sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Nome do Vento


Já faz um bom tempo que eu ouvia (ou melhor, lia no facebook) “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento”, “leia O Nome do Vento” me perseguindo toda vez que eu falava de algum outro livro. Pois é, colega, você me convenceu.

Eu li O Nome do Vento.

E agora estou revoltada porque, se já não bastava o George Martin, agora tenho que ficar esperando outra série que não tem todos os livros publicados, só rumores de “dizem que sai em 2016”. :S
Mas tudo bem, eu ainda tenho o segundo livro da série pra ler enquanto espero o terceiro, ainda não existente...

Então, vamos aos comentários:

O Nome do Vento é o primeiro livro da série A Crônica do Matador do Rei. A série por enquanto só tem dois livros publicados, além de alguns contos baseados em personagens específicos.

O que eu posso dizer?

Posso começar falando que há muito tempo eu queria ler alguma coisa assim. Não é só uma história de fantasia, é uma história de fantasia bem estruturada, com um monte de coisas (bem) emaranhadas , que brinca com as nossas crenças e folclore, que usa as bases da nossa civilização (é, a do mundo real) pra criar um outro mundo. Tá, o que esse “outro mundo” tem de diferente do mundo de outros livros? Sinceramente, não sei te explicar direito. Leia e você vai saber do que eu to falando. É como se, ao invés de criar seres novos, mágicas nunca citadas em outras histórias, o autor tivesse pego tudo que a gente já tá cansado de ouvir por aí e inserido no mundo dos livros dele. Em alguns trechos, tive a sensação de estar lendo uma mistura de Shakespeare com Neil Gaiman (ou seja, Sandman - Sonho de uma Noite de Verão hahaha)

Mais fácil explicar enquanto falo da história (já adianto que eu li em inglês, então alguns termos eu não sei como foram traduzidos):

Só li um dos livros (por enquanto), mas já ficou claro que existem dois arcos. O primeiro é o de Kvothe, dono de uma estalagem em uma cidadezinha, contando sua história para Chronicler, que pretende descobrir a versão verdadeira sobre inúmeros rumores, fofocas e lendas sobre ele - tudo em meio a ataques de "demônios" (ou seres que a gente não entende e chama de demônios pra se sentir melhor). Aqui, tudo é contado em terceira pessoa, com o foco mudando para cada personagem que aparece – Kvothe mantém uma estalagem, ou seja, sempre tem um vai e vem de pessoas. O segundo arco é o da história contada pelo próprio Kvothe, falando sobre acontecimentos da sua infância, juventude e o que mais o levou a ser quem é. Aqui já é tudo em primeira pessoa, mas o legal é que ele interrompe o tempo todo pra contar outras histórias que ele ouviu por aí (ou seja, quase que vira terceira pessoa de novo).

Histórias são a base da série, já que Kvothe vêm dos Edema Ruh (sacaram, fãs de Nightwish?), uma espécie de “trupe” de artistas que viaja de cidade em cidade se apresentando e oferecendo entretenimento. Desde o começo já somos avisados que ele é um excelente ator e contador de histórias.

E aí está a parte genial. Como ele mesmo diz, as melhores lendas e fofocas sobre ele são as que ele mesmo inventou.

“You may have heard of me.”

A forma como as histórias dentro das histórias são entrelaçadas é genial. E é como se a gente estivesse lendo vários livros, um dentro do outro, mas interrompendo um pra ler um outro diferente, e por aí vai. Parece confuso, mas não é na prática.

Eu não consegui evitar fazer alguma comparação com outros livros, apesar de achar que a comparação por si só seria uma descrição pobre. Mas acho que serve pra exemplificar: o primeiro arco, com o Kvothe mais velho na estalagem (e que também tem mistérios que estão só começando) tem um tom mais sério, mas ainda assim fantástico, quase como A Guerra dos Tronos.  O segundo, com o jovem Kvothe pequeno com os Edema Ruh, depois mendigo nas ruas de Tarbean e, mais tarde, aluno precoce da Universidade, me lembrou uma mistura de Harry Potter com histórias de Mark Twain. Só que tudo contado de um jeito mais sério, mais “adulto”.

