domingo, 26 de julho de 2015

O Enigma da Lua - A Centésima Vida


Há um tempo atrás – quanto tempo exatamente eu não lembro O.o – alguns autores liberaram download gratuito de algumas obras no Kindle. Eu cheguei a baixar alguns vários pra aproveitar, e deixei no aplicativo, meio que ‘em espera’. Confesso, até agora só li dois livros que estão lá, mas por um problema específico: eu não tenho Kindle (leio epubs no Kobo, que é outra marca), então as coisas que eu baixar em formato digital da Amazon eu só consigo ler por meio do aplicativo para Android. E bom, não me dei muito bem com a experiência de ler no celular, é muito pequeno :S

Claro que se você tem o Kindle aparelho, ou algum tablet com o aplicativo já melhora, né? Mas pra mim era o celular ou o celular. Enfim, vamos ao assunto livro:

Um desses livros era O Enigma da Lua – A Centésima Vida, da Liége Báccaro Toledo, que já estava na minha lista de leitura faz tempo, desde o início da minha “empreitada” em conhecer autores nacionais (acho que comecei com isso em 2013, sei lá). Foi uma das primeiras histórias que ouvi falar entre autores nacionais de fantasia que era razoavelmente “grandinha” e tal, o que me interessou.

Por causa do problema do celular (eu tenho um Moto G, cuja tela não é tão pequena assim, mas é menor que tablets e leitores digitais, né), eu demorei um pouco pra engatar a leitura. Lia em momentos de espera curtinha, bem espaçado. Talvez por causa disso, a história também levou um tempo pra me fisgar. No inicinho, tive a sensação de que tava um pouco “bobinho”, pois toda vez que eu pegava no celular eu me deparava com algum conflito dos personagens adolescentes, e aí parecia uma coisa interminável.

Mas aí eu entrei de férias e falei “vamo levar esse negócio a sério”. Comecei a ler direito e peguei melhor a história, que foi melhorando ao longo do livro. Quando a gente começa a entender o que realmente está se passando ali, tudo se encaixa e aí a gente fica preso, já era. Que bom que eu também baixei o livro sequência no tal dia liberado hahahaha

O Enigma da Lua é centrado na vida de Elora e Laucian, que já nasceram com uma missão bem específica, cujo cumprimento será decisivo não só para o destino deles, mas do mundo em que vivem. Eles vão contar com a ajuda de dois amigos, Valenia e Myron – irmão de Elora – , além da clériga Driali, que esconde ser bem mais do que aparenta.

Gente, vai parecer bobo pra alguns, mas pra mim é uma comparação divertida e nostálgica: me senti lendo Sailor Moon. Hahahaha Esclareço: eu AMAVA o anime da Sailor Moon, que assistia na extinta Manchete, e acho que é uma das primeiras coisas de fantasia que eu lembro de ter gostado (claro que teve mais antes, tipo mil filmes da Disney, mas foi o primeiro que eu realmente “registrei” na memória).

E tem toda a coisa de encarnações, do casal que só se unirá pra cumprir a missão, dos amigos em torno que vão ajudar e... da LUA. Muito mágico! :D

Esse contexto foi, inclusive, o ponto alto do livro. A mitologia da história, o mundo criado pela autora e tudo nesse sentido ficou muito bem estruturado, bem amarrado. E razoavelmente fácil de entender, sem aquele problema de ter que voltar no início pra lembrar quem é o Fulano, nem necessidade de mapinhas (gente, mapinha é legal, mas tá ficando clichê. Deixem isso pro Tolkien e pro Martin e usem mais descrições que a gente entende onde fica o quê – se é que isso é importante).

Senti que as maiores influências pra história foram jogos de RPG e um pouco da “mitologia” em torno da religião Wicca. Os personagens são divididos em raças e “funções” (desculpa galera do RPG, não sei que termo se usa pra isso), como clérigo, ranger, ladino, bardo, etc. As raças, como já deu pra adivinhar, são as tradicionais: elfos, humanos, meio-elfos, orcs, anões...

