terça-feira, 18 de agosto de 2015

A Música do Silêncio


“Fulcro havia quebrado. Mas isso não era errado. Ovos são quebrados. Quebra-se a ferocidade dos cavalos selvagens para domá-los. Ondas quebram. É claro que Fulcro havia quebrado. De que outro modo alguém tão certo-centrado poderia soltar suas respostas perfeitas no mundo? Algumas coisas eram simplesmente corretas demais para se manter.”

Já no prefácio o autor alerta que talvez esse livro não seja para nós, nos preparando para uma possível decepção com a leitura. No final, ao contar sobre as circunstâncias em que ele foi publicado, ele pede desculpas se por acaso o livro não agradou.

De fato, esse livro não é para qualquer um, não apenas por ser derivado de uma série de livros (é um livro sobre Auri, personagem de O Nome do Vento), dificultando a leitura se você não é familiarizado com os personagens e o universo já criado. Essa história não é para qualquer pessoa porque não é uma história nos moldes tradicionais, com elementos pensados para entreter e prender, cenas de ação, romance e afins.

A Música do Silêncio é sobre uma pessoa quebrada, que sabe que não tem tudo certinho lá dentro, e que por isso se dedica a permanecer pequena e imperceptível pelo mundo.

Auri, a protagonista e única personagem humana, é alguém que, ao lidar com questões misteriosas, acabou descobrindo um segredo: a verdade contida no coração de todas as coisas no mundo. Ao estudar alquimia, algo que se dedica a alterar coisas e dobrar o mundo à sua vontade, ela acabou se deparando com o peso disso.

Auri percebeu que é errado, muito errado querer impor sua vontade ao mundo, e as consequências que isso trás. E, como repete a história inteira, vale a pena fazer as coisas direito, ainda que não seja como a gente deseja. Tentar impor, mandar e alterar desencadeia uma sequência de coisas que podem ser desastrosas. Cada coisa tem seu lugar, e é preciso saber ver isso.

Na nota final do autor, ao pedir desculpas pela história nada convencional e provavelmente decepcionante, Patrick Rothfuss fala sobre os comentários que ouviu de pessoas que leram a história. A maioria delas o surpreendeu dizendo que não só tinha gostado, como se identificado com Auri. Eram pessoas que entenderam os motivos para Auri se isolar e se esforçar para ser pequena e invisível, que se identificaram com o isolamento e a sensação de ser diferente.

Não é um livro muito fácil nem leve, realmente. Mas eu gostei de ver uma história dando atenção ao que se passa no interior das pessoas, às questões que muitas vezes fazem com que elas não se encaixem mais. É como se o autor estivesse desviando a tal jornada do herói daquele caminho convencional de vencer monstros e sair vencedor. Alguns personagens (como algumas pessoas) têm caminhos diferentes. Um ponto de vista interessante e que destoa no meio de tantas outras histórias de fantasias – que é o contexto em que Auri vive, mesmo que a gente esqueça disso às vezