sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Pó de Lua


Vou confessar pra vocês: eu costumo dizer a mim mesma que não gosto de poesia. :S

Vou explicar: já li um tanto, já estudei na faculdade, tenho alguns livros de poetas famosinhos em épocas em que me empolguei com alguma temática específica (tipo comprar uma coletânea do Baudelaire quando eu tinha mania de “gótica” hahaah). Mas um dia me dei conta de que a minha relação com esse tipo de texto era meio vazia, não rolava identificação, eu lia e ficava nisso. Nunca mexeu comigo. Era mais um jogo de palavras com rimas e métrica (e eu curti aprender a separar sílabas em poemas, achava o raciocínio muito legal) que não tinha nada a ver comigo. Era como ler uma história de outra pessoa e pensar ‘legal, mas não me interessou’. Às vezes, eu até achava que faltava a história, que eram palavras meio soltas só pra rimar. O que eu curto em literatura são as narrativas, a imaginação. Por isso sempre preferi textos em prosa.

Mas enfim, não odeio, então sempre dou uma chance. :P

Nessa, um dia vi no perfil da Intrínseca que iam lançar um livro com os poeminhas desenhados de uma página do facebook chamada “Pó de Lua”. E como tudo que tem qualquer coisa de céu, estrelas, espaço e etc no meio me atrai, fui checar. Curti a página, achei cada posto super bonitinho, tanto no conteúdo quanto visualmente... e comprei o livro, que estava na pré-venda.

Essa semana ele chegou, e eu devorei em pouco tempo. Gente, é lindo, to apaixonada S2

O livro é dividido em 4 partes, uma pra cada fase da Lua. Alguns poemas ocupam uma página, outros ocupam duas, e todos são desenhados (e lindos). E o melhor: me identifiquei com muitos deles.

Foi a primeira vez que li poesia e senti que ela falava comigo, lá dentro, encontrando pedacinhos escondidos de mim mesma que tinham a ver com o que estava escrito ali. Me senti meio Lua!

Gostei como a Clarice Freire, a autora, pega coisas aparentemente insignificantes e transforma em mensagens bonitas. Coisas no sentido literal, objetos que normalmente a gente trata como corriqueiros: fósforo, tomada e balão, entre outras coisas. Também curti como ela parece dar uma outra visão pra “símbolos” que já estão em todos os cantos e que normalmente a gente nem se dá ao trabalho de interpretar, porque o mundo já tem interpretações prontas (como o Sol, a própria Lua, a alma, o mundo...)

Minha leitura teve o tempo todo esse clima de poesia, de delicadeza, de beleza. De ver o lado bonito de coisas que as pessoas estão acostumadas a tratar como dor. Enfim, um clima de vida que é bonita nas coisas pequenas do dia a dia.

Vai virar livro de cabeceira, desses que a gente pega de vez em quando e folheia. Li ele todo seguido, mas dá perfeitamente pra abrir em páginas aleatórias e ler algo legal. As vezes, algo legal que fala exatamente o que a gente tá precisando ouvir :)

Nome: Pó de Lua - Para diminuir a gravidade das coisas
Autora: Clarice Freire
Editora: Intrínseca
Páginas: 192
Nota no Skoob: 5/5


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Antologia da Literatura Fantástica


Há uns dias atrás a Cosac Naify fez uma promoção com descontos maravilindos, e claro que eu quis aproveitar. Como estava sem verba pra uma compra gigantesca, acabei ficando só com esse livro, que vale por vários e é daqueles que a gente quer exibir na biblioteca pessoal. :P

Na verdade, comprei sem saber muito o que esperar. Minhas expectativas se basearam apenas no título e nos autores: “Antologia da Literatura Fantástica” me fez pensar em um apanhado de contos de um dos meus estilos favoritos reunidos, e a chance de conhecer mais contos que eu nunca ouvi falar. “Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo”, os organizadores, me fizeram pensar em garantia de qualidade na seleção e nas traduções (que eles mesmos fizeram).

Bom, essa é a primeira vez que escrevo aqui sobre um livro que não acabei de ler. Aliás, não li nem a metade. Antologias não são pra ser devoradas, são pra ser “degustadas”. Um dia a gente pega o livro e lê um conto, digere, processa a informação, decide o que achou... em outro dia a gente pega outro. Em alguns dias pegamos vários ao mesmo tempo, dos curtinhos, por curiosidade e empolgação. E por aí vai.