O que ficou legal é que, mesmo os personagens principais sendo elfos, a história não tem pretensão nenhuma de impor “os elfos são os melhores”. Além de existir uma interação razoável com seres humanos e outros povos, o foco aqui é claramente o aspecto “religioso” (seria esse o termo?): o conflito está centrado em assuntos ligados aos deuses, ao culto à Lua, e as personagens que mais se destacam nisso são justamente Driali e Elora, mais ligadas a isso. Uma é uma clériga poderosa, que carrega segredos que podem ter um papel importantíssimo na história, outra é sua filha, que nasceu com a marca da Lua, destinada a um feito que já profetizado para salvar seu mundo.

A Centésima Vida é o primeiro volume da série O Enigma da Lua, e é focado na apresentação dos personagens e na formação dos quatro jovens que terão mais destaque. Aqui eles são adolescentes se formando e começando a aprender sobre o mundo em que vivem. (olha eu lembrando da primeira temporada de Sailor Moon uhuuu) O que quer dizer que a gente acaba a leitura com a sensação de que tem muita coisa pra rolar ainda, e que tem muito potencial.

Como ponto não tão alto assim, ou algo pra ser considerado, eu diria que a relação entre linguagem e público-alvo me deixou um pouquinho confusa. Não sei a quem se dirige a história, mas comecei achando a escrita muito simples, muito limpa. Não que isso seja ruim, mas eu, pessoalmente, senti falta de um pouco mais de “estilo”, rebuscamento, sei lá como chamar. Algo como brincar mais com as palavras e ser menos direto pra entregar os fatos, sabe?

Só que esse argumento se desfaz se o público-alvo realmente for o pessoal mais novo, porque aí a história funciona mais exatamente se não tiver essas "firulas". Talvez só aumentar um pouquinho-inho mais da complexidade dos conflitos dos adolescentes no início do livro, como mostrar um pouco mais cedo que Valenia não é só a adolescente metida do grupo, mas que tem muita coisa por trás.

Outra coisa eu sei que é uma dificuldade bem comum de autores independentes, que não tem editoras enormes e poderosíssimas pra garantir alguns detalhes: uma outra revisada, só pra corrigir um errinho de digitação aqui, uma concordanciazinha ali. Mas foram pouquíssimas coisas do tipo, e talvez seja só do ebook, não sei. Não atrapalharam a leitura em nada. E eu trabalho como revisora também, então presto atenção até demais nessas coisas. 

Também não curti muito a distribuição das ilustrações, me pareceram meio soltas na história. Acho que funcionam melhor como material extra, achei que as vezes elas interrompiam minha imaginação hahaha. E quebraram um pouco a minha expectativa, porque eu imaginava os personagens de um jeito, aí elas mostravam de outro... Questão de gosto.

Enfim, isso é muito mais sugestão, que não chega a atrapalhar a leitura. Recomendo o livro pra todo mundo que estiver afim de dar uma escapada pra um outro mundo, onde as coisas parece mais bonitas, mais mágicas, um pouquINHO cor de rosas.. hehehe Pra minha leitura, vou intercalar: a série O Enigma da Lua fez a imensa sacanagem de ser igualzinha à série Crônicas do Matador do Rei: tem dois livros já publicados, alguns contos extra sobre personagens específicos, mas o terceiro livro ainda está "a caminho". Só me resta ler um de cada pra ver se dura mais, né? hahaha

Nome: O Enigma da Lua - A Centésima Vida
Autora: Liége Báccaro Toledo
Páginas: 352
Nota no Skoob: 4/5

domingo, 19 de julho de 2015

A verdade é uma caverna nas montanhas negras


Momento “autor preferido” no blog! *sirenes*

Eu tenho um hábito. Ele consiste em entrar em livrarias olhando um livro ou outro, mas procurando disfarçadamente por qualquer coisa onde esteja escrito “Neil Gaiman”. Algumas vezes isso resulta em voltar pra casa com um livro. Sempre prefiro ler as coisas do autor em inglês - pra aproveitar melhor o estilo de escrita dele -, mas às vezes acho alguma coisa nova traduzida por aí e dou uma chance. Antigamente isso era quase impossível, mas acho que as editoras descobriram o cara e agora tem sempre algo novo. Acho isso interessante, porque nessa “guerrinha de editoras” acaba que os livros nunca são padronizados, dá sempre pra se surpreender com uma capa bonita alternativa e por aí vai.

Bom, da última vez eu voltei pra casa com a versão em livro de “A Verdade é uma caverna nas montanhas negras”, conto originalmente publicado em uma antologia, agora editado com ilustrações de Eddie Campbell, muito conhecido pela parceria com Alan Moore.

Tava com saudade de ler Neil Gaiman. :P

Logo no início vemos o aviso de que a história foi inspirada em uma frase de um livro escrito por Otta F. Swire. Óbvio que a tal frase é a que dá o nome ao conto. Talvez eu esteja um pouco “enferrujada” com o estilo do autor, mas ler isso me fez pensar em algum drama familiar ou de relacionamentos com um clima bem realista. Mas eu também já tinha lido a chamada, que dizia que a história se tratava de um pai procurando a verdade sobre o desaparecimento da filha, e isso pode ter me influenciado.

Mas Gaiman é Gaiman, e de repente surgem tesouros amaldiçoados, lendas nórdicas, criaturas que a gente suspeita não serem desse mundo. Claro, ainda com o tal “drama familiar”.

Sei que, no caminho para a verdade (essa expressão pode ter vários sentidos, hein), a gente sempre acaba descobrindo trilhas e aspectos surpreendentes e imprevisíveis. O final pode não ser nada do que a gente espera, mas não deixa de ser importante. Nem de ser um final propriamente dito. Lendo a história, a gente percebe que a verdade é sim uma caverna nas montanhas negras e, uma vez que você se dirige a ela, não importa qual rumo toma, todos os caminhos levam pra lá.

O livro, por ser um conto, é bem curto, dá pra ler numa sentada (como eu fiz). Mas também vale diminuir o ritmo um pouco pra curtir as ilustrações de Campbell, que reforçam a atmosfera quase sobrenatural. Um excelente exemplar da tal “fantasia para adultos”!

Nome: A verdade é uma caverna nas montanhas negras
Autores: Neil Gaiman e Eddie Campbell
Páginas: 80
Editora: Intrínseca

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Nome do Vento


Já faz um bom tempo que eu ouvia (ou melhor, lia no facebook) “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento” me perseguindo toda vez que eu falava de algum outro livro. Pois é, colega, você me convenceu.

Eu li O Nome do Vento.

E agora estou revoltada porque, se já não bastava o George Martin, agora tenho que ficar esperando outra série que não tem todos os livros publicados, só rumores de “dizem que sai em 2016”. :S
Mas tudo bem, eu ainda tenho o segundo livro da série pra ler enquanto espero o terceiro, ainda não existente...

Então, vamos aos comentários:

O Nome do Vento é o primeiro livro da série A Crônica do Matador do Rei. A série por enquanto só tem dois livros publicados, além de alguns contos baseados em personagens específicos.

O que eu posso dizer?

Posso começar falando que há muito tempo eu queria ler alguma coisa assim. Não é só uma história de fantasia, é uma história de fantasia bem estruturada, com um monte de coisas (bem) emaranhadas , que brinca com as nossas crenças e folclore, que usa as bases da nossa civilização (é, a do mundo real) pra criar um outro mundo. Tá, o que esse “outro mundo” tem de diferente do mundo de outros livros? Sinceramente, não sei te explicar direito. Leia e você vai saber do que eu to falando. É como se, ao invés de criar seres novos, mágicas nunca citadas em outras histórias, o autor tivesse pego tudo que a gente já tá cansado de ouvir por aí e inserido no mundo dos livros dele. Em alguns trechos, tive a sensação de estar lendo uma mistura de Shakespeare com Neil Gaiman (ou seja, Sandman - Sonho de uma Noite de Verão hahaha)

Mais fácil explicar enquanto falo da história (já adianto que eu li em inglês, então alguns termos eu não sei como foram traduzidos):

Só li um dos livros (por enquanto), mas já ficou claro que existem dois arcos. O primeiro é o de Kvothe, dono de uma estalagem em uma cidadezinha, contando sua história para Chronicler, que pretende descobrir a versão verdadeira sobre inúmeros rumores, fofocas e lendas sobre ele - tudo em meio a ataques de "demônios" (ou seres que a gente não entende e chama de demônios pra se sentir melhor). Aqui, tudo é contado em terceira pessoa, com o foco mudando para cada personagem que aparece – Kvothe mantém uma estalagem, ou seja, sempre tem um vai e vem de pessoas. O segundo arco é o da história contada pelo próprio Kvothe, falando sobre acontecimentos da sua infância, juventude e o que mais o levou a ser quem é. Aqui já é tudo em primeira pessoa, mas o legal é que ele interrompe o tempo todo pra contar outras histórias que ele ouviu por aí (ou seja, quase que vira terceira pessoa de novo).

Histórias são a base da série, já que Kvothe vêm dos Edema Ruh (sacaram, fãs de Nightwish?), uma espécie de “trupe” de artistas que viaja de cidade em cidade se apresentando e oferecendo entretenimento. Desde o começo já somos avisados que ele é um excelente ator e contador de histórias.

E aí está a parte genial. Como ele mesmo diz, as melhores lendas e fofocas sobre ele são as que ele mesmo inventou.

“You may have heard of me.”

A forma como as histórias dentro das histórias são entrelaçadas é genial. E é como se a gente estivesse lendo vários livros, um dentro do outro, mas interrompendo um pra ler um outro diferente, e por aí vai. Parece confuso, mas não é na prática.

Eu não consegui evitar fazer alguma comparação com outros livros, apesar de achar que a comparação por si só seria uma descrição pobre. Mas acho que serve pra exemplificar: o primeiro arco, com o Kvothe mais velho na estalagem (e que também tem mistérios que estão só começando) tem um tom mais sério, mas ainda assim fantástico, quase como A Guerra dos Tronos.  O segundo, com o jovem Kvothe pequeno com os Edema Ruh, depois mendigo nas ruas de Tarbean e, mais tarde, aluno precoce da Universidade, me lembrou uma mistura de Harry Potter com histórias de Mark Twain. Só que tudo contado de um jeito mais sério, mais “adulto”.

Essas comparações poderiam, inclusive, ser vistas como uma quase alfinetada do autor, ou uma releitura com correções. É óbvio que a Universidade lembra Hogwarts, só que com uma estrutura diferente (e enquanto Kvothe é precoce e está lá com 15 anos, a gente tem que lembrar que o restante dos alunos é mais velho, com idade pra ser universitários). Seus momentos nas ruas, antes de ir pra lá, são muito tensos, bem realistas, bem a cara de livros do século XIX sobre injustiça social. Harry Potter teve uma infância boa e não sabia :P

Sobre o mundo em que Kvothe vive: como eu falei lá em cima, ele é baseado no nosso mundo real e nas nossas próprias lendas. Existem contos e histórias sobre o povo das fadas, que é razoavelmente mal visto por uma sociedade presa em preceitos religiosos (eles creem em Tehlu). A Universidade é relativamente mal vista, pois ensina pessoas a mexerem com artes das trevas melhor deixadas quietas (não sei como isso foi traduzido, mas eu ria toda vez que Kvothe ironizava a “dark magic better left alone”).

As próprias “mágicas” ensinadas na Universidade são extremamente científicas, se a gente comparar com outros livros de fantasia. Tudo é explicado como processos tão naturais quanto gravidade, magnetismo e afins, só que com um pouco mais de imaginação e um ponto de vista baseado em um mundo que não viveu Iluminismo e afins. Mas com um pouco menos de ceticismo e com muito mais possibilidades. Por exemplo: runas até conseguem unir dois tijolos, mas é uma coisa tão trabalhosa e complexa que é melhor usar cimento mesmo.

Claro que tem também a “mágica de verdade”, aquela que ninguém podia explicar, porque apenas é. Como chamar o nome do vento. E isso é sempre parte dos trechos mais misteriosos e cheios de suspense do livro, porque são assuntos que ninguém (nem eles nem a gente) entende.

