sábado, 7 de março de 2015

A Maldição do Tigre


É, ás vezes é inevitável, mesmo eu não gostando de fazer isso: abandonei uma leitura.

Já adianto que não sei se o livro é ruim ou bom. Imagino que tem quem goste (ou não venderia tanto). Mas não me agradou. :S

Há tempos tenho visto pela internet propagandas, anúncios, comentários ou mesmo a capa de A Maldição do Tigre. E desde já eu tinha um pouco de preguiça, tanto pelo título soar clichê (pra mim), quanto pelo resuminho que eu via, algo com “a mocinha e seus tigres mágicos”.

Mas um dia passei em uma loja, vi uma edição econômica mais barata e parei pra ler a contracapa. Quando vi que tratava de mitologia hindu, me empolguei. A gente sempre vê o pessoal mexendo com coisas gregas e nórdicas, e eu tenho vontade de conhecer culturas “alternativas” e histórias focadas nelas já há tempos. E uma história baseada na Índia me soava extremamente interessante.

Recusei os pré-conceitos e comprei o livro.

Comecei a leitura achando tudo extremamente bonitinho. A autora escreve com cuidado, dá pra ver que é tudo muito bem estruturado. Daquele tipo de história onde a personagem faz uma coisa aparentemente insignificante no início, e que a gente nem presta atenção, mas depois vê que pode ser importante. Gosto desse tipo de tratamento.

Achei bonitinho também a história da protagonista, Kelsey, enquanto ela era apresentada, e o que acontecia enquanto ela ia trabalhar no circo, suas expectativas quanto a isso, qual a influência que aquilo teria na sua vida e em seus planos pro futuro e por aí vai. Como já sabia que a proposta era um livro “Young adult” pra mocinhas, já esperava uma pegada mais romântica, e até achei também bonitinha (desculpa, gente, é a única palavra que eu consegui pensar e que descreve o que achei hahaha) a ideia de um príncipe indiano enfeitiçado e como a mocinha vinda de outra cultura quebraria esse feitiço, entrando em contato com um mundo completamente novo...

Até que esse tal príncipe apareceu com um irmão de cor oposta (o príncipe é branco, o irmão é preto – é, são tigres, não é cor metafórica), com personalidade mais animalesca e impulsiva, tipo bad boy.

E o tal irmão começa a encher a bola da mocinha, cheio dos "por você vale a pena", "você é algo pelo qual vale a pena lutar", já nos primeiros contatos, sem nem mesmo ter motivos mais sólidos pra isso.

E a mocinha faz um drama ENORME porque recusou um beijo do príncipe bonzinho. E ele fica emburrado por várias páginas por causa do "incidente".

Aí virou Crepúsculo (desculpa gente, esse é meu exemplo de romance adolescente ruim).

Só que não foi só isso. Parece que toda a estrutura bem feita do início do livro passou a se desfazer a partir daí. A mocinha, que antes era sim órfã, simples, com dificuldades (como não ter como pagar pela faculdade), mas uma moça real, passou a ser a mocinha indefesa com problemas sérios de autoestima, mas que é vista como uma deusa pelos príncipes. Porque pra uma mocinha real aprender a lidar com autoconfiança é preciso que um príncipe PERFEITO fique o tempo todo falando das suas qualidades de forma melosa e mencionando o quanto ela é perfeita e linda aos olhos dele, né.

Achei bobo, e ingênuo, e errado ensinar mocinhas reais pelo mundo afora a pensar assim. Kelsey poderia ser uma ótima personagem porque tem um papel fundamental pra quebrar a maldição dos dois príncipes-tigre, porque mesmo sendo comum, não tão bonita, órfã e pobre ela tem força de vontade e QUER ajudá-los (apesar de eu achar que bastava um tigre só). E em tempos de discussões sobre o valor da mulher na sociedade, acho muito mais válido quando a história mostra a força da personagem feminina e a vontade dela. 

