sábado, 26 de dezembro de 2015

Vidas Breves


Uma das coisas que mais acho legal nos Perpétuos, os personagens do Neil Gaiman que aparecem na série Sandman, é que eles mostram perspectivas diferentes pra “coisas” que a gente costuma ver de uma forma definitiva e específica. Por exemplo, sempre curti imensamente a Morte, porque ela é a mais simpática e bem humorada entre eles, e isso quebrava aquele clima de ‘a morte é trágica e terrível’ que 99,9% das histórias que a gente conhece têm.

Os Perpétuos são uma espécie de personificação de aspectos que fazem parte da nossa existência – Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (que já foi Deleite antes). Em Sandman, as histórias giram em torno do Sonho (óbvio, né, o nome da história é Sandman :P). Só que tudo é dividido em arcos, que foram publicados em edições próprias depois que a série acabou.

Esse mês fui a São Paulo ver o show do David Gilmour (como muitas outras pessoas foram; o avião parecia até excursão) e aproveitei pra dar uma voltinha na Livraria Cultura, só pra não perder a tradição. Eu não tinha muito tempo, só um pedacinho da manhã seguinte, logo antes de ir pro aeroporto pra voltar pra casa. Mas o Destino (olha a piadinha) quis que eu tentasse e acabasse encontrando uma edição de Brief Lives em inglês com um descontão (tava “de R$99 por R$30 – ok, eu arredondei pq não lembro os valores exatos, mas vcs entenderam) e não resistisse à compra. Nem o vendedor conteve o espanto e perguntou “como assim esse preço?”

Enfim, eu to numa fase de mudanças na vida em que ler Brief Lives caiu como uma luva. Me fez focar a atenção no personagem Destruição, que eu já achava bem curioso antes. É muito importante lembrar que Destruição aqui não tem a ver só com tragédia, coisas explodindo e se desfazendo, perdas. Não tem a ver com a Morte também. Destruição é o que acontece depois dessas coisas: mudanças. Algo que, como está na história, TODO MUNDO resiste e morre de medo.

A diferença desse arco para os outros de Sandman é que quem guia a história não é mais apenas o Sonho, mas Delírio. É ela que tem a ideia inicial e leva todo mundo na jornada, e isso acaba dando um tom infantil, espontâneo, meio sem sentido e colorido. E acaba que essa abordagem é o que conta, pois foge do que estamos acostumados. Ironicamente, ao final das contas todo mundo sai mudado, menos a própria Delírio (que já é inconstante e não muito estável).

Brief Lives não é uma história muito fácil pra quem nunca ouviu falar de Sandman e os Perpétuos. É um dos últimos arcos, já anunciando o final da revista, e por isso não perde tempo apresentando ninguém, só explicando e revelando novas facetas. As únicas coisas apresentadas são as mudanças.

Acho que foi uma das minhas histórias preferidas de Sandman, talvez porque gosto desse clima colorido e maluco provocado tanto pela presença forte de Delírio quanto pelos desenhos da Jill Thompson. E por tocar no assunto mudanças, que eu acho interessantíssimo.

Uma das coisas que me chamou atenção é que um dos pontos mais importantes da história é perigosíssimo de traduzir pro português. Queria saber como foi feito nas edições brasileiras: Gaiman começa a história admitindo que na Terra existem alguns seres humanos que se lembram dos dinossauros, do cheiro dos mamutes, da transformação dos gases em um planeta, e por aí vai. Até que vemos um deles morrer em um acidente, e pensar “ainda não!” mesmo já tendo vivido 15 mil anos. Quando esse personagem encontra a Morte e diz que não foi nada mal, viveu bastante, ela responde que ele teve o que todo mundo tem, um tempo de vida.

Em inglês, o termo “lifetime”, que pra mim teve uma carga mais interessante do que “tempo de vida”. O que a Morte quis dizer é que não interessa se foram 30, 70 ou 15 mil anos, você teve o seu tempo tanto quanto qualquer outra pessoa. E isso faz com que todo tempo parece breve, independente da duração.


Todas as vidas são breves e sujeitas à destruições inevitáveis. E isso tá longe de ser algo ruim. :)

Nome: Sandman - Brief Lives
Autor: Neil Gaiman
Arte: Jill Thompson e Vince Locke
Capa e design: Dave McKean
Páginas: 168
Editora: Vertigo
Nota no Skoob: 5/5

domingo, 18 de outubro de 2015

A Colina Escarlate


A Colina Escarlate (Crimson Peak)

“Ghosts are real. This much I know.”

Assim começa o filme que me deixou morrendo de saudades da faculdade de Letras! S2
Pelos trailers e outros materiais de divulgação que vi, parece que o filme estava sendo vendido como ‘filme de terror’, o que me deixou com um pé atrás no início.

MAAAASSS:

  • 1       Era Guillermo Del Toro
  •       Tinha o Tom Hiddleston e Jessica Chastain S2 (não é ~só~ puxa-saquismo de fã, é confiança de que atores bons escolhem coisas legais pra fazer)
  •       O visual nos trailers tava INCRÍVEL. É Del Toro, né? (já falei isso, eu sei)


Na sala de cinema, já descobrindo do que a coisa toda se tratava, fui constatando, aprendendo, percebendo e pescando um monte de coisas. Uma delas é que não se trata muito do que o mercado atual chama de “filmes de terror” (ainda bem). Mas é sim uma história fantástica, das bem feitas.

O filme é não só um apanhado de referências, mas uma homenagem enorme aos e contos romances góticos do século XIX. Não só está cheio de citações diretas como usa o cenário ou a fotografia pra fazer alusões a histórias famosas do estilo. Mas não fica só nisso, porque a visão atual está lá, e toda a inocência romântica fica por conta apenas da protagonista – que tem motivos pra ser assim).

Edith (Mia Wasikowska), a donzela, é escritora, e tudo começa quando ela está tentando mostrar seu livro às pessoas e conseguir que ele seja publicado. E é óbvio que quebra as expectativas de todos que esperam que ela escreva romances no estilo de Jane Austen, já que ela na verdade criou outra coisa: não uma história de fantasmas, mas uma história com fantasmas nela. “Os fantasmas são uma metáfora para o passado”, ela diz, e aí está o primeiro adiantamento do que está por vir (mais uma saudadezinha das aulas de literatura hehehe).

O passado é o que rege os irmãos Sharpe (Tom Hiddelston e Jessica Chastain), que surgem na vida de Edith com propósitos “obscuros”. Não é spoiler dizer porque é óbvio que tem coisa errada aí. Aliás, toda a história pode ser deduzida por quem prestar atenção às referências e às pistas que surgem já no início do filme. A casa dos Sharpe, por exemplo, está afundando literal e metaforicamente, e o filme mostra isso não apenas no desespero dos irmãos, como na visão da casa enorme, nobre e afastada da civilização se afundando na lama vermelha (é, que nem a casa já caída do Usher hehehe). 

A história também passeia entre a Inglaterra e a América, deixando a coisa meio dupla, dividida entre o lado bom e o mau: a América é a terra de Edith, é onde pessoas boas trabalharam duro e melhoraram de vida (como seu pai), enquanto a Inglaterra é a terra dos Sharpe, do passado que volta, da casa que afunda, da decadência...

Enfim, não to aqui pra fazer press release nem crítica de nariz empinado, então só digo que tá cheio de referências legais de “pescar” no filme, e nenhuma delas vem solta, o que eu achei super legal. Sério, isso me empolga hahaha. Uma simples menção a Arthur Conan Doyle na verdade é um adiantamento de que alguém vai dar uma de Sherlock Holmes. Um comentário crítico com cara de alfinetada socialite na verdade quase adianta o final do filme (Mary Shelley!), e por aí vai.

E como estamos no século XIX, com muita gente gostando de racionalizar e analisar tudo por aí, tem até Freud na história: o motivo de Edith ser ingênua e cair tão fácil na armadilha (e nós, do público, só não gritamos pra tela um “deixa de ser retardada” porque o filme prende e a gente quer saber onde isso vai dar) tem a ver com ela ter sido privada do pai antes da hora certa. Só quando ela amadurece ela consegue se livrar do problema todo, com a ajuda do mocinho certo.

Isso sem contar na “treta” dos Sharpe, que é bem mundo real mesmo, o que acaba surpreendendo, de certa forma.

E é meio contos de fadas também, que tiveram seu auge justamente no século XIX (quando a maioria foi publicada, revisada, reescrita, reeditada, etc e tal): a mãe de Edith já está morta desde o início do filme (spoiler fail haha), mas continua tendo o papel de protegê-la, mesmo que indiretamente. Quase como a fada madrinha (que era sim uma versão da mãe, né). Só que mais macabra aqui hehehehe

Acho que talvez esse lado conto de fadas aliviou um pouco o peso da história, o lado "horror" de tudo. Edith não segue necessariamente o caminho das donzelas em perigo, mas sim o das protagonistas dos contos: se vê sozinha e ameaçada, enfrenta um monte de desafios terríveis (com a ajuda de seu fiel bichinho companheiro, o "cachorro zumbi" - apelidei assim hahaha), e no fim sai fortalecida, vencendo o mal ameaçador. 

Pois é, dei um spoiler indireto: o final é razoavelmente feliz. Talvez algumas pessoas não gostem, porque esperam algo mais assustador e terrível. Mas eu achei que a mistura de referências, as fontes variadas e as homenagens a diversos estilos literários do século XIX fez tudo ficar ótimo e divertido!

E sim, o Doug Jones continua fazendo todas as criaturas fantásticas de filmes do Del Toro :P

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O sono de Morfeu


Pois é, demorei mas acabei! Não parei de ler, mas a rotina apertada tá deixando tão pouco tempo que fui obrigada a ir bem aos pouquinhos. Além do fato de que este não é um livro pra se ler rápido.

O livro de hoje é, pela primeira vez, de um autor que eu conheço pessoalmente: O Sono de Morfeu, de André Zambaldi!

Na verdade, confesso que demorei um pouco pra "engatar" na leitura. Levou um tempo pra eu conseguir entender o que estava acontecendo, me situar na história. Mas aí vem o alerta, caso você decida ler também: essa confusão é proposital. Ela é o que vive Morfeu, o personagem principal. Todas as palavras rebuscadas, frases complexas, referências a itens culturais diversos e extremamente aleatórios (vai devagar pra conseguir sacar todas!) fazem parte dos delírios vividos por um estudante perdido em um excesso de informações e erudição.

Morfeu é um estudante universitário residente na cidade de Mariana, no interior de Minas (muito tempo que não vou lá, to precisando passear! :P). Ao se ver naquela época fatídica quando se tem que escrever um trabalho final para o curso (a boa e velha monografia), perde o controle de tudo o que vinha "armazenando" em seu HD mental (roubei a expressão da série do Sherlock haha) e começa a ter surtos e delírios. Morfeu estuda demais, pensa demais, absorve demais, teoriza demais... e tudo isso vai se transformando em uma bomba psíquica que ele não consegue mais conter.

Durante a leitura me senti de volta à faculdade - a primeira, a de Letras -, quando estava inserida num contexto parecido, cheio de estudantes ávidos por conhecimento. Só que o conhecimento que eles queriam era o teórico, o exato, as regras, os dados (é, mesmo em uma área tão subjetiva como a Literatura). Para se ter o efeito X, deve-se passar por Y, Z, etc e tal. Essas pessoas me irritavam hahaha Era um monte de egos se esforçando pra chamar a atenção usando a razão.

Morfeu, na história, faz citações das mais diversas e cultas, fala latim e línguas nórdicas, mistura referências de livros canônicos, mitos, literatura, cinema clássico, etc e tal.

E isso me levou ao meu semestre curtinho de aula de psicologia, que tive quando fiz Licenciatura. Um pouco de Freud, um pouquinho-inho (bem inho) de Nietzsche e aquela história de a humanidade se reprimir em nome da "iluminação". Não sei nada da área, me corrijam se eu falar besteira, mas eu fui associando algumas coisas automaticamente. Basicamente: o que é que se faz com tanto conhecimento, tanta exatidão, tantos dados, tanta razão, tanta necessidade de se provar erudito? Morfeu teve tudo o que teve por necessidade de se provar "O CARA" em sua monografia - mas, ironicamente, sem conseguir escrever NADA na prática.

Excesso de razão (ou erudição) acaba reprimindo os impulsos, o lado mais sem explicação, o irracional. O que acontece na história é que Morfeu começa a ter delírios e ilusões com figuras do universo pop (irônico hahaha), misturando Charlton Heston com Luthien Tinúviel, samurais, deuses nórdicos, Cachinhos Dourados, vampiros, arcanjos iluminados, Excalibur, e um monte de outras coisas que eu não consegui pegar nessa primeira leitura mas tenho certeza que estão lá.

A maior falta que senti é nunca ter lido Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, que não só é citado várias vezes como desconfio que deu muito mais base pra história. Um dia eu corrijo isso :P

Enfim, falando em termos gerais, não acho que esse é um livro pro público "povão" em geral (não no sentido de subestimar as pessoas ou o livro, falo no sentido de gosto mesmo). É um pouco difícil, talvez pesado, dependendo da pessoa. É um daqueles livros super legais de ler, mas que pode perder um pouco disso se você não sacar muitas referências (no mínimo vai dar uma pesquisada sobre Tolkien, Jedis, vampiros, panteão nórdico e filmes do Kurosawa), ou não tiver muita paciência pra escrita não tão mastigada. Um livro do tipo que pelo menos EU não tenho visto muito por aí, e que tem como ponto forte algo que eu sempre "cobro" por aqui: escrita bem feita, palavras bem colocadas.

Mas ainda acho que vou ler de novo daqui um tempo, pra ver se pego mais coisas! :D

Nome: O sono de Morfeu
Autor: Andre Zambaldi
Páginas: 174
Nota no Skoob: 4/5

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A Música do Silêncio


“Fulcro havia quebrado. Mas isso não era errado. Ovos são quebrados. Quebra-se a ferocidade dos cavalos selvagens para domá-los. Ondas quebram. É claro que Fulcro havia quebrado. De que outro modo alguém tão certo-centrado poderia soltar suas respostas perfeitas no mundo? Algumas coisas eram simplesmente corretas demais para se manter.”

Já no prefácio o autor alerta que talvez esse livro não seja para nós, nos preparando para uma possível decepção com a leitura. No final, ao contar sobre as circunstâncias em que ele foi publicado, ele pede desculpas se por acaso o livro não agradou.

De fato, esse livro não é para qualquer um, não apenas por ser derivado de uma série de livros (é um livro sobre Auri, personagem de O Nome do Vento), dificultando a leitura se você não é familiarizado com os personagens e o universo já criado. Essa história não é para qualquer pessoa porque não é uma história nos moldes tradicionais, com elementos pensados para entreter e prender, cenas de ação, romance e afins.

A Música do Silêncio é sobre uma pessoa quebrada, que sabe que não tem tudo certinho lá dentro, e que por isso se dedica a permanecer pequena e imperceptível pelo mundo.

Auri, a protagonista e única personagem humana, é alguém que, ao lidar com questões misteriosas, acabou descobrindo um segredo: a verdade contida no coração de todas as coisas no mundo. Ao estudar alquimia, algo que se dedica a alterar coisas e dobrar o mundo à sua vontade, ela acabou se deparando com o peso disso.

Auri percebeu que é errado, muito errado querer impor sua vontade ao mundo, e as consequências que isso trás. E, como repete a história inteira, vale a pena fazer as coisas direito, ainda que não seja como a gente deseja. Tentar impor, mandar e alterar desencadeia uma sequência de coisas que podem ser desastrosas. Cada coisa tem seu lugar, e é preciso saber ver isso.

Na nota final do autor, ao pedir desculpas pela história nada convencional e provavelmente decepcionante, Patrick Rothfuss fala sobre os comentários que ouviu de pessoas que leram a história. A maioria delas o surpreendeu dizendo que não só tinha gostado, como se identificado com Auri. Eram pessoas que entenderam os motivos para Auri se isolar e se esforçar para ser pequena e invisível, que se identificaram com o isolamento e a sensação de ser diferente.

Não é um livro muito fácil nem leve, realmente. Mas eu gostei de ver uma história dando atenção ao que se passa no interior das pessoas, às questões que muitas vezes fazem com que elas não se encaixem mais. É como se o autor estivesse desviando a tal jornada do herói daquele caminho convencional de vencer monstros e sair vencedor. Alguns personagens (como algumas pessoas) têm caminhos diferentes. Um ponto de vista interessante e que destoa no meio de tantas outras histórias de fantasias – que é o contexto em que Auri vive, mesmo que a gente esqueça disso às vezes.


Eu recomendo a leitura do livro sim, claro! Não sei como ela poderia ser aproveitada sem a leitura de O Nome do Vento e O Temor do Sábio antes, mas imagino que não seja tão difícil. Os próprios nomes das coisas e dos lugares são nomes que Auri deu de acordo com a “clima” ou a “energia” deles, então não acho que tenha alguma confusão além da que faz parte da cabeça dela. E isso é o que dá graça pra história!

P.S.: O nome original do livro é The Slow Regard of Silent Things, que eu achei bem mais poético do que a versão em português (coisa normal de acontecer, já que línguas diferentes tem sonoridades diferentes, né). Mas enfim, li em português porque comprei o livro por impulso, depois de ver a capa bonita na livraria hehehe (as edições brasileiras estão com capas lindas, às vezes melhores que as edições estrangeiras, porque investiram em ilustrações de Marc Simonetti, o mesmo cara que fez as capas brasileiras dos livros de George Martin) 

Nome: A Música do Silêncio
Autor: Patrick Rothfuss
Páginas: 144
Editora: Arqueiro
Nota no Skoob: 5/5

domingo, 9 de agosto de 2015

O Temor do Sábio


Estou órfã. :S

Não, não se preocupem! Estou órfã de livros... Esse é o termo que a gente usa quando termina uma leitura e se vê expulsa daquele outro mundo fantástico onde passou muito tempo imersa. Quando sabemos que não vamos mais ter a companhia de um (ou vários) personagem maravilhoso com a qual a gente se identificou/ se apaixonou/ virou fã.

Já fiquei órfã de livros muitas, mas muuuuuitas outras vezes. Mas fazia tempo que não sentia tanto o término de uma leitura.