Enfim, acho que nada do que eu falar vai fazer justiça ao quanto eu achei esse livro bom, com qualidade, extremamente bem feito, e com os temas exatos pra me prender. Além de ser um livro onde a base principal são as histórias (pronto, me ganhou). Tem personagens interessantes (o Bast é hilário), tem humor, tem uma estrutura que reage aos acontecimentos (um dos capítulos do jovem Kvothe é subitamente interrompido, e só depois a gente descobre que não foi nada demais: chegaram pessoas na estalagem e o Kvothe mais velho teve que parar de contar sua história).

Só o que eu posso fazer é dizer “LEIAM O NOME DO VENTO”. E colocar algumas poucas das muitas frases que eu destaquei porque adorei (vantagem de ler ebook em leitor é poder grifar sem estragar livro hahaha)

“There’s no good story that doesn’t touch the truth” (Não há boa história que não toque a verdade)

“Fear tends to come from ignorance” (Medo costuma vir da ignorância)

“That’s why stories appeal to us. They give us the clarity and simplicity our real lives lack.” (É por isso que histórias nos atraem. Elas nos dão a claridade a simplicidade que as nossas vidas não têm)

“It’s like everyone tells a story about themselves inside their own head. Always. All the time. That story makes you what you are. We build ourselves out of that story.” (É como se todo mundo contasse uma história pra si mesmo dentro da própria cabeça. Sempre. O tempo todo. Essa história te faz ser quem é. Nós nos construímos a partir dessa história)

E a melhor, porque Kvothe também é músico: "Music sounds different to the one who plays it. It is the musician's curse". (Música soa diferente pra quem toca. É a maldição do músico.)

Nome: The Name of the Wind - The King Killer Chronicle: Day One
Autor: Patrick Rothfus
Páginas: 764 (epub)
Nota no Skoob: 5/5

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Navio Dragão

Foto do meu instagram com as recompensas que eu recebi!


Ontem chegou aqui em casa dois livrinhos muuuuito legais: Navio Dragão e Carne, os dois resultantes de um projeto da Rebeca Prado no Catarse (uma plataforma de crowdfunding, esse negócio que muita gente anda discutindo por aí).

Receber o envelope de um jeito meio inesperado (porque eu esqueci que isso ia chegar hahaha) me fez pensar em algumas coisas.

A primeira é que eu adoro ficar caçando projeto pra apoiar no Catarse. Não sei se é só impressão, mas sempre acho que as coisas relacionadas à quadrinhos, livros, artes em geral estão mais concentradas lá.

A segunda é que cada projeto que eu vejo dando certo me empolga bastante, mesmo que eu nem conheço as pessoas envolvidas. Sabe, vou contar um “segredo” (não tão segredo assim haha) pra vocês: eu adoro essa área de criação e sempre tive vontade de entrar no meio dela. Sempre quis ser escritora, só pra poder tirar ideias que só ficam na minha cabeça e falar que fiz algo com elas. Só que como eu também tenho outras vontades e planos, esse lado fica um pouco abandonado ou guardado, e eu vou investindo nas “coisas de gente grande”.

Eu criei esse blog só pra poder fazer comentários sobre coisas que eu leio e nem sempre acho alguém pra comentar (não é fácil achar quem leu o mesmo livro que você como é fácil achar quem tenha visto o mesmo filme, né). Só que meu gosto sempre tende pra histórias de fantasia, ficção científica e coisas que exercitam bastante a imaginação das pessoas. E que, cada vez mais, eu vejo que são tidas pelas pessoas por aí como “coisa de criança”. Não existe um fã de quadrinhos ou literatura fantástica – só pra dar exemplo – que não tenha ouvido alguma pergunta ou comentário parecido com “que dia você vai crescer?”

