quinta-feira, 25 de junho de 2015

Ex Machina, Sense 8 e a ficção científica

Histórias falam do tempo e das angústias que a gente vive. Elas refletem o momento, o que vemos, o que entendemos do mundo. Mesmo que seja uma história ambientada mil anos atrás, ela ainda contém a nossa visão atual dos fatos que narra.

Ano passado eu li muita coisa de ficção científica atual e brasileira, por pura curiosidade de saber o que tem sido feito. Algumas eu comentei aqui no blog, e tenho quase certeza que muita gente não curtiu meus comentários, onde eu dizia que faltava alguma coisa.

Basicamente, faltava o elemento humano.

Pra mim, a coisa funciona assim: você pode falar sobre o futuro distante, sobre uma galáxia totalmente diferente da nossa, sobre robôs, e por aí vai. Mas ainda assim nada vai fazer sentido se não refletir algum aspecto do que estamos vivendo como humanidade atualmente. Não só porque a humanidade, e não os robôs e ETs, é o seu público, mas porque é isso que você vive. Se engana quem acha que Asimov ou Phillip K. Dick não consideravam isso, só pra citar autores famosos do estilo.

Há alguns dias o Netflix liberou a 1ª temporada de Sense8, série de ficção científica dos irmãos Wachowski, os mesmos que fizeram a trilogia Matrix, Cloud Atlas, Jupiter Ascending e por aí vai. Mas o que me convenceu mesmo a assistir foi uma declaração deles dizendo que fizeram a série para tratar de temas que sentiam falta em histórias de ficção científica atuais: conflitos humanos. Porque gente, mesmo que vocês inventem alienígenas baseados em complexos de DNA completamente diferentes, ainda assim eles vão ter aspectos humanos, porque é a realidade que a gente vive. E isso implica em medos, angústias, amores, impulsos.

No caso de Sense8, o que ficou ainda mais legal foi deixar escancarado coisas que nós humanos – na vida real mesmo, fora da ficção científica – temos medo de encarar: um cara que assume que tem instintos violentos e mata mesmo, uma mulher que nasceu homem e tem que aturar a sociedade se recusando a “aceitar” isso (obviamente inspirada na própria Lana Wachowski), um ator que esconde que é gay por medo de prejudicar a carreira de galã de sucesso, um cara pobre passando apertos imensos na África porque precisa comprar remédios pra mãe – opinião pessoal: preciso dizer que foi uma lição esse ser o personagem mais bem humorado da série, sempre com um sorrisão lindo, ao mesmo tempo que com condições de vida que nós aqui do “ocidente” não aguentaríamos por uns dias –, e por aí vai.  

A parte de suspense, ciência e coisas inexplicáveis (ou seja, a tal ficção científica) é o que vem pra ligar essas pessoas. Ela não manda, ela não anula a humanidade delas. E talvez por isso eu tenha ficado tão fã da série (que ainda pode desenvolver mais o enredo, já que a primeira temporada serviu mais pra apresentar as pessoas e contexto).


Aí vem Ex Machina, filme que assisti recentemente no avião, durante uma viagem, mas que já estava nos planos há algum tempo. Se você acha que Sense8 não conta, não tem robôs, falta mais ciência, ou qualquer coisa parecida, então vamos pra esse exemplo.

Basicamente, a história mostra o Teste de Turing. Alan Turing, pai do computador, aquele cara que inspirou o filme O Jogo da Imitação, indicado ao Oscar desse ano, com o Benedict grasinha Cumberbatch. O teste é mais ou menos assim: uma pessoa assiste a interação entre uma outra pessoa e uma máquina, e precisa determinar qual deles é o quê.

Só que, quando se trata de seres humanos, é claro que isso vai ficar complexo. E quando a imaginação do autor permite uma máquina tão bem feita, tão detalhada, que consegue captar particularidades extremamente específicas das pessoas ao ponto de conseguir reproduzi-las e manipulá-las, fica mais complexo ainda.

A história aqui não trata robôs como um amontoado de peças de metal e chips de computador. Ela dá muita atenção à empatia (uma semelhança com o aspecto principal de Sense8). Chega a colocar um tanto de coisas da psicanálise (Ava é a “filha” que precisa lidar com o seu pai, Nathan, e com a primeira pessoa que conhece além dele, um outro homem, Caleb. Caleb é confundido por Ava (provavelmente por seu passado confuso, perda da família, solidão e aspectos da vida não considerados “comuns” - aliás, ele mesmo reconhece e enumera os "problemas" que o fizeram candidato ideal para o teste) ao ponto de duvidar da própria humanidade – ele só se convence depois de se cortar e ver o sangue escorrer. Ava só conseguirá “ser livre” se superar os dois homens com quem convive. Poderia ser a descrição de uma mulher humana normal, não? Só que não é (ou será que sim?). É isso que dá o toque especial à história.

E não, nem mesmo toda essa confusão humana tira o aspecto assustador de ver uma máquina superar e sair do controle de seu criador, e toda a tensão de não saber no que isso vai dar.

Enfim, esse post foi só pra elaborar os pensamentos que surgiram quando assisti à série e ao filme (os dois em menos de uma semana): dá sim pra fazer ficção científica boa e que crie identificação com o público. Dá pra juntar elementos materiais, alienígenas, estranhos, matemáticos – e por aí vai – com a complexidade humana, com emoções, instinto e empatia. Basta ter imaginação.


E imaginação é uma coisa MUITO humana. 

(P.S.: desculpem se algo estiver confuso aí, ainda to no jetlag e escrevi o texto rápido porque não queria perder a ideia :P )

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