Desculpa o texto enoooorme, mas o blog é meu e eu escrevo o quanto eu quiser quando me empolgar com algum livro! :P  (Lembro também que to escrevendo nomes e títulos em português aqui, mas li versão epub em inglês - mesmo tendo comprado livro físico da edição brasileira)

O Temor do Sábio é o segundo livro da série Crônicas do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss, mais conhecido como “a sequência de O Nome do Vento”. Sem sombra de dúvidas, afirmo e reafirmo que achei esse segundo volume ainda melhor que o primeiro (que já é muito bom). Talvez porque já esteja num ponto em que não só o protagonista – e outros personagens – já foi apresentado, já deixando caminho livre pra gente se identificar, escolher lados, e por aí vai. Talvez porque agora sim vemos a vida de Kvothe “fluir”, acompanhamos os processos que fazem a versão jovem dele ser mais parecida com a versão mais velha, que é quem narra toda a história.

Pois é, a estrutura continua a mesma: Kote, versão disfarçada de estalajadeiro do grande e famosíssimo e encrenqueiro herói – ou anti-herói, depende do capítulo – Kvothe (também conhecido por um monte de outros nomes), conta sobre sua vida para o Cronista, que está registrando tudo para publicação, e para Bast, seu aprendiz. Nesse segundo volume temos mais informações, mais habilidades sendo aprendidas, mais acontecimentos definidores de caráter. Temos Kvothe aprendendo a lutar com o povo de Adem, que eu achei fantástico, temos sua “iniciação no mundo das mulheres”, temos sua crescente facilidade em chamar o nome do vento, e um monte de coisas mais.

Temos também mais um monte da “enrolação” com a sua amada Denna, que às vezes me deixa sem paciência, mas depois ameniza, quando o autor faz a gente ver que existe uma razão pra duas pessoas com uma história de vida difícil e meio quebrada não se transformarem num casalzinho clichê de Hollywood, mas terem muita dificuldade pra assumirem o que sentem. Denna, inclusive, deve ser um desafio pra homens machistas que venham a ler o livro...

Devo ressaltar, de novo, e sempre:

Kvothe, como ele mesmo sempre faz questão de repetir, veio dos Edema Ruh, que não são simplesmente uma trupe, mas A TRUPE, o grupo de verdadeiros artistas fantásticos e talentosos, cujas habilidades são difíceis de superar. Além disso, já nasceu meio geniozinho, tendo uma memória fabulosa e uma facilidade absurda pra aprender, o que faz dele um exímio ator, músico e contador de histórias (e outras coisinhas).

Ou seja: um mentiroso profissional e um aparecido de marca maior. Desde o início do primeiro livro ele próprio nos alerta que ajudou sua fama a crescer, acrescentando um boatozinho aqui, um elemento mágico ali. Desconfie de tudo!

Junte-se a isso sua habilidade para atrair encrencas e seu temperamento impulsivo e estourado, já apresentado na forma da sua aparência: cabelo vermelho rebelde como fogo e olhos verdes vivos que mudam de tom de acordo com seu humor. 

A parte mais legal está justamente aí: para mostrar o quanto Kvothe (cuja pronúncia é como em “quote”, termo em inglês para citação – sacou? Hein? Hein?) é bom nisso, o autor usa todas as artimanhas possíveis pra contar a história, seja na forma como as coisas acontecem, seja na escrita e na estrutura do texto em si. Patrick Rothfuss consegue provocar no leitor o mesmo efeito que Kvothe provoca em quem o escuta cantar e tocar: quase um torpor, uma hipnose, uma imersão tão grande que quando a gente é acordado dela, parece que o mundo perdeu um pouco da graça.

Aliás, se você for músico, leia o livro. Acho que nunca um escritor de ficção entendeu tanto a nossa vida hahaha Kvothe se mostra apreensivo pra aprender a lutar por medo de machucar os dedos e não poder mais tocar, se preocupa com ínfimos detalhes de interpretação, execução, tem taquicardia em pensar em qualquer coisa acontecendo com o alaúde, usa a voz forte de barítono pra conseguir certos "efeitos" nas pessoas. E vem da classe mais baixa e ralé da sociedade, tendo que lidar com pessoas que não dão a mínima e ainda desvalorizam seu talento... Mas continua com seu orgulho e fazendo questão de um mínimo de qualidade em sua música (e o mínimo dele é muito alto, viu). 

Há momentos em que a gente se vê mergulhado numa melancolia absurda. Kvothe ainda carrega enterrado dentro de si a perda abrupta e ainda não explicada da família inteira, seguida de três anos completamente sozinho mendigando em uma cidade grande, fedorenta e extremamente cruel. Pois é, não existe cartinha mágica de Hogwarts. Aqui, o menino órfão de enorme potencial precisa primeiro ser retirado do torpor e conseguir lutar e correr atrás da sua tão sonhada vaga na Universidade. E não tem conta bancária rechonchuda: ele tem que trabalhar e fazer por merecer, e passar muito aperto pra se manter investindo no sonho e nos planos futuros. Mas é assim que ele acaba vivendo as maiores aventuras, tanto as tensas quanto as empolgantes, e aprendendo um monte de coisas, além de ganhar habilidades (como a facilidade de andar em telhados e se esgueirar, vinda dos dias de menino de rua).

Há outros – vários – momentos em que ficamos bravos, enfurecidos ou impulsivos como ele. Quando ficamos alegres nos poucos momentos em que ele está assim. E por aí vai.

Me senti quase uma estudante de kung fu durante a estadia dele entre os Ademre, onde aprendeu a lutar (pra mim o estilo de luta deles, filosofia inclusa, me lembrou Kung Fu - só que em versão nórdica haha -, mas não sei outros leitores). Um pouquinho. Como um bebê. Mas melhor que os bárbaros (as pessoas comuns). Sério gente, o povo de Adem foi uma das melhores sacadas, com toda uma abordagem diferente da que a gente está acostumada nessa sociedade: com os costumes mais pacíficos, liberais, práticos e bem mais sábios, uma visão completamente diferente e superior das mulheres e uma filosofia fantástica de vida, o resto do mundo é visto por eles como bárbaros.

Eu sei que o texto já tá enorme, mas preciso comentar aqui que nunca vi uma cena de sexo tão poética, fantástica e mágica quanto nesse livro. Não só é lindo de ler, como é genial: você não esperava que um herói tão inacreditável como Kvothe fosse “se iniciar” nesse quesito com menos do que A lenda do povo das fadas, Felurian, criatura mágica sedutora, irresistível, terrível, responsável pela morte e desaparecimento de milhares de homens ao longo da história, assunto de canções e histórias, motivo de medo em toda a humanidade, né? Muito menos que ele seria mais um desses homens que se perdem para sempre depois de ser enfeitiçados por uma criatura mágica. Dá vontade de rir e bater palmas pro autor! 

Concluindo: virei super mega fã da série, mesmo que ainda incompleta; me identifiquei com Kvothe ao ponto de ter alterações de humor baseadas nas “tretas” em que ele vivia (o que foi aquele momento em que, drogado por um inimigo, ele revive sem querer cenas do passado com a família e consegue chorar um pouco depois de anos, e é consolado pela Auri? #chorei); to aflita com uns momentos em que o autor já entrega um pouco do final da história, e por aí vai.

Pelo menos tem o livro spin off da Auri pra me consolar mais um poquinho...

(Antes das piadinhas: não, não me identifiquei com o Kvothe por causa do cabelo "hehehe". Teve muito mais a ver com o temperamento mesmo :P )

Quero dizer também que as capas das edições britânicas são muito legais, mas a editora Arqueiro caprichou nas versões brasileiras, viu? Curti!

Nome: The Wise Man's Fear
Autor: Patrick Rothfuss
Páginas: 1107 (no epub)
Editora: Arqueiro (no Brasil)
Nota no Skoob: 5/5

domingo, 26 de julho de 2015

O Enigma da Lua - A Centésima Vida


Há um tempo atrás – quanto tempo exatamente eu não lembro O.o – alguns autores liberaram download gratuito de algumas obras no Kindle. Eu cheguei a baixar alguns vários pra aproveitar, e deixei no aplicativo, meio que ‘em espera’. Confesso, até agora só li dois livros que estão lá, mas por um problema específico: eu não tenho Kindle (leio epubs no Kobo, que é outra marca), então as coisas que eu baixar em formato digital da Amazon eu só consigo ler por meio do aplicativo para Android. E bom, não me dei muito bem com a experiência de ler no celular, é muito pequeno :S

Claro que se você tem o Kindle aparelho, ou algum tablet com o aplicativo já melhora, né? Mas pra mim era o celular ou o celular. Enfim, vamos ao assunto livro:

Um desses livros era O Enigma da Lua – A Centésima Vida, da Liége Báccaro Toledo, que já estava na minha lista de leitura faz tempo, desde o início da minha “empreitada” em conhecer autores nacionais (acho que comecei com isso em 2013, sei lá). Foi uma das primeiras histórias que ouvi falar entre autores nacionais de fantasia que era razoavelmente “grandinha” e tal, o que me interessou.