Uma das primeiras coisas que noite quando comecei a ler os primeiros contos é que eu tava com MUITA SAUDADE de literatura bem escrita, viu? Digo ‘bem escrita’ no sentido de cuidado com palavras, alguma sensação de cuidado com as palavras escolhidas e não só com o conteúdo da história. Vou ter que confessar pra vocês que, investindo muito em livros de autores atuais, esse quesito as vezes anda muito sumido, quase descuidado mesmo.

Ok, em alguns contos o estilo vai parecer bem rebuscado, cansativo e exagerado, mas a gente tem que lembrar que pode ser característica da época (até agora, os contos que li são do século XIX ou do início do século XX, época em que tudo tinha que ser racional, rebuscado, poético e científico ao mesmo tempo, e cheio de expressões em francês – quando os personagens são “cultos”). Mas não consideraria isso algo ruim. No máximo me faz alertar: não é pra leitores “jovens”, é pesado e eu recomendaria a leitura somente depois que a pessoa já tiver costume e gosto e hábito e tudo o mais, uma certa “fluência pra ler”, sabe?

A edição brasileira fez uma tradução de tudo a partir da tradução dos organizadores (que escreveram em espanhol, né), pra manter o estilo e as intenções deles. Super válido. Mais a capa dura, mais a fitinha pra marcar página, mais as margens azuis que deixam o livro colorido e bonitão... Muita qualidade!

Outra coisa: acho que TALVEZ, tendo em vista que hoje em dia a fantasia tá ganhando um espaço cada vez maior, é muito válido lembrar que o termo “literatura fantástica” não se refere aos Harry Potter e histórias de fadas da vida. Ou melhor, não somente a esse tipo de história. Literatura Fantástica diz respeito a qualquer história onde aconteça algo no mundo real que não pode ser explicado por esse mundo real, pelo menos não com as leis da física que conhecemos no momento em que o conto foi escrito. Pode ser desde histórias de fantasmas, até ficção científica, até contos das mil e uma noites, até um quadro que envelhece no lugar do dono dele, até uma história normal por 500 páginas com o personagem voando para o céu na última. Esse tipo de coisa.

Por que eu quis falar isso? Pra ninguém achar que vai comprar o livro e encontrar um monte de histórias de fadas. Hahahaha Tá mais pra Faustos da vida, algumas lendas folclóricas de diversos países, pactos com o diabo e por aí vai. É a estranheza em algum momento que conta.

Super recomendo o livro pra quem se interessar não só pelo estilo, mas por ler coisa boa no geral! Ainda que só você só leia um conto e guarde o livro por 20 anos, ele sempre vai estar lá co mais contos rapidinhos a hora que der na telha! :P 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Explicando Tolkien


Um dia desses fiquei sem o que fazer no centro por algumas horas, e não valia a pena voltar pra casa. Tentei ir ao cinema, mas no horário só tinha filme dublado (tirando algumas animações, ME RECUSO a ver filme assim), então a minha única escolha acabou sendo bisbilhotar uma livraria. Não tinha muito dinheiro e não devia comprar nada, mas... Poxa, era sobre Tolkien! *.*

Foi assim que o livro Explicando Tolkien veio parar nas minhas mãos. Pra gastar o tempo, eu olhava livro por livro, memorizava alguns interessantes pra procurar depois, lia trechinhos, pegava cada volume em cada prateleira. E, numa das últimas, mais escondidas, com livros sobre teoria da literatura, vi esse livro que prometia explicar muita coisa sobre a Terra Média.

Gente, eu sempre fui fã de Tolkien, mas esse livro me fez aumentar a admiração. O cara não era desse mundo. Se era, tinha alguma anteninha a mais pra captar coisas. *.* Além de tudo, encontrei nele uma forma de “explicar” pras pessoas porque eu curto tanto as histórias dele (e eu nunca soube dizer direito). O autor pontua algumas coisas de forma bem clara: nas obras do escritor o real e o imaginário se fundem, e mostram um mundo sólido.