Essas comparações poderiam, inclusive, ser vistas como uma quase alfinetada do autor, ou uma releitura com correções. É óbvio que a Universidade lembra Hogwarts, só que com uma estrutura diferente (e enquanto Kvothe é precoce e está lá com 15 anos, a gente tem que lembrar que o restante dos alunos é mais velho, com idade pra ser universitários). Seus momentos nas ruas, antes de ir pra lá, são muito tensos, bem realistas, bem a cara de livros do século XIX sobre injustiça social. Harry Potter teve uma infância boa e não sabia :P

Sobre o mundo em que Kvothe vive: como eu falei lá em cima, ele é baseado no nosso mundo real e nas nossas próprias lendas. Existem contos e histórias sobre o povo das fadas, que é razoavelmente mal visto por uma sociedade presa em preceitos religiosos (eles creem em Tehlu). A Universidade é relativamente mal vista, pois ensina pessoas a mexerem com artes das trevas melhor deixadas quietas (não sei como isso foi traduzido, mas eu ria toda vez que Kvothe ironizava a “dark magic better left alone”).

As próprias “mágicas” ensinadas na Universidade são extremamente científicas, se a gente comparar com outros livros de fantasia. Tudo é explicado como processos tão naturais quanto gravidade, magnetismo e afins, só que com um pouco mais de imaginação e um ponto de vista baseado em um mundo que não viveu Iluminismo e afins. Mas com um pouco menos de ceticismo e com muito mais possibilidades. Por exemplo: runas até conseguem unir dois tijolos, mas é uma coisa tão trabalhosa e complexa que é melhor usar cimento mesmo.

Claro que tem também a “mágica de verdade”, aquela que ninguém podia explicar, porque apenas é. Como chamar o nome do vento. E isso é sempre parte dos trechos mais misteriosos e cheios de suspense do livro, porque são assuntos que ninguém (nem eles nem a gente) entende.

Enfim, acho que nada do que eu falar vai fazer justiça ao quanto eu achei esse livro bom, com qualidade, extremamente bem feito, e com os temas exatos pra me prender. Além de ser um livro onde a base principal são as histórias (pronto, me ganhou). Tem personagens interessantes (o Bast é hilário), tem humor, tem uma estrutura que reage aos acontecimentos (um dos capítulos do jovem Kvothe é subitamente interrompido, e só depois a gente descobre que não foi nada demais: chegaram pessoas na estalagem e o Kvothe mais velho teve que parar de contar sua história).

Só o que eu posso fazer é dizer “LEIAM O NOME DO VENTO”. E colocar algumas poucas das muitas frases que eu destaquei porque adorei (vantagem de ler ebook em leitor é poder grifar sem estragar livro hahaha)

“There’s no good story that doesn’t touch the truth” (Não há boa história que não toque a verdade)

“Fear tends to come from ignorance” (Medo costuma vir da ignorância)

“That’s why stories appeal to us. They give us the clarity and simplicity our real lives lack.” (É por isso que histórias nos atraem. Elas nos dão a claridade a simplicidade que as nossas vidas não têm)

“It’s like everyone tells a story about themselves inside their own head. Always. All the time. That story makes you what you are. We build ourselves out of that story.” (É como se todo mundo contasse uma história pra si mesmo dentro da própria cabeça. Sempre. O tempo todo. Essa história te faz ser quem é. Nós nos construímos a partir dessa história)

E a melhor, porque Kvothe também é músico: "Music sounds different to the one who plays it. It is the musician's curse". (Música soa diferente pra quem toca. É a maldição do músico.)

Nome: The Name of the Wind - The King Killer Chronicle: Day One
Autor: Patrick Rothfus
Páginas: 764 (epub)
Nota no Skoob: 5/5

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