Por causa do problema do celular (eu tenho um Moto G, cuja tela não é tão pequena assim, mas é menor que tablets e leitores digitais, né), eu demorei um pouco pra engatar a leitura. Lia em momentos de espera curtinha, bem espaçado. Talvez por causa disso, a história também levou um tempo pra me fisgar. No inicinho, tive a sensação de que tava um pouco “bobinho”, pois toda vez que eu pegava no celular eu me deparava com algum conflito dos personagens adolescentes, e aí parecia uma coisa interminável.

Mas aí eu entrei de férias e falei “vamo levar esse negócio a sério”. Comecei a ler direito e peguei melhor a história, que foi melhorando ao longo do livro. Quando a gente começa a entender o que realmente está se passando ali, tudo se encaixa e aí a gente fica preso, já era. Que bom que eu também baixei o livro sequência no tal dia liberado hahahaha

O Enigma da Lua é centrado na vida de Elora e Laucian, que já nasceram com uma missão bem específica, cujo cumprimento será decisivo não só para o destino deles, mas do mundo em que vivem. Eles vão contar com a ajuda de dois amigos, Valenia e Myron – irmão de Elora – , além da clériga Driali, que esconde ser bem mais do que aparenta.

Gente, vai parecer bobo pra alguns, mas pra mim é uma comparação divertida e nostálgica: me senti lendo Sailor Moon. Hahahaha Esclareço: eu AMAVA o anime da Sailor Moon, que assistia na extinta Manchete, e acho que é uma das primeiras coisas de fantasia que eu lembro de ter gostado (claro que teve mais antes, tipo mil filmes da Disney, mas foi o primeiro que eu realmente “registrei” na memória).

E tem toda a coisa de encarnações, do casal que só se unirá pra cumprir a missão, dos amigos em torno que vão ajudar e... da LUA. Muito mágico! :D

Esse contexto foi, inclusive, o ponto alto do livro. A mitologia da história, o mundo criado pela autora e tudo nesse sentido ficou muito bem estruturado, bem amarrado. E razoavelmente fácil de entender, sem aquele problema de ter que voltar no início pra lembrar quem é o Fulano, nem necessidade de mapinhas (gente, mapinha é legal, mas tá ficando clichê. Deixem isso pro Tolkien e pro Martin e usem mais descrições que a gente entende onde fica o quê – se é que isso é importante).

Senti que as maiores influências pra história foram jogos de RPG e um pouco da “mitologia” em torno da religião Wicca. Os personagens são divididos em raças e “funções” (desculpa galera do RPG, não sei que termo se usa pra isso), como clérigo, ranger, ladino, bardo, etc. As raças, como já deu pra adivinhar, são as tradicionais: elfos, humanos, meio-elfos, orcs, anões...

O que ficou legal é que, mesmo os personagens principais sendo elfos, a história não tem pretensão nenhuma de impor “os elfos são os melhores”. Além de existir uma interação razoável com seres humanos e outros povos, o foco aqui é claramente o aspecto “religioso” (seria esse o termo?): o conflito está centrado em assuntos ligados aos deuses, ao culto à Lua, e as personagens que mais se destacam nisso são justamente Driali e Elora, mais ligadas a isso. Uma é uma clériga poderosa, que carrega segredos que podem ter um papel importantíssimo na história, outra é sua filha, que nasceu com a marca da Lua, destinada a um feito que já profetizado para salvar seu mundo.

A Centésima Vida é o primeiro volume da série O Enigma da Lua, e é focado na apresentação dos personagens e na formação dos quatro jovens que terão mais destaque. Aqui eles são adolescentes se formando e começando a aprender sobre o mundo em que vivem. (olha eu lembrando da primeira temporada de Sailor Moon uhuuu) O que quer dizer que a gente acaba a leitura com a sensação de que tem muita coisa pra rolar ainda, e que tem muito potencial.

Como ponto não tão alto assim, ou algo pra ser considerado, eu diria que a relação entre linguagem e público-alvo me deixou um pouquinho confusa. Não sei a quem se dirige a história, mas comecei achando a escrita muito simples, muito limpa. Não que isso seja ruim, mas eu, pessoalmente, senti falta de um pouco mais de “estilo”, rebuscamento, sei lá como chamar. Algo como brincar mais com as palavras e ser menos direto pra entregar os fatos, sabe?

Só que esse argumento se desfaz se o público-alvo realmente for o pessoal mais novo, porque aí a história funciona mais exatamente se não tiver essas "firulas". Talvez só aumentar um pouquinho-inho mais da complexidade dos conflitos dos adolescentes no início do livro, como mostrar um pouco mais cedo que Valenia não é só a adolescente metida do grupo, mas que tem muita coisa por trás.

Outra coisa eu sei que é uma dificuldade bem comum de autores independentes, que não tem editoras enormes e poderosíssimas pra garantir alguns detalhes: uma outra revisada, só pra corrigir um errinho de digitação aqui, uma concordanciazinha ali. Mas foram pouquíssimas coisas do tipo, e talvez seja só do ebook, não sei. Não atrapalharam a leitura em nada. E eu trabalho como revisora também, então presto atenção até demais nessas coisas. 

Também não curti muito a distribuição das ilustrações, me pareceram meio soltas na história. Acho que funcionam melhor como material extra, achei que as vezes elas interrompiam minha imaginação hahaha. E quebraram um pouco a minha expectativa, porque eu imaginava os personagens de um jeito, aí elas mostravam de outro... Questão de gosto.

Enfim, isso é muito mais sugestão, que não chega a atrapalhar a leitura. Recomendo o livro pra todo mundo que estiver afim de dar uma escapada pra um outro mundo, onde as coisas parece mais bonitas, mais mágicas, um pouquINHO cor de rosas.. hehehe Pra minha leitura, vou intercalar: a série O Enigma da Lua fez a imensa sacanagem de ser igualzinha à série Crônicas do Matador do Rei: tem dois livros já publicados, alguns contos extra sobre personagens específicos, mas o terceiro livro ainda está "a caminho". Só me resta ler um de cada pra ver se dura mais, né? hahaha

Nome: O Enigma da Lua - A Centésima Vida
Autora: Liége Báccaro Toledo
Páginas: 352
Nota no Skoob: 4/5

domingo, 19 de julho de 2015

A verdade é uma caverna nas montanhas negras


Momento “autor preferido” no blog! *sirenes*

Eu tenho um hábito. Ele consiste em entrar em livrarias olhando um livro ou outro, mas procurando disfarçadamente por qualquer coisa onde esteja escrito “Neil Gaiman”. Algumas vezes isso resulta em voltar pra casa com um livro. Sempre prefiro ler as coisas do autor em inglês - pra aproveitar melhor o estilo de escrita dele -, mas às vezes acho alguma coisa nova traduzida por aí e dou uma chance. Antigamente isso era quase impossível, mas acho que as editoras descobriram o cara e agora tem sempre algo novo. Acho isso interessante, porque nessa “guerrinha de editoras” acaba que os livros nunca são padronizados, dá sempre pra se surpreender com uma capa bonita alternativa e por aí vai.

Bom, da última vez eu voltei pra casa com a versão em livro de “A Verdade é uma caverna nas montanhas negras”, conto originalmente publicado em uma antologia, agora editado com ilustrações de Eddie Campbell, muito conhecido pela parceria com Alan Moore.

Tava com saudade de ler Neil Gaiman. :P

Logo no início vemos o aviso de que a história foi inspirada em uma frase de um livro escrito por Otta F. Swire. Óbvio que a tal frase é a que dá o nome ao conto. Talvez eu esteja um pouco “enferrujada” com o estilo do autor, mas ler isso me fez pensar em algum drama familiar ou de relacionamentos com um clima bem realista. Mas eu também já tinha lido a chamada, que dizia que a história se tratava de um pai procurando a verdade sobre o desaparecimento da filha, e isso pode ter me influenciado.

Mas Gaiman é Gaiman, e de repente surgem tesouros amaldiçoados, lendas nórdicas, criaturas que a gente suspeita não serem desse mundo. Claro, ainda com o tal “drama familiar”.

Sei que, no caminho para a verdade (essa expressão pode ter vários sentidos, hein), a gente sempre acaba descobrindo trilhas e aspectos surpreendentes e imprevisíveis. O final pode não ser nada do que a gente espera, mas não deixa de ser importante. Nem de ser um final propriamente dito. Lendo a história, a gente percebe que a verdade é sim uma caverna nas montanhas negras e, uma vez que você se dirige a ela, não importa qual rumo toma, todos os caminhos levam pra lá.

O livro, por ser um conto, é bem curto, dá pra ler numa sentada (como eu fiz). Mas também vale diminuir o ritmo um pouco pra curtir as ilustrações de Campbell, que reforçam a atmosfera quase sobrenatural. Um excelente exemplar da tal “fantasia para adultos”!

Nome: A verdade é uma caverna nas montanhas negras
Autores: Neil Gaiman e Eddie Campbell
Páginas: 80
Editora: Intrínseca

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Nome do Vento


Já faz um bom tempo que eu ouvia (ou melhor, lia no facebook) “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento” me perseguindo toda vez que eu falava de algum outro livro. Pois é, colega, você me convenceu.

Eu li O Nome do Vento.

E agora estou revoltada porque, se já não bastava o George Martin, agora tenho que ficar esperando outra série que não tem todos os livros publicados, só rumores de “dizem que sai em 2016”. :S
Mas tudo bem, eu ainda tenho o segundo livro da série pra ler enquanto espero o terceiro, ainda não existente...

