segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Explicando Tolkien


Um dia desses fiquei sem o que fazer no centro por algumas horas, e não valia a pena voltar pra casa. Tentei ir ao cinema, mas no horário só tinha filme dublado (tirando algumas animações, ME RECUSO a ver filme assim), então a minha única escolha acabou sendo bisbilhotar uma livraria. Não tinha muito dinheiro e não devia comprar nada, mas... Poxa, era sobre Tolkien! *.*

Foi assim que o livro Explicando Tolkien veio parar nas minhas mãos. Pra gastar o tempo, eu olhava livro por livro, memorizava alguns interessantes pra procurar depois, lia trechinhos, pegava cada volume em cada prateleira. E, numa das últimas, mais escondidas, com livros sobre teoria da literatura, vi esse livro que prometia explicar muita coisa sobre a Terra Média.

Gente, eu sempre fui fã de Tolkien, mas esse livro me fez aumentar a admiração. O cara não era desse mundo. Se era, tinha alguma anteninha a mais pra captar coisas. *.* Além de tudo, encontrei nele uma forma de “explicar” pras pessoas porque eu curto tanto as histórias dele (e eu nunca soube dizer direito). O autor pontua algumas coisas de forma bem clara: nas obras do escritor o real e o imaginário se fundem, e mostram um mundo sólido.

Explicando Tolkien foi escrito por Ronald Kyrmse, maior “fanboy” (hahaha) de Tolkien nessas terras tupiniquins, responsável pela revisão nas traduções de vários livros do autor, pela tradução de Contos Inacabados, e pela união de um monte de fãs de Tolkien espalhados pelo país. No livro, ele explica bem resumidamente diversos aspectos da obra do autor inglês, passando por aspectos que a gente nem imaginaria. Comenta desde os mapas, as línguas e os povos até a fauna e a flora criadas para dar mais realismo à história, passando pelas adaptações cinematográficas, as traduções (inclusive comentando coisas muito legais sobre traduções bem ou mal feitas e o que faz com que elas sejam como são), até as críticas positivas e negativas acerca de O Senhor dos Anéis. Faz inclusive uma comparação entre o mapa da Terra Média e da Europa (dá pra comparar até latitude de algumas cidades!) e a cronologia das Eras em suas histórias e o nosso tempo. – Essa parte me fez lembrar de quando li Roverandom, história do autor que se passa no nosso mundo mesmo, no século XX, e o cachorrinho vê de longe uma ilha brilhante que seria o famoso Oeste... :)

E claro, também tem um apanhado de citações legais e frases de efeito (todo mundo adora hahaha), além de uma sugestão de bibliografia pra quem quiser se aprofundar.

Tolkien não teve a ideia repentina de criar histórias que se passavam num mundo aleatório fruto de sua imaginação. Ele criou um mundo que possuía diversas culturas altamente complexas, resultantes dos povos que vivem ali, com influência de acontecimentos, geografia, características físicas e muito mais, muito por interesse em fundamentar melhor as línguas, que ele estudava apaixonado desde criança. E, segundo ele, línguas não existem sem uma cultura/estrutura/estética como base. E por mais que muita gente duvide (principalmente quem não conhece a obra e considera apenas um fenômeno pop), as línguas criadas por ele também não são aleatórias. As duas línguas élficas que aparecem em O Hobbit, O Senhor dos Anéis, e O Silmarillion (só pra começar), chamadas quenya e sindarin, são derivadas do finlandês e do gaélico, respectivamente, tanto em sonoridade quanto em estrutura gramatical (cara, depois de ver os 10 casos do quenya eu to achando alemão ainda mais fácil hahaha).

Mas mais do que criar um fundamento para suas línguas, Tolkien criou uma história que não tem nada de escapista, mas reflete exatamente o mundo em que vivemos, lidando com mitos e arquétipos, descrevendo situações com as quais nos deparamos as vezes, ainda que metaforicamente. Escapismo é o que torna alheio, e não é bem isso que faz O Senhor dos Anéis. Concordo com o autor quando diz que um dos problemas para os que criticam Tolkien é que ele não pode ser comparado a nada, pois não existe na literatura um autor com uma obra com a mesma profundidade e características. Não há um parâmetro. Mas não foi por acaso que ele ganhou a alcunha de ‘autor do século XX’.

Enfim, talvez alguém que não se interesse ache tudo isso muito meh e sem graça, mas eu só me empolguei ainda mais. Pra mim, ninguém ainda foi capaz de chegar perto da complexidade da Terra Média, ao mesmo tempo que conseguindo tocar em pontos tão específicos e ser tão significativo!

Kyrmse fala de uma forma bem resumida sobre tudo o que faz a obra de Tolkien ser mágica, como se tirasse dos livros teóricos mais extensos as informações mais importantes e interessantes, fazendo com que a gente fique ainda mais curioso pra ler mais e mais e mais...

E um último comentário, caso alguém se interesse: tudo isso aí diz respeito aos LIVROS. E os livros de Tolkien nem sempre funcionam como histórias pra serem devoradas em pouco tempo (como eu fiz com Guerra dos Tronos, só pra dar um exemplo que costumam comparar sempre). É complexo, dá trabalho, tem um milhão de nomes que a gente esquece e tem que voltar pra lembrar quem ou onde era e por aí vai. Mas se não fosse assim, não seria tão rico!

  
Nome do livro: Explicando Tolkien
Autor: Ronald Kyrmse
Editora: Martins Fontes
Páginas: 180
Nota no Skoob: 5/5

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