas o que eu consegui me animou.. hehehe)

Tive que aprender a lidar também com a forma como manifestava o meu descontentamento com alguns contos, assim como manifestava minha empolgação com outros. Meu lado acadêmico, que ataca de revisora de textos as vezes, fica muito irritada quando encontra frases/parágrafos não tão bem construídos assim. Uma vozinha lá no fundo grita "poxa, se vocês querem ser escritores custa revisar a própria história?"
Meu lado fangirl as vezes também não tem muita paciência quando o tema da história, ou o contexto, é algo que não faz parte dos meus interesses pessoais. (Paciência comigo gente, meu ascendente é Aquário hahaha)

Lendo essa terceira edição da Trasgo, eu parei pra pensar em mim mesma como leitora, levando em consideração esses requisitos aí em cima. Alguns contos me causaram estranheza no início, mas aí eu parei pra pensar que existem outras coisas envolvidas. E se eu estivesse no lugar daquele autor, como contaria aquela história?

E aí parei pra pensar que existem formas e formas de se contar histórias. E muitas vezes, o que aquele autor quis foi só passar a dele pra frente, tirá-la da cabeça e dividir com outras pessoas. Ainda que ele não seja um especialista em gramática, ou que não ligue muito pro estilo literário da escrita *bote um tanto de vocabulário acadêmico chato aqui*. E nisso, ressalto: vale pra tudo, não só pra essa edição da Trasgo.

Teve uma história que li com uma sensação de "err... não sei". Aí pensei em como seria se fosse um filme, e ela passou a funcionar melhor na minha cabeça. Outra pareceu meio "simples demais", mas tava tão bem contada em palavras que ficou linda. Outras foram divertidas, o que me fez ignorar outras coisas (ignorar no sentido de: não sei dizer se tinha alguma coisa que eu normalmente consideraria errada ali hahaha).

Enfim, existem histórias e histórias. E existem leitores e leitores. Assim como contadores de história e escritores. Gostei dessa revista (e adorei a capa, adoro tudo com essa combinação de cores hahaha) e recomendo pra quem curte fantasia e afins.

E sei que esse texto já ficou enorme, então aviso que no geral, é isso. Mas se você ficou curioso e quiser ler alguma coisinha do que achei sobre cada conto, é só continuar... :)

1o conto: O Empacotador de Memórias
Gostei do tom meio nostálgico, meio parado no tempo, bem com cara de memória mesmo. Dá a sensação de que tudo acontece dentro de uma bolha de sabão do Tom de 6 anos (leiam pra entender hehehe). Queria comentar algo que ele falou na entrevista depois: que o conto "apesar de parecer um conto de ficção científica, o Empacotador é um conto sobre a nossa atual realidade". Poxa, pois pra mim, pessoalmente, ficção científica boa É sobre a nossa realidade do presente. É uma forma de recontextualizar algo que vivemos, de contar (ou protestar) coisas que acontecem com a gente. Enfim...

2o conto: Rosas Brancas
Não consegui decidir minha opinião. Tem um quê de ficção científica misturada com coisas hollywoodianas (matadores de aluguel, contrabandistas, colonização, e por aí vai). Curti a entrevista do autor, quando ele fala que tentou favorecer também o atrativo humano na história. É isso que eu sinto falta em muitas histórias de ficção científica atuais: lembrar que por mais que os personagens sejam androides, é o lado humano que prende e cria tudo isso, porque faz o leitor se identificar com a história.

3o conto: Feita de um sonho
Gostei muito da ideia desse conto. Mas achei que ele foi muito corrido, que as informações foram entregues muito rápido, muito fácil, as vezes meio jogadas. Dava pra fazer ele ser um conto de boa, com um suspense maior sobre o envolvimento das personagens com sonhos e como vivem com isso. (ou é o que eu queria saber mais, sendo leitora dessa história hahaha)

4o conto: Invasão
Eu ainda to confusa sobre esse conto. Pra mim ele foi estranho, esquisito, incomodou. Fiquei pensando se não era essa a intenção do autor, já que o personagem principal tá muito mais do que incomodado, ele está p*** com a situação descrita. Talvez a forma de escrita fosse proposital, pra dar esse efeito: teve paráfragos com frases tão longas que eu ficava sem ar, esperando um ponto final pra respirar. Em outros trechos, a linguagem era meio escrachada, largada, ás vezes soava machista, as vezes ficava agressiva e tal, mas tudo sempre combinando com o personagem, fazendo a gente visualizar a cena direitinho e talz. Mas na entrevista com o autor, ele falou de contos de humor, o que me deixou perdida. Não achei o conto engraçado, achei 'what the fuck'. Então não sei se entendi. Depois leio de novo O.o

5o conto: Viral
Eu gostei desse conto. Muito. Achei muito legal e curioso misturar zumbis com linguística com criptografia com política e por aí vai. Muito criativo, muito bem escrito, e induzindo a gente a visualizar as cenas e personagens de um jeito muito efetivo. Na entrevista, vi que o autor tem planos de uma história com folclore brasileiro, só que sem clichê de curupira. Sobre isso, só um comentário: por favor, me avise quando isso sair, porque eu quero muito ler!