Explicando Tolkien foi escrito por Ronald Kyrmse, maior “fanboy” (hahaha) de Tolkien nessas terras tupiniquins, responsável pela revisão nas traduções de vários livros do autor, pela tradução de Contos Inacabados, e pela união de um monte de fãs de Tolkien espalhados pelo país. No livro, ele explica bem resumidamente diversos aspectos da obra do autor inglês, passando por aspectos que a gente nem imaginaria. Comenta desde os mapas, as línguas e os povos até a fauna e a flora criadas para dar mais realismo à história, passando pelas adaptações cinematográficas, as traduções (inclusive comentando coisas muito legais sobre traduções bem ou mal feitas e o que faz com que elas sejam como são), até as críticas positivas e negativas acerca de O Senhor dos Anéis. Faz inclusive uma comparação entre o mapa da Terra Média e da Europa (dá pra comparar até latitude de algumas cidades!) e a cronologia das Eras em suas histórias e o nosso tempo. – Essa parte me fez lembrar de quando li Roverandom, história do autor que se passa no nosso mundo mesmo, no século XX, e o cachorrinho vê de longe uma ilha brilhante que seria o famoso Oeste... :)

E claro, também tem um apanhado de citações legais e frases de efeito (todo mundo adora hahaha), além de uma sugestão de bibliografia pra quem quiser se aprofundar.

Tolkien não teve a ideia repentina de criar histórias que se passavam num mundo aleatório fruto de sua imaginação. Ele criou um mundo que possuía diversas culturas altamente complexas, resultantes dos povos que vivem ali, com influência de acontecimentos, geografia, características físicas e muito mais, muito por interesse em fundamentar melhor as línguas, que ele estudava apaixonado desde criança. E, segundo ele, línguas não existem sem uma cultura/estrutura/estética como base. E por mais que muita gente duvide (principalmente quem não conhece a obra e considera apenas um fenômeno pop), as línguas criadas por ele também não são aleatórias. As duas línguas élficas que aparecem em O Hobbit, O Senhor dos Anéis, e O Silmarillion (só pra começar), chamadas quenya e sindarin, são derivadas do finlandês e do gaélico, respectivamente, tanto em sonoridade quanto em estrutura gramatical (cara, depois de ver os 10 casos do quenya eu to achando alemão ainda mais fácil hahaha).

Mas mais do que criar um fundamento para suas línguas, Tolkien criou uma história que não tem nada de escapista, mas reflete exatamente o mundo em que vivemos, lidando com mitos e arquétipos, descrevendo situações com as quais nos deparamos as vezes, ainda que metaforicamente. Escapismo é o que torna alheio, e não é bem isso que faz O Senhor dos Anéis. Concordo com o autor quando diz que um dos problemas para os que criticam Tolkien é que ele não pode ser comparado a nada, pois não existe na literatura um autor com uma obra com a mesma profundidade e características. Não há um parâmetro. Mas não foi por acaso que ele ganhou a alcunha de ‘autor do século XX’.

Enfim, talvez alguém que não se interesse ache tudo isso muito meh e sem graça, mas eu só me empolguei ainda mais. Pra mim, ninguém ainda foi capaz de chegar perto da complexidade da Terra Média, ao mesmo tempo que conseguindo tocar em pontos tão específicos e ser tão significativo!

Kyrmse fala de uma forma bem resumida sobre tudo o que faz a obra de Tolkien ser mágica, como se tirasse dos livros teóricos mais extensos as informações mais importantes e interessantes, fazendo com que a gente fique ainda mais curioso pra ler mais e mais e mais...

E um último comentário, caso alguém se interesse: tudo isso aí diz respeito aos LIVROS. E os livros de Tolkien nem sempre funcionam como histórias pra serem devoradas em pouco tempo (como eu fiz com Guerra dos Tronos, só pra dar um exemplo que costumam comparar sempre). É complexo, dá trabalho, tem um milhão de nomes que a gente esquece e tem que voltar pra lembrar quem ou onde era e por aí vai. Mas se não fosse assim, não seria tão rico!

  
Nome do livro: Explicando Tolkien
Autor: Ronald Kyrmse
Editora: Martins Fontes
Páginas: 180
Nota no Skoob: 5/5