Então, vamos aos comentários:

O Nome do Vento é o primeiro livro da série A Crônica do Matador do Rei. A série por enquanto só tem dois livros publicados, além de alguns contos baseados em personagens específicos.

O que eu posso dizer?

Posso começar falando que há muito tempo eu queria ler alguma coisa assim. Não é só uma história de fantasia, é uma história de fantasia bem estruturada, com um monte de coisas (bem) emaranhadas , que brinca com as nossas crenças e folclore, que usa as bases da nossa civilização (é, a do mundo real) pra criar um outro mundo. Tá, o que esse “outro mundo” tem de diferente do mundo de outros livros? Sinceramente, não sei te explicar direito. Leia e você vai saber do que eu to falando. É como se, ao invés de criar seres novos, mágicas nunca citadas em outras histórias, o autor tivesse pego tudo que a gente já tá cansado de ouvir por aí e inserido no mundo dos livros dele. Em alguns trechos, tive a sensação de estar lendo uma mistura de Shakespeare com Neil Gaiman (ou seja, Sandman - Sonho de uma Noite de Verão hahaha)

Mais fácil explicar enquanto falo da história (já adianto que eu li em inglês, então alguns termos eu não sei como foram traduzidos):

Só li um dos livros (por enquanto), mas já ficou claro que existem dois arcos. O primeiro é o de Kvothe, dono de uma estalagem em uma cidadezinha, contando sua história para Chronicler, que pretende descobrir a versão verdadeira sobre inúmeros rumores, fofocas e lendas sobre ele - tudo em meio a ataques de "demônios" (ou seres que a gente não entende e chama de demônios pra se sentir melhor). Aqui, tudo é contado em terceira pessoa, com o foco mudando para cada personagem que aparece – Kvothe mantém uma estalagem, ou seja, sempre tem um vai e vem de pessoas. O segundo arco é o da história contada pelo próprio Kvothe, falando sobre acontecimentos da sua infância, juventude e o que mais o levou a ser quem é. Aqui já é tudo em primeira pessoa, mas o legal é que ele interrompe o tempo todo pra contar outras histórias que ele ouviu por aí (ou seja, quase que vira terceira pessoa de novo).

Histórias são a base da série, já que Kvothe vêm dos Edema Ruh (sacaram, fãs de Nightwish?), uma espécie de “trupe” de artistas que viaja de cidade em cidade se apresentando e oferecendo entretenimento. Desde o começo já somos avisados que ele é um excelente ator e contador de histórias.

E aí está a parte genial. Como ele mesmo diz, as melhores lendas e fofocas sobre ele são as que ele mesmo inventou.

“You may have heard of me.”

A forma como as histórias dentro das histórias são entrelaçadas é genial. E é como se a gente estivesse lendo vários livros, um dentro do outro, mas interrompendo um pra ler um outro diferente, e por aí vai. Parece confuso, mas não é na prática.

Eu não consegui evitar fazer alguma comparação com outros livros, apesar de achar que a comparação por si só seria uma descrição pobre. Mas acho que serve pra exemplificar: o primeiro arco, com o Kvothe mais velho na estalagem (e que também tem mistérios que estão só começando) tem um tom mais sério, mas ainda assim fantástico, quase como A Guerra dos Tronos.  O segundo, com o jovem Kvothe pequeno com os Edema Ruh, depois mendigo nas ruas de Tarbean e, mais tarde, aluno precoce da Universidade, me lembrou uma mistura de Harry Potter com histórias de Mark Twain. Só que tudo contado de um jeito mais sério, mais “adulto”.

Essas comparações poderiam, inclusive, ser vistas como uma quase alfinetada do autor, ou uma releitura com correções. É óbvio que a Universidade lembra Hogwarts, só que com uma estrutura diferente (e enquanto Kvothe é precoce e está lá com 15 anos, a gente tem que lembrar que o restante dos alunos é mais velho, com idade pra ser universitários). Seus momentos nas ruas, antes de ir pra lá, são muito tensos, bem realistas, bem a cara de livros do século XIX sobre injustiça social. Harry Potter teve uma infância boa e não sabia :P

Sobre o mundo em que Kvothe vive: como eu falei lá em cima, ele é baseado no nosso mundo real e nas nossas próprias lendas. Existem contos e histórias sobre o povo das fadas, que é razoavelmente mal visto por uma sociedade presa em preceitos religiosos (eles creem em Tehlu). A Universidade é relativamente mal vista, pois ensina pessoas a mexerem com artes das trevas melhor deixadas quietas (não sei como isso foi traduzido, mas eu ria toda vez que Kvothe ironizava a “dark magic better left alone”).

As próprias “mágicas” ensinadas na Universidade são extremamente científicas, se a gente comparar com outros livros de fantasia. Tudo é explicado como processos tão naturais quanto gravidade, magnetismo e afins, só que com um pouco mais de imaginação e um ponto de vista baseado em um mundo que não viveu Iluminismo e afins. Mas com um pouco menos de ceticismo e com muito mais possibilidades. Por exemplo: runas até conseguem unir dois tijolos, mas é uma coisa tão trabalhosa e complexa que é melhor usar cimento mesmo.

Claro que tem também a “mágica de verdade”, aquela que ninguém podia explicar, porque apenas é. Como chamar o nome do vento. E isso é sempre parte dos trechos mais misteriosos e cheios de suspense do livro, porque são assuntos que ninguém (nem eles nem a gente) entende.

Enfim, acho que nada do que eu falar vai fazer justiça ao quanto eu achei esse livro bom, com qualidade, extremamente bem feito, e com os temas exatos pra me prender. Além de ser um livro onde a base principal são as histórias (pronto, me ganhou). Tem personagens interessantes (o Bast é hilário), tem humor, tem uma estrutura que reage aos acontecimentos (um dos capítulos do jovem Kvothe é subitamente interrompido, e só depois a gente descobre que não foi nada demais: chegaram pessoas na estalagem e o Kvothe mais velho teve que parar de contar sua história).

Só o que eu posso fazer é dizer “LEIAM O NOME DO VENTO”. E colocar algumas poucas das muitas frases que eu destaquei porque adorei (vantagem de ler ebook em leitor é poder grifar sem estragar livro hahaha)

“There’s no good story that doesn’t touch the truth” (Não há boa história que não toque a verdade)

“Fear tends to come from ignorance” (Medo costuma vir da ignorância)

“That’s why stories appeal to us. They give us the clarity and simplicity our real lives lack.” (É por isso que histórias nos atraem. Elas nos dão a claridade a simplicidade que as nossas vidas não têm)

“It’s like everyone tells a story about themselves inside their own head. Always. All the time. That story makes you what you are. We build ourselves out of that story.” (É como se todo mundo contasse uma história pra si mesmo dentro da própria cabeça. Sempre. O tempo todo. Essa história te faz ser quem é. Nós nos construímos a partir dessa história)

E a melhor, porque Kvothe também é músico: "Music sounds different to the one who plays it. It is the musician's curse". (Música soa diferente pra quem toca. É a maldição do músico.)

Nome: The Name of the Wind - The King Killer Chronicle: Day One
Autor: Patrick Rothfus
Páginas: 764 (epub)
Nota no Skoob: 5/5

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Navio Dragão

Foto do meu instagram com as recompensas que eu recebi!


Ontem chegou aqui em casa dois livrinhos muuuuito legais: Navio Dragão e Carne, os dois resultantes de um projeto da Rebeca Prado no Catarse (uma plataforma de crowdfunding, esse negócio que muita gente anda discutindo por aí).

Receber o envelope de um jeito meio inesperado (porque eu esqueci que isso ia chegar hahaha) me fez pensar em algumas coisas.

A primeira é que eu adoro ficar caçando projeto pra apoiar no Catarse. Não sei se é só impressão, mas sempre acho que as coisas relacionadas à quadrinhos, livros, artes em geral estão mais concentradas lá.

A segunda é que cada projeto que eu vejo dando certo me empolga bastante, mesmo que eu nem conheço as pessoas envolvidas. Sabe, vou contar um “segredo” (não tão segredo assim haha) pra vocês: eu adoro essa área de criação e sempre tive vontade de entrar no meio dela. Sempre quis ser escritora, só pra poder tirar ideias que só ficam na minha cabeça e falar que fiz algo com elas. Só que como eu também tenho outras vontades e planos, esse lado fica um pouco abandonado ou guardado, e eu vou investindo nas “coisas de gente grande”.

Eu criei esse blog só pra poder fazer comentários sobre coisas que eu leio e nem sempre acho alguém pra comentar (não é fácil achar quem leu o mesmo livro que você como é fácil achar quem tenha visto o mesmo filme, né). Só que meu gosto sempre tende pra histórias de fantasia, ficção científica e coisas que exercitam bastante a imaginação das pessoas. E que, cada vez mais, eu vejo que são tidas pelas pessoas por aí como “coisa de criança”. Não existe um fã de quadrinhos ou literatura fantástica – só pra dar exemplo – que não tenha ouvido alguma pergunta ou comentário parecido com “que dia você vai crescer?”

Isso tudo me faz pensar que as vezes as pessoas boicotam a criatividade, a imaginação. O que pra mim é tristíssimo. Uma parte de mim ainda não desistiu de um dia botar minhas ideias de historinhas pra fora da minha cabeça e dividir com o mundo. Vai levar um tempinho só porque eu sou uma pessoa só e por enquanto to focando em treinar pra dividir outras coisas artísticas (eu sou cantora. Uma área artística só é pouco hehehe). A outra parte de mim resolveu que até lá vai apoiar e incentivar e dar a maior força possível pra quem já tá tentando dividir histórias. EU AMO HISTÓRIAS. Pra mim elas são a base de tudo.

E é por isso que eu me empolgo tanto com a seção de Quadrinhos do Catarse :P (Também fico imensamente feliz de ver que boa parte das coisas que eu pego por lá vem de BH, olha que lindeza!). Também é por isso que ano passado comecei uma jornada em busca de histórias de fantasia escritas por brasileiros. Por mais que umas não tenham me feito cair de amores, achei muito legal ver isso acontecendo, gente insistindo mesmo com dificuldades. Também é uma forma de ver diversidade, de ver um estilo que não é muito estabelecido no Brasil (pode não ser todo mundo, mas aposto que muita gente preferia ter lido uma Alice no País das Maravilhas ou um Harry Potter do que José de Alencar na quinta série) começar a ganhar espaço.

Resumindo: acompanhar e tentar apoiar como der esses projetos me ajuda a manter um pezinho firme no mundo das “coisas de criança”. Não quero nunca tirar ele de lá. :P

A terceira coisa que eu pensei é o quanto a Lif (personagem principal das tirinhas do Navio Dragão) acabou me ensinando sem querer. To tentando medir as palavras pra não parecer que to simplesmente puxando saco, mas rolou de verdade uma identificação e um aprendizado. 

A Lif é uma viking que fala o que vêm à cabeça, só que na maioria das vezes o que tem na cabeça dela não é algo que as pessoas considerariam agradável. Ela não se encaixa no protocolo, como disse a Júnia Prado no Prólogo do livro. Soa grossa, não sabe usar aquelas regrinhas básicas de convivência na sociedade, ser vista como gentil e simpática, como “toda mocinha deveria ser”. Me fez lembrar uma época em que muita gente me “apelidou carinhosamente” de hostil, porque na minha timidez e jeito travado, mantinha meio que sem querer/perceber a cara fechada, ou fazia algum comentário meio sem filtro (pois é hahaha). Nunca curti, sempre vi isso como algo que eu precisava corrigir, e acabei corrigindo bastante de uns anos pra cá, de fato. 

Mas o que a Lif me fez ver é que muito do que as pessoas fazem a gente achar que é um problema ou uma fraqueza pode ser, na verdade, a sua força, a sua marca. Achei fantástico o que a autora, a Rebeca Prado, conseguiu pegando uma série de características que (eu to chutando, hein! Não conheço a moça hahaha) provavelmente ela também tem que lidar, transformando dificuldades em uma obra super divertida, bonita (gente, eu adoro desenho e coisa colorida hahaha). Pegando uma série de coisas e transmutando tudo em algo produtivo, criativo e dividindo com o mundo. E levando ao extremo de um jeito engraçado (tipo evitar que a vila seja invadida simplesmente aparecendo no campo de visão dos invasores hahahah).

Não sei se foi sem querer ou pensado, mas também é genial que  a Lif seja justamente viking, um dos povos mais estereotipados como violentos, invasores e bárbaros na cultura ocidental (o que ninguém pode comprovar, já que eles não faziam registros e tudo o que sabemos sobre eles vêm do relato de outros povos).

Sobre a edição: adorei o livro, o formato, a qualidade de tudo. Não tem cara de “recompensa por colaboração”, mas de um produto bem pensado e feito com cuidado, que faz a gente querer continuar acompanhando o projeto mesmo depois de encerrada a campanha de colaborações. Adorei os brindes, principalmente a revista do Carne (o cachorro da Lif, gente!). E adorei a seção de colaboradores, com versões da Lif feitas por diversos ilustradores. Me desculpem todos vocês que fizeram versões fantásticas, mas a Miley Lif pendurada no machado reinou absoluta. hahahaha

Nome: Navio Dragão e Carne
Autora: Rebeca Prado
Páginas: 120
Nota no Skoob: 5/5

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Ex Machina, Sense 8 e a ficção científica

Histórias falam do tempo e das angústias que a gente vive. Elas refletem o momento, o que vemos, o que entendemos do mundo. Mesmo que seja uma história ambientada mil anos atrás, ela ainda contém a nossa visão atual dos fatos que narra.

Ano passado eu li muita coisa de ficção científica atual e brasileira, por pura curiosidade de saber o que tem sido feito. Algumas eu comentei aqui no blog, e tenho quase certeza que muita gente não curtiu meus comentários, onde eu dizia que faltava alguma coisa.

Basicamente, faltava o elemento humano.

Pra mim, a coisa funciona assim: você pode falar sobre o futuro distante, sobre uma galáxia totalmente diferente da nossa, sobre robôs, e por aí vai. Mas ainda assim nada vai fazer sentido se não refletir algum aspecto do que estamos vivendo como humanidade atualmente. Não só porque a humanidade, e não os robôs e ETs, é o seu público, mas porque é isso que você vive. Se engana quem acha que Asimov ou Phillip K. Dick não consideravam isso, só pra citar autores famosos do estilo.

Há alguns dias o Netflix liberou a 1ª temporada de Sense8, série de ficção científica dos irmãos Wachowski, os mesmos que fizeram a trilogia Matrix, Cloud Atlas, Jupiter Ascending e por aí vai. Mas o que me convenceu mesmo a assistir foi uma declaração deles dizendo que fizeram a série para tratar de temas que sentiam falta em histórias de ficção científica atuais: conflitos humanos. Porque gente, mesmo que vocês inventem alienígenas baseados em complexos de DNA completamente diferentes, ainda assim eles vão ter aspectos humanos, porque é a realidade que a gente vive. E isso implica em medos, angústias, amores, impulsos.

No caso de Sense8, o que ficou ainda mais legal foi deixar escancarado coisas que nós humanos – na vida real mesmo, fora da ficção científica – temos medo de encarar: um cara que assume que tem instintos violentos e mata mesmo, uma mulher que nasceu homem e tem que aturar a sociedade se recusando a “aceitar” isso (obviamente inspirada na própria Lana Wachowski), um ator que esconde que é gay por medo de prejudicar a carreira de galã de sucesso, um cara pobre passando apertos imensos na África porque precisa comprar remédios pra mãe – opinião pessoal: preciso dizer que foi uma lição esse ser o personagem mais bem humorado da série, sempre com um sorrisão lindo, ao mesmo tempo que com condições de vida que nós aqui do “ocidente” não aguentaríamos por uns dias –, e por aí vai.  

A parte de suspense, ciência e coisas inexplicáveis (ou seja, a tal ficção científica) é o que vem pra ligar essas pessoas. Ela não manda, ela não anula a humanidade delas. E talvez por isso eu tenha ficado tão fã da série (que ainda pode desenvolver mais o enredo, já que a primeira temporada serviu mais pra apresentar as pessoas e contexto).


Aí vem Ex Machina, filme que assisti recentemente no avião, durante uma viagem, mas que já estava nos planos há algum tempo. Se você acha que Sense8 não conta, não tem robôs, falta mais ciência, ou qualquer coisa parecida, então vamos pra esse exemplo.

Basicamente, a história mostra o Teste de Turing. Alan Turing, pai do computador, aquele cara que inspirou o filme O Jogo da Imitação, indicado ao Oscar desse ano, com o Benedict grasinha Cumberbatch. O teste é mais ou menos assim: uma pessoa assiste a interação entre uma outra pessoa e uma máquina, e precisa determinar qual deles é o quê.

Só que, quando se trata de seres humanos, é claro que isso vai ficar complexo. E quando a imaginação do autor permite uma máquina tão bem feita, tão detalhada, que consegue captar particularidades extremamente específicas das pessoas ao ponto de conseguir reproduzi-las e manipulá-las, fica mais complexo ainda.

A história aqui não trata robôs como um amontoado de peças de metal e chips de computador. Ela dá muita atenção à empatia (uma semelhança com o aspecto principal de Sense8). Chega a colocar um tanto de coisas da psicanálise (Ava é a “filha” que precisa lidar com o seu pai, Nathan, e com a primeira pessoa que conhece além dele, um outro homem, Caleb. Caleb é confundido por Ava (provavelmente por seu passado confuso, perda da família, solidão e aspectos da vida não considerados “comuns” - aliás, ele mesmo reconhece e enumera os "problemas" que o fizeram candidato ideal para o teste) ao ponto de duvidar da própria humanidade – ele só se convence depois de se cortar e ver o sangue escorrer. Ava só conseguirá “ser livre” se superar os dois homens com quem convive. Poderia ser a descrição de uma mulher humana normal, não? Só que não é (ou será que sim?). É isso que dá o toque especial à história.

E não, nem mesmo toda essa confusão humana tira o aspecto assustador de ver uma máquina superar e sair do controle de seu criador, e toda a tensão de não saber no que isso vai dar.