6o conto: O Vento do Oeste
Eu tenho um fraco com histórias de deserto. Adoro histórias que levam para o lado mágico do mundo árabe, que é muito pouco conhecido no ocidente. Mas não foi só por isso que eu adorei esse conto: adorei porque a história é tão bem construída, tão bem contada, que eu quis saber mais, quis entrar naquele mundo. E adoro quando os personagens são bem tratados, não sendo só pecinhas de um jogo de fantasia. Acho que essa edição da revista já vale a pena por esse conto!

Conto extra: Quando Todos Viraram Filmes (disponível para os assinantes da newsletter da revista)
Curti! Gostei de adivinhar às vezes quais séries especificamente o autor fazia referência em alguns momentos, ou de visualizar cada personagem como um filme. O tom meio nonsense também foi legal. Senti falta de falar um pouco mais do personagem, além do “bidimensional” que ele escuta da namorada heheeh


5 comentários:

  1. Eu tinha escrito um comentário enorme, mas o Google comeu antes de eu apertar publicar. :(

    Fico muito feliz que tenha gostado da Trasgo 03, e mais feliz ainda que tenha escrito sobre ela! É ótimo ver a revista por outros olhos. :)

    A ideia da Trasgo é essa aí, trazer uma boa variedade de contos. O engraçado é que em cada edição, cada pessoa tem um conto favorito diferente!

    PS: Que bom que gostou do conto extra, e muito obrigado por ser um assinante da newsletter da Trasgo!

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  2. Oi Redd, que bacana ler a sua resenha sobre a Trasgo #03! Estou sempre por aqui lendo suas resenhas, mas nunca comento. Enfim, hoje precisava dizer que fiquei muito contente por você ter curtido "O Vento do Oeste". Foi um conto que gostei demais de escrever e saber que ele conseguiu te conquistar é muito bacana. Também tenho um fraco por histórias de deserto :).

    Essa questão que você falou sobre formas e formas de se contar histórias é bem verdade. E, pensando no que você escreveu no post, refleti sobre a minha própria escrita. No início, quando comecei a botar minhas coisinhas no papel, minha principal preocupação era contar a história e basicamente só isso. Depois de um tempo, comecei a me atentar mais ao estilo de escrita, à construção de parágrafos, às falas... enfim, foi aí que me dei conta de que escrever não é só questão de usar o português corretamente e passar a sua ideia, é muito mais do que isso. Confesso que ainda tenho muito o que amadurecer, porque criar o nosso próprio estilo de escrita e ir melhorando e aperfeiçoando ele é um processo. Por vezes duvido de que um dia eu ficarei satisfeita com o que faço, mas não tem outro jeito, escrever se aprende teimando, escrevendo e lendo!

    Hehehe, divaguei aqui. De qualquer modo, muito obrigada pela sua leitura e fiquei realmente rindo sozinha aqui com o seu comentário sobre "O Vento do Oeste". Valeu!

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    1. Oi! Obrigada pela resposta, é bom ver que o comentário serve pra alguma coisa hahahaha Mas falando sério, curti muito ler o que vc falou. Pra mim, acabou sendo um crédito a mais como leitora. Tipo saber "naquela autora posso confiar um pouco mais, pq ela tá se esforçando pra melhorar". Como eu falei aí, tem gente q pensa nessas coisas, tem gente q não, né? E isso acaba fazendo a gente "peneirar", aidna que seguindo o nosso gosto.
      E a gente nunca gosta 100% do que a gente faz, então o importante é fazer! :)

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    2. É verdade, Redd, o importante é fazer :). Mas o meu mantra diário tem sido "preciso melhorar, preciso melhorar, preciso melhorar". Tenho uma vergonha danada do que escrevi há alguns anos, mas já aceitei que sem esse processo não teria como ter descoberto um monte de coisas, recebido dicas valiosas, críticas, etc.

      Enfim, seu comentário com certeza serve sim XD! E novamente, obrigada por ter lido meu conto!!

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  3. Olá, Redd!

    Só agora descobri o seu blog. Agradeço a leitura de Invasão e quero te dizer o seguinte: a intenção do conto é essa mesma: ser estranho. Tudo foi pensado e escrito para dar essa impressão.

    Mais uma vez, obrigado pela leitura & comentário.


    Claudio Parreira

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