segunda-feira, 21 de julho de 2014

Anansi Boys


Tem coisas que a gente precisa fazer de tempos em tempos. Tipo tirar férias. Ir a um restaurante muito bom. Dormir até meio-dia. Ou ler um livro do Neil Gaiman.

Foi assim que me senti lendo Anansi Boys: fazendo algo que eu não fazia há algum tempo, mas tava precisando. Pelo menos pra mim, histórias do Neil Gaiman dão um “refresco” na rotina, no mundo de sempre. Não só pela história, mas pela forma como ele apresenta o mundo. Em tempos de mísseis israelenses e guerra da Ucrânia, grandes personalidades partindo desse mundo e racionamento de água, é muito bom ser lembrada de que o mundo é muito mais do que a gente vê nos jornais. Existem mundos em cima de mundos, existem entremundos, entrelinhas, coisas implícitas, sugestões, influências, grandes viradas e tudo o mais que for possível imaginar.

E existem as canções.

“Songs remain. They last. The right song can turn an emperor into a laughingstock, can bring down dinasties. A song can last long after the events and the people in it are dust and dreams are gone. That’s the power of songs.” (Canções permanecem. Elas duram. A canção certa pode transformar um imperador em alguém digno de troça, pode derrubar dinastias. Uma canção pode durar até muito depois dos eventos e das pessoas que fazem parte dela se transformarem em pó. Esse é o poder das canções.)

E, seguindo uma mitologia/tradição (desculpem, não sei que palavra usar) vinda do oeste da África, todas as canções são de Anansi. Todas as HISTÓRIAS são de Anansi. E cada pessoa tem sua canção. Alguns aprendem a cantá-la, outros não a escutam, outros a vivem como compensação por não conseguirem aprendê-la. Mas no fim, todas elas pertencem a Anansi.

Mas o mais legal é que Anansi não é uma divindade solene que manda no destino das pessoas. Anansi é uma aranha que tece teias no mundo (e assim são as histórias: conectadas, todas levando a um centro, que seria o fim, o clímax, a meta de tudo).

Mas Anansi também é um “tiozão” (pq eu imagino ele assim hahaha) cara de pau, assanhado e pregador de peças, do tipo que é capaz de irritar pessoas ou levar o próprio filho ao ódio absoluto depois de passar por tanta vergonha – vergonha que pro pai é sempre alguma piada muitíssimo engraçada.  Anansi é o cara bon vivant, que sabe o que é bom, que só faz o que quer, que se dá bem no que faz. É o cara que tá acostumado a se livrar de enrascadas absurdas (cantando), e acabar se metendo em outras ainda maiores (cantando também).

Antigamente, as histórias eram do Tigre. Naquela época, as pessoas só se preocupavam em caçar e ser caçadas. Era um mundo selvagem. Agora não, agora as histórias são de Anansi, e agora as pessoas começaram a descobrir como se livrar dos problemas e das caçadas PENSANDO. Como disse nosso caro Anansi, muito melhor assim, não?

Anansi teve filhos, que obviamente herdaram algo dele (ainda que um demore a perceber isso).  E isso implica em herdar enrascadas também. O que nos leva ao enredo principal da história: Charlie Nancy (ou Fat Charlie, como o pai fez com que ele fosse conhecido pelo mundo, mesmo não tendo nada de “fat”), após uma vida tediosa e certinha, acaba se deparando com sua herança familiar (que inclui enrascadas). E aí, descobrindo um mundo novo que ele antes consideraria absurdo e impossível – imagine descobrir que o pai que você quer longe da sua vida era um deus –, cresce, descobre o próprio potencial, e se transforma em outro. 

Basicamente, mais uma releitura da saga do herói. Mas com uma bela pitada de Gaiman, o que faz toda a diferença. E, pensando em outros livros do autor, acabei achando que segue um estilo parecido com o de Neverwhere, tanto nos desafios quanto no tom da história, mais leve, engraçadinho, profundo (diferente de Deuses Americanos, que eu acho mais sério, de Stardust, que é mais "ingênuo", ou de Belas Maldições, muito engraçadinho mas menos "profundo"...)

E claro, um livro cheio de citações pra vida (pelo menos pra mim, que saí marcando todas hahahaha – não se preocupem, eu li em paperback :P).

“People take on the shapes of the songs and the stories that surround them, especially if they don’t have their own song.” (As pessoas tomam a forma das canções e histórias que as cercam, especialmente se eles não têm sua própria canção.)

“The world may be the same, but the wallpaper’s changed. Yes? People still have the same story, the one where they get born and they do stuff and they die, but now the story means something different to what it meant before.” (O mundo pode ser o mesmo, mas o papel de parede mudou. Sim? As pessoas ainda acreditam na mesma história, aquela onde elas nascem e fazem coisas e morrem, mas agora a história significa algo diferente do que costumava significar antes)

“They [stories] don’t mean a damn unless there’s people listenin’ to them.” (Elas [as histórias] não significam nada a não ser que tenha alguém escutando)

Ah! Só um esclarecimento: Anansi Boys faz parte do mesmo universo de Deus Americanos (se você leu esse livro, deve se lembrar do Mr. Nancy, né?), mas as histórias são independentes uma da outra. Dá pra ler qualquer um em qualquer ordem, embora eu ache mais legal ler Deuses Americanos primeiro, pois dá um panorama mais legal de como "funciona" essa coisa de deuses, deuses no mundo real, deuses que morrem mas continuam aí e por aí vai... :P

Nome: Anansi Boys
Título brasileiro: Os Filhos de Anansi

Autor: Neil Gaiman
Páginas: 400
Nota no Skoob: 5/5
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E essa foi a primeira parte da minha Maratona Literária! Hoje foi o dia “leve” da semana, 1º dia de aula e tal. A partir de amanhã a coisa volta a ficar mais tensa, mas vamo que vamo pro próximo item!

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