Enfim, esse post foi só pra elaborar os pensamentos que surgiram quando assisti à série e ao filme (os dois em menos de uma semana): dá sim pra fazer ficção científica boa e que crie identificação com o público. Dá pra juntar elementos materiais, alienígenas, estranhos, matemáticos – e por aí vai – com a complexidade humana, com emoções, instinto e empatia. Basta ter imaginação.


E imaginação é uma coisa MUITO humana. 

(P.S.: desculpem se algo estiver confuso aí, ainda to no jetlag e escrevi o texto rápido porque não queria perder a ideia :P )

domingo, 31 de maio de 2015

Os Pilares da Terra


Quando peguei pela primeira vez o paperback de The Pillars of the Earth, levei um sustinho com o tamanho: 991 páginas com letrinhas miúdas. Mas a sinopse era interessante, eu tava com vontade de ler algo no estilo... E li.

Já nas primeiras páginas a impressão é a de que eu tava lendo um livro enorme, só que não no sentido material: era como se fosse um livro sobre a história do mundo, grande, longa, muito, muito profunda. Engraçado que agora que falei isso me lembrei que em um trecho da história um monge tenta escrever um livro contendo a história do mundo hehehe

É tudo muito bem detalhado, muito bem descrito. Tanto que, assim que a gente “engata” a leitura, é como se acionasse um holograma que projetasse o mundo daquela história ao nosso redor. Eu parava de ler – a vida continua e a gente tem que cumprir compromissos, né? – e já me sentia mal, queria “voltar pra Kingsbridge”. A vida tava estressante? Me deixa ir pro terreno onde estavam construindo a catedral, por favor!

A Catedral de Kingsbridge: por mais que tentem apontar algum personagem, é ela a protagonista. Tudo gira ao redor da sua construção, projeção, planejamento e afins. Mesmo que digam “mas o fulano aparece desde muito antes de sabermos que ela vai ser construída na história”, esse fulano ainda não é tão protagonista quanto ela: ele só está ali antes pra gente entender o percurso que o levou à construção. O mesmo pro que acontece depois: os personagens podem até seguir outros caminhos, mas só o fazem porque a Catedral possibilitou isso.

E tem de tudo: cavaleiros, nobres sem escrúpulos, gente da Igreja que é bonzinho, gente da Igreja que é “o capeta em pessoa” (haha perdão pelo trocadilho!), rei, rainha, descendente de rei, princesa no castelo, herdeiros de nobres que eram nobres (duplo sentido!), mocinha que se ergue depois da tragédia, mulher super forte e foda (uh, desculpe o vocabulário :P), artesãos, intelectuais, etc etc etc...

E masons.

Desculpem, não consigo simplesmente chamá-los de “pedreiros”. A palavra em português já tomou o sentido de “homem que trabalha em construção”, e hoje em dia está muito atrelada a certas características específicas que não são necessariamente as que aparecem no livro. Pelo menos pra mim, Tom Builder e seus homens (e Jack, que ‘herda’ seu lugar) são mais do que pedreiros. Eles não só projetam e constroem uma Catedral, eles fazem isso estabelecendo toda uma rede de organização, uma comunidade, regras de comportamento na sociedade e por aí vai. (desculpem, não estou desmerecendo os pedreiros, só tentando dizer que no livro a palavra tem um significado que vai além da profissão hehehe)

É, bem maçonaria feelings. Aliás, vocês sabem que a maçonaria veio desse pessoal e da forma como estruturavam seu trabalho e suas equipes, né? E tudo isso é descrito com tantos detalhes, e de um jeito tão interessante! Tinha a equipe dos masons, dos carpinteiros, dos escultores... Cada um com suas lodges (ou lojas :P).

(só deixando claro que se pra vc “maçonaria” é coisa do demônio que nem ensinam em alguns lugares aí, pare de ler isso aqui, por favor)

Tive a impressão de estar lendo um livro do tamanho do mundo e que funcionava como a vida: não, nem sempre as coisas dão certo. Não, a humanidade não está se perdendo (até o autor faz uma piadinha com isso quando dois personagens tentam imaginar se um dia existirão cidades sem muralhas contra invasões e riem achando essa ideia absurda). Não, a vida não é justa. Não, as coisas não são nunca como a gente planeja. Sim, as coisas dão certo, mas de um jeito diferente do que o que a gente quer. Sim, pessoas boas cruzam nosso caminho muitas vezes, e sim, às vezes a gente nota. Nem tudo pode ser planejado, mas a gente pode planejar muita coisa. Não vai acontecer como planejado, mas pode ser que resulte em algo interessante. Um detalhe minúsculo pode ser insignificante, mas pode ter consequências absurdas. Um personagem figurante pode ser justamente quem vai te dar alguma ideia – mesmo sem querer – pra mudar sua vida.

E não, não consigo listar todas essas “liçõezinhas” que tirei do livro. Se conseguisse, eu teria quase um manual da vida hahaha


Sobre a série:

Antes de ler o livro eu já tinha ouvido falar da série, mas nunca assisti. Já no final da leitura, quando já tinha minha própria imagem na cabeça de como seriam todos os personagens, resolvi ir pro Google ver como foi a caracterização e a escalação de atores. E aí algumas coisas me chamaram atenção, mesmo sem assistir ainda:

1-    Porque tanta atenção ao Earl Bartholomew? Ele quase nem aparece! Aposto que é só porque na série é o Donald “Presidente” Sutherland :P (o cara até conseguiu aparecer no pôster, não faz sentido!)
2-   Eu sei que é bobo cobrar coisas de aparência de personagem, que adaptação não tem que seguir à risca 100% do que tá no livro (as vezes não tem nem como), mas eu acho uma extrema falta de atenção e uma péssima escolha quando qualquer adaptação pra filme ou série resolve ignorar A característica MAIS citada durante a história inteira de algum personagem. Tipo os cachos da Aliena, que estão em praticamente todas as páginas (tá, exagerei, mas vocês pegaram a ideia). Aí me bota uma moça de cabelo liso e curto. Ok, galera...
3-    Mas tudo bem, já tive meu momento nerd falando “a Aliena é a Agent Carter, caraaaa!”
4-   Tenho birra desse cara que fez o Tom Builder, não sei por quê. Já vem de vários filmes hahaha
5-   Pela primeira vez na vida, duvidei da escolha do Eddie Redmayne. Ele não tem nada a ver com o Jack da minha cabeça. Mas sei lá, não assisti a atuação, e o Eddie é o Eddie. Ele é foda :P
6-    O Richard é Finnick!!! (playboy mimado ¬¬)


Sobre o livro ter 991 páginas e não, não dá pra comparar com ler 5 livros enormes do George Martin:

Quando eu li As Crônicas de Gelo e Fogo, eu gastei poucos dias com cada volume. Ia vidrada de capítulo em capítulo, louca pra saber o que ia acontecer. Mas não, não dá pra fazer isso lendo The Pillars, ou você vai achar um saco e não entender nada. É chato ficar lendo o tanto que construir uma janela maior que o normal exige cálculos matemáticos, mas também é interessante quando você descobre que isso pode fazer uma Igreja cair... Cada detalhezinho ínfimo conta, então vale muito a pena ir com calma. E não me arrependi, porque depois de tanto tempo lendo o mesmo livro, to me sentindo órfã :S

Enfim, agora quero ir pra Inglaterra e pra França visitar catedrais medievais góticas e ficar reparando em arquitetura!


(enquanto eu escrevia esse testamento sobre o livro, meu notebook deu pau, reiniciou e só recuperou metade do texto. Pois é, tenso. Desabou, que nem uma certa Igreja... hahaha)

Nome: The Pillars of the Earth (Os Pilares da Terra)
Autor: Ken Follett
Páginas: 991
Editora: Penguin Group
Nota no Skoob: 5/5

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Filme: Batman

ALOU, vocês ae!

Então: mimimi to uma moça responsável blá blá blá tô com pouco tempo e a leitura tá atrasada, etc e tal.

Tá, não é bem assim, até que ando lendo num ritmo bem bom. Só que eu to lendo The Pillars of the Earth ("Os Pilares da Terra", vocês já devem ter visto ele em uma edição toda chique de capa dura em livrarias por aí), que tem tipo NOVECENTAS FUCKING PÁGINAS e é escrito de um jeito beeeeeem detalhista e com calma. Tá levando tempo, tem que ir lendo e digerindo aos poucos, mas tá bem legal até agora! :D

Então, até eu acabar o livro gigantesco da vida, vai demorar pra ter post sobre livros.

SÓ QUE eu resolvi falar de filmes aqui também (não todos, porque tem uns que dá preguiça comentar ou vontade de esquecer), e a Páscoa me abasteceu.

Hoje é sobre um clááássico do cinema quadrinístico nerd tim burtoniano: 





BATMAN, claro. 

Confesso que a vontade de rever e relembrar o filme (que tinha sumido da minha cabeça) foi todo culpa do Michael Keaton em Birdman

E Birdman ficou um filme ainda mais foda agora hahahahaha

Batman é um filme fantástico do ponto de vista de filmes, quadrinhos, fantasia e Tim Burton. Tem uns planos que fazem a gente lembrar do cinema antigão, uns efeitos especiais que pra geração anos-depois-do-bug-do-milênio devem ser hilários e que qualquer filme atual da Marvel (chega logo, 23 de abril *.*) humilha mas que quem assistiu o filme na época deve ter achado lindos, e que ver hoje em dia deixa a gente saudosista. E cara, umas soluções tão criativas pras limitações tecnológicas da época que qualquer filme ruim hoje em dia vai parecer incompetente se a gente comparar. 

Um filme muito bem feito!

Mas claro, não acho que seja legal comparar com filmes de heróis atuais, não só pela questão dos efeitos mas também pela abordagem. É um filme do Tim Burton com trilha sonora do Danny Elfman, ou seja, beeeem fantasia. O clima é todo assim, bem fantástico, bem colorido, bem teatral, com direito a fumacinhas de mistério em volta do Batman com asas abertas em modo poser!

Quanto ao Michael Keaton: cara, você é péssimo, mas como é o Birdman ficou engraçado hahahaha APOSTO que só foi escolhido porque faz biquinho com a boca, o que dá um efeito quando tá de máscara! hahahaha 

Pra mim ele não fez cara de nada, nem de garoto traumatizado, nem de justiceiro raivoso... não passou conflito algum. A Kim Basinger passou mais sensações que todo mundo lá.

Quanto ao Coringa: Jack Nicholson é Jack Nicholson, né, é sempre genial. Cumpriu super bem a função, sem dúvida. Mas na minha cabeça o Coringa mesmo sempre será o Heath Ledger :(


É válido ver o filme? CLARO QUE É! Tanto como entretenimento como momento de nostalgia e apreciação a um filme do Tim Burton extremamente bem feita!

sábado, 7 de março de 2015

A Maldição do Tigre


É, ás vezes é inevitável, mesmo eu não gostando de fazer isso: abandonei uma leitura.

Já adianto que não sei se o livro é ruim ou bom. Imagino que tem quem goste (ou não venderia tanto). Mas não me agradou. :S

Há tempos tenho visto pela internet propagandas, anúncios, comentários ou mesmo a capa de A Maldição do Tigre. E desde já eu tinha um pouco de preguiça, tanto pelo título soar clichê (pra mim), quanto pelo resuminho que eu via, algo com “a mocinha e seus tigres mágicos”.

Mas um dia passei em uma loja, vi uma edição econômica mais barata e parei pra ler a contracapa. Quando vi que tratava de mitologia hindu, me empolguei. A gente sempre vê o pessoal mexendo com coisas gregas e nórdicas, e eu tenho vontade de conhecer culturas “alternativas” e histórias focadas nelas já há tempos. E uma história baseada na Índia me soava extremamente interessante.

Recusei os pré-conceitos e comprei o livro.

Comecei a leitura achando tudo extremamente bonitinho. A autora escreve com cuidado, dá pra ver que é tudo muito bem estruturado. Daquele tipo de história onde a personagem faz uma coisa aparentemente insignificante no início, e que a gente nem presta atenção, mas depois vê que pode ser importante. Gosto desse tipo de tratamento.

Achei bonitinho também a história da protagonista, Kelsey, enquanto ela era apresentada, e o que acontecia enquanto ela ia trabalhar no circo, suas expectativas quanto a isso, qual a influência que aquilo teria na sua vida e em seus planos pro futuro e por aí vai. Como já sabia que a proposta era um livro “Young adult” pra mocinhas, já esperava uma pegada mais romântica, e até achei também bonitinha (desculpa, gente, é a única palavra que eu consegui pensar e que descreve o que achei hahaha) a ideia de um príncipe indiano enfeitiçado e como a mocinha vinda de outra cultura quebraria esse feitiço, entrando em contato com um mundo completamente novo...

Até que esse tal príncipe apareceu com um irmão de cor oposta (o príncipe é branco, o irmão é preto – é, são tigres, não é cor metafórica), com personalidade mais animalesca e impulsiva, tipo bad boy.

E o tal irmão começa a encher a bola da mocinha, cheio dos "por você vale a pena", "você é algo pelo qual vale a pena lutar", já nos primeiros contatos, sem nem mesmo ter motivos mais sólidos pra isso.

E a mocinha faz um drama ENORME porque recusou um beijo do príncipe bonzinho. E ele fica emburrado por várias páginas por causa do "incidente".

Aí virou Crepúsculo (desculpa gente, esse é meu exemplo de romance adolescente ruim).

Só que não foi só isso. Parece que toda a estrutura bem feita do início do livro passou a se desfazer a partir daí. A mocinha, que antes era sim órfã, simples, com dificuldades (como não ter como pagar pela faculdade), mas uma moça real, passou a ser a mocinha indefesa com problemas sérios de autoestima, mas que é vista como uma deusa pelos príncipes. Porque pra uma mocinha real aprender a lidar com autoconfiança é preciso que um príncipe PERFEITO fique o tempo todo falando das suas qualidades de forma melosa e mencionando o quanto ela é perfeita e linda aos olhos dele, né.

Achei bobo, e ingênuo, e errado ensinar mocinhas reais pelo mundo afora a pensar assim. Kelsey poderia ser uma ótima personagem porque tem um papel fundamental pra quebrar a maldição dos dois príncipes-tigre, porque mesmo sendo comum, não tão bonita, órfã e pobre ela tem força de vontade e QUER ajudá-los (apesar de eu achar que bastava um tigre só). E em tempos de discussões sobre o valor da mulher na sociedade, acho muito mais válido quando a história mostra a força da personagem feminina e a vontade dela. 

Só que tudo isso se desfez quando tudo o que ela precisava era magicamente garantido pelo príncipe (que apesar de centenas de anos sob uma maldição, continua sendo milionário e dono de uma casa absurdamente maravilhosa), incluindo vestidos bonitos pra ela se sentir princesa. Se desfez quando, ao invés de o príncipe se perguntar se não tem algo por trás de uma desconhecida querer ajudá-los, de tentar pensar como recompensar, ele já faz questão de afirmar veementemente que ela é linda, que é nobre, que é fantástica.

Isso tudo me fez pensar sobre livros Young Adult e a popularidade crescente deles. Dos poucos que já li (são tantos que por mais que eu leia vou continuar achando poucos), todos parecem bem escritos em termos de “fórmula”. Parece que foram feitos por alunos super nerds e dedicados de cursos de Creative Writing (escrita criativa, algo comum nas universidades americanas), que seguiram direitinho o que foram ensinados. Tudo é bem colocado, organizado, como um artigo final de semestre. Ideias simples que foram trabalhadas e ganharam nota 10.

Mas poucos têm tempero.

Me lembrei da decepção ao ler Divergente: vendem a “distopia” usando o nome de outros livros do gênero famosos, principalmente Jogos Vorazes. ADOREI Jogos Vorazes. Fazia muito tempo que não lia um livro tão bem feito, bem pensado, crível, com personagens excelentes.

Mas não é fácil ser um Jogos Vorazes da vida. Não basta ter a fórmula, é preciso saber o que fazer com ela, e como aplicá-la de um jeito que as pessoas se identifiquem. É preciso criar alguma coisa nova, alguma coisa sua. Já deu esse negócio de mocinha indefesa em perigo sendo salva por príncipes, né? Nem a Disney investe mais nisso.

Podem discordar de mim, CLARO, mas eu não consigo levar a sério uma Tris que se mete em encrenca e encontra magicamente um Four pra protegê-la enquanto ela aprende “na porrada” como sobreviver. Eu acho de verdade que ela poderia aprender a se virar sozinha, pra talvez depois encontrar um Four no meio do caminho, já estando mais forte e mostrando seu valor.

Não acho que Kelsey poderia salvar dois príncipes amaldiçoados e transformados em tigres enquanto esses tigres lhe garantem cama, comida e roupa lavada. Eles estão amaldiçoados, poxa!

A graça da Katniss pra mim era justamente que nem Peeta nem Gale ensinaram nada pra ela nem a protegem. Ela faz isso sozinha (e até os isola), e sem querer. É mais realista, sabe?

Mas por que eu defendo realismo em histórias de fantasia, afinal? Porque pra mim ficção foi feita pra gente se identificar e viver coisas que não viveríamos no mundo real. Ajuda a gente a lidar com conflitos internos que não lidaríamos com as ferramentas da vida real. Algo meio catarse.

Só que não dá pra lidar com demônios internos achando que pra isso precisa de um príncipe mágico surgindo de repente e proporcionando riquezas e proteção física.

Muito menos achar que é saudável ter um tigre de estimação que é altamente perigoso para o mundo, mas seguro pra você, quase um bichinho de pelúcia com o qual você pode dormir abraçada, mas que durante 24 minutos por dia se transforma num príncipe saradão maravilhoso melhor guerreiro do reino e sedutor. Não dá pra comprar isso de ela continuar tratando o tigre como bichinho de pelúcia e o acariciando e abraçando mesmo depois de descobrir que é um HOMEM enfeitiçado... Aliás, isso pra mim foi meio doente no livro O.o

Gente... não dá. :S

(e nem precisam dizer que é perseguição minha com Young Adult. Eu super curti A Culpa é das Estrelas e Se eu Ficar, por exemplo, onde as protagonistas são mais bem "desenvolvidas")

Nome: A Maldição do Tigre
Autora: Colleen Houck
Editora: Arqueiro
Páginas: 344
Nota no Skoob: 2/5