Só que tudo isso se desfez quando tudo o que ela precisava era magicamente garantido pelo príncipe (que apesar de centenas de anos sob uma maldição, continua sendo milionário e dono de uma casa absurdamente maravilhosa), incluindo vestidos bonitos pra ela se sentir princesa. Se desfez quando, ao invés de o príncipe se perguntar se não tem algo por trás de uma desconhecida querer ajudá-los, de tentar pensar como recompensar, ele já faz questão de afirmar veementemente que ela é linda, que é nobre, que é fantástica.

Isso tudo me fez pensar sobre livros Young Adult e a popularidade crescente deles. Dos poucos que já li (são tantos que por mais que eu leia vou continuar achando poucos), todos parecem bem escritos em termos de “fórmula”. Parece que foram feitos por alunos super nerds e dedicados de cursos de Creative Writing (escrita criativa, algo comum nas universidades americanas), que seguiram direitinho o que foram ensinados. Tudo é bem colocado, organizado, como um artigo final de semestre. Ideias simples que foram trabalhadas e ganharam nota 10.

Mas poucos têm tempero.

Me lembrei da decepção ao ler Divergente: vendem a “distopia” usando o nome de outros livros do gênero famosos, principalmente Jogos Vorazes. ADOREI Jogos Vorazes. Fazia muito tempo que não lia um livro tão bem feito, bem pensado, crível, com personagens excelentes.

Mas não é fácil ser um Jogos Vorazes da vida. Não basta ter a fórmula, é preciso saber o que fazer com ela, e como aplicá-la de um jeito que as pessoas se identifiquem. É preciso criar alguma coisa nova, alguma coisa sua. Já deu esse negócio de mocinha indefesa em perigo sendo salva por príncipes, né? Nem a Disney investe mais nisso.

Podem discordar de mim, CLARO, mas eu não consigo levar a sério uma Tris que se mete em encrenca e encontra magicamente um Four pra protegê-la enquanto ela aprende “na porrada” como sobreviver. Eu acho de verdade que ela poderia aprender a se virar sozinha, pra talvez depois encontrar um Four no meio do caminho, já estando mais forte e mostrando seu valor.

Não acho que Kelsey poderia salvar dois príncipes amaldiçoados e transformados em tigres enquanto esses tigres lhe garantem cama, comida e roupa lavada. Eles estão amaldiçoados, poxa!

A graça da Katniss pra mim era justamente que nem Peeta nem Gale ensinaram nada pra ela nem a protegem. Ela faz isso sozinha (e até os isola), e sem querer. É mais realista, sabe?

Mas por que eu defendo realismo em histórias de fantasia, afinal? Porque pra mim ficção foi feita pra gente se identificar e viver coisas que não viveríamos no mundo real. Ajuda a gente a lidar com conflitos internos que não lidaríamos com as ferramentas da vida real. Algo meio catarse.

Só que não dá pra lidar com demônios internos achando que pra isso precisa de um príncipe mágico surgindo de repente e proporcionando riquezas e proteção física.

Muito menos achar que é saudável ter um tigre de estimação que é altamente perigoso para o mundo, mas seguro pra você, quase um bichinho de pelúcia com o qual você pode dormir abraçada, mas que durante 24 minutos por dia se transforma num príncipe saradão maravilhoso melhor guerreiro do reino e sedutor. Não dá pra comprar isso de ela continuar tratando o tigre como bichinho de pelúcia e o acariciando e abraçando mesmo depois de descobrir que é um HOMEM enfeitiçado... Aliás, isso pra mim foi meio doente no livro O.o

Gente... não dá. :S

(e nem precisam dizer que é perseguição minha com Young Adult. Eu super curti A Culpa é das Estrelas e Se eu Ficar, por exemplo, onde as protagonistas são mais bem "desenvolvidas")

Nome: A Maldição do Tigre
Autora: Colleen Houck
Editora: Arqueiro
Páginas: 344
Nota no Skoob: 2/5