Isso tudo me faz pensar que as vezes as pessoas boicotam a criatividade, a imaginação. O que pra mim é tristíssimo. Uma parte de mim ainda não desistiu de um dia botar minhas ideias de historinhas pra fora da minha cabeça e dividir com o mundo. Vai levar um tempinho só porque eu sou uma pessoa só e por enquanto to focando em treinar pra dividir outras coisas artísticas (eu sou cantora. Uma área artística só é pouco hehehe). A outra parte de mim resolveu que até lá vai apoiar e incentivar e dar a maior força possível pra quem já tá tentando dividir histórias. EU AMO HISTÓRIAS. Pra mim elas são a base de tudo.

E é por isso que eu me empolgo tanto com a seção de Quadrinhos do Catarse :P (Também fico imensamente feliz de ver que boa parte das coisas que eu pego por lá vem de BH, olha que lindeza!). Também é por isso que ano passado comecei uma jornada em busca de histórias de fantasia escritas por brasileiros. Por mais que umas não tenham me feito cair de amores, achei muito legal ver isso acontecendo, gente insistindo mesmo com dificuldades. Também é uma forma de ver diversidade, de ver um estilo que não é muito estabelecido no Brasil (pode não ser todo mundo, mas aposto que muita gente preferia ter lido uma Alice no País das Maravilhas ou um Harry Potter do que José de Alencar na quinta série) começar a ganhar espaço.

Resumindo: acompanhar e tentar apoiar como der esses projetos me ajuda a manter um pezinho firme no mundo das “coisas de criança”. Não quero nunca tirar ele de lá. :P

A terceira coisa que eu pensei é o quanto a Lif (personagem principal das tirinhas do Navio Dragão) acabou me ensinando sem querer. To tentando medir as palavras pra não parecer que to simplesmente puxando saco, mas rolou de verdade uma identificação e um aprendizado. 

A Lif é uma viking que fala o que vêm à cabeça, só que na maioria das vezes o que tem na cabeça dela não é algo que as pessoas considerariam agradável. Ela não se encaixa no protocolo, como disse a Júnia Prado no Prólogo do livro. Soa grossa, não sabe usar aquelas regrinhas básicas de convivência na sociedade, ser vista como gentil e simpática, como “toda mocinha deveria ser”. Me fez lembrar uma época em que muita gente me “apelidou carinhosamente” de hostil, porque na minha timidez e jeito travado, mantinha meio que sem querer/perceber a cara fechada, ou fazia algum comentário meio sem filtro (pois é hahaha). Nunca curti, sempre vi isso como algo que eu precisava corrigir, e acabei corrigindo bastante de uns anos pra cá, de fato. 

Mas o que a Lif me fez ver é que muito do que as pessoas fazem a gente achar que é um problema ou uma fraqueza pode ser, na verdade, a sua força, a sua marca. Achei fantástico o que a autora, a Rebeca Prado, conseguiu pegando uma série de características que (eu to chutando, hein! Não conheço a moça hahaha) provavelmente ela também tem que lidar, transformando dificuldades em uma obra super divertida, bonita (gente, eu adoro desenho e coisa colorida hahaha). Pegando uma série de coisas e transmutando tudo em algo produtivo, criativo e dividindo com o mundo. E levando ao extremo de um jeito engraçado (tipo evitar que a vila seja invadida simplesmente aparecendo no campo de visão dos invasores hahahah).

Não sei se foi sem querer ou pensado, mas também é genial que  a Lif seja justamente viking, um dos povos mais estereotipados como violentos, invasores e bárbaros na cultura ocidental (o que ninguém pode comprovar, já que eles não faziam registros e tudo o que sabemos sobre eles vêm do relato de outros povos).

Sobre a edição: adorei o livro, o formato, a qualidade de tudo. Não tem cara de “recompensa por colaboração”, mas de um produto bem pensado e feito com cuidado, que faz a gente querer continuar acompanhando o projeto mesmo depois de encerrada a campanha de colaborações. Adorei os brindes, principalmente a revista do Carne (o cachorro da Lif, gente!). E adorei a seção de colaboradores, com versões da Lif feitas por diversos ilustradores. Me desculpem todos vocês que fizeram versões fantásticas, mas a Miley Lif pendurada no machado reinou absoluta. hahahaha

Nome: Navio Dragão e Carne
Autora: Rebeca Prado
Páginas: 120
Nota no Skoob: 5/5