quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coração de Tinta


Aviso pra começar: acho que empolguei tanto falando sobre porque li o livro que acabei escrevendo uma introdução muuuuuuito grande. Se você não liga pra isso e só quer saber se o livro é bom e o que tem nele, pule essa parte!

Há muito tempo atrás, passeando pela locadora, vi um DVD que me chamou atenção pelo nome e por parecer ser um filme de fantasia. Mesmo sendo filme do Brendan Fraser (HUE), resolvi alugar.

Coração de Tinta.

Não posso falar muito do filme hoje em dia, confesso que já tinha esquecido ele quase todo. Depois de ler o livro então, eu correria o risco de confundir o que eu imaginei com o que eu vi. Só posso dizer que o livro me deixou com a impressão de que o filme é uma droga. Tipo versão Hollywood lado B de Super Xuxa contra o Baixo Astral. Hahahaha Pra escrever esse texto, recorri ao Google pra lembrar que atores faziam alguns personagens e descobri que o Capricórnio era o Andy Serkis de um jeito muito ridículo. ARGH. Hahaha (reitero: tenho que assistir de novo pra ver se a memória tá me enganando :P)

O motivo de eu ter tido vontade de ler o livro mesmo assim foi que, além de ele ter uma temática que quem me conhece já tá cansado de saber que me atrai, eu descobri que ele é alemão. E eu tive a minha época de estudar alemão (to tentando ressuscitar algumas coisas agora nas “férias da copa”), e achei que seria o livro perfeito pra ler e treinar a língua, já que ler sobre o que a gente gosta ajuda, né. Só que eu não conseguia achar ele em alemão sem ter que importar pagando um absurdo, além de eu não ter (e me recusar a fazer até o dia em que precisar MESMO) cartão de crédito internacional, pra evitar gastos, o que também me impossibilitou de comprar o ebook em alemão, que eu só achava em euros. Acabei adiando a leitura imensamente por causa disso.

Só que toda hora começava a aparecer algo sobre a Cornelia Funke, autora do livro, em coisas que eu lia ou via por aí. E cada vez que eu via ela falando sobre literatura e afins, sentia que precisava ler o livro dela pra entender o lado prático do que ela falava. Até que, no final do ano passado, fiz um curso online chamado “The Future of Storytelling”, oferecido pela Fachhochschule Potsdam, que incluía depoimentos e aulas de várias personalidades, incluindo a própria Cornelia Funke (que no curso falava sobre um livro interativo dela criado para ipad, Mirrorworld).

E aí, vasculhando os confins da internet, consegui o ebook em inglês, que eu acabei de ler. :P

Chegando ao fim essa enooooorme introdução sobre como eu cheguei nesse livro, vamos enfim às impressões:

Curti IMENSAMENTE! Não só pelo conteúdo, mas também pela forma como tudo é trabalhado e apresentado. A estrutura do livro é uma coisa muito bem feita, e dá pra ver como cada coisinha foi bem pensada e considerada. Resumindo: é nítido o quanto foi um trabalho bem feito.

É um livro sobre um livro, e sobre livros em geral. Um “metalivro” hahaha. Isso quer dizer que tudo dentro da história tem que/pode ser comparado com livros em si, seja no aspecto físico e material, seja no conteúdo. E, sendo um livro “infanto-juvenil” (bem grandinho pra crianças, eu acho), muito desse paralelismo pode ser feito com outras histórias de fantasia infanto-juvenis também (ou não). Tanto é que no início de cada capítulo vem uma pequena citação de alguma história, desde A Ilha do Tesouro, passando por As Mil e Uma Noites e Peter Pan, até O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia e Onde Moram os Monstros, sempre relacionada com a ação que está para ser apresentada.

A história fala sobre personagens que saíram de um livro, Coração de Tinta, e o problema que isso causa na vida da família de Mo (Mortimer), Meggie e Elinor. Mais especificamente, fala sobre um vilão cujo coração é negro como a tinta, e que, saído do livro, passa a “executar suas vilanices” no “mundo real” (apesar de “real” ser algo bem relativo na história. Tudo ali é real, só que com origens em mundos diferentes). É legal também ver que, mesmo tendo coração negro, Capricórnio é sempre descrito como sendo pálido e sem cor, refletindo a falta de sentimentos como medo ou remorso, exibindo a sua frieza.

A gente vê o tempo todo esses personagens saídos do tal livro (e de outros também, como a Tinker Bell) se relacionando com as pessoas do nosso mundo, onde tudo acontece. Depois de algumas páginas, mesmo tendo aprendido a gostar de alguns dos “nativos do Coração de Tinta”, dá pra perceber a diferença entre uns e outros. Enquanto Capricórnio, Basta e outros (alguém pode me dizer como traduziram Dustfinger na edição brasileira?) tem características quase poéticas, mas muito bem definidas, algumas quase clichês, as pessoas reais, como a mocinha Meggie, têm mais camadas, mais dilemas, mais “humanidade”.

Aliás, preciso falar que eu gostei muito da forma como a autora trata Meggie, que é a personagem que mais recebe foco na história, uma menina de apenas 12 anos. Meggie passou a vida com o pai, acreditando que a mãe tinha abandonado a família, até descobrir que ela tinha sido sugada para dentro do Coração de Tinta (mas a resenha da história vocês podem achar em qualquer lugar, só digitando o título do livro no Google). Eu diria que, mesmo que considere Capricórnio o protagonista (tanto do livro de verdade quanto do fictício – é só lembrar que o título da história faz referência a ele), é com Meggie que o leitor pode se identificar, e é dentro da cabeça dela que se consegue entrar mais fácil.

Mas não é uma mocinha ingênua e romantizada, como as que costumamos ver em livros do estilo – aliás, no próprio livro dá pra ver Elinor tentando comparar Meggie a alguma heroína de histórias de aventura, mas se decepcionando porque só conseguia pensar em heróis, nenhuma mocinha valente como a sobrinha. Meggie é ingênua sim, mas do jeito que meninas de 12 anos costumam ser. Mesmo assim, é atrevida às vezes, teimosa, e se pega sentindo ciúmes da própria mãe ao perceber o quanto o pai sente falta dela, concluindo que não tem como sentir falta de alguém que nunca conheceu (ok, já deixo vocês aliviados falando que o sentimento muda quando as duas se encontram pessoalmente :P). 


Enfim, ainda to na fase de digestão da leitura, que foi longa. O que mais me chamou atenção foi o fato de tudo não só girar em torno de livros, mas de ser feito como um, quase como uma aula sobre como escrever histórias e criar personagens. É bem legal, inclusive, quando Mo e Meggie vão atrás do autor de Coração de Tinta (o fictício) e este se mostra empolgadíssimo em conhecer seus personagens, ainda que sejam vilões temíveis. Depois pretendo ler as sequências (tem mais dois livros) e ver se isso continua. Mas já digo que toda essa questão sobre citações, livros, personagens e mundos se cruzando fazem com que, mesmo sendo uma história de fantasia infanto-juvenil, seja bem interessante mesmo pra adultos, e não tão clichê e boba. Vale a leitura! (ah é, e se imaginar nas paisagens da costa italiana durante a leitura também é bem legal, viu!)

Nome do Livro: Coração de Tinta (eu li em inglês, então é Inkheart. O original é Tintenherz)
Autora: Cornelia Funke
Páginas: 416 (no ebook)
Nota no Skoob: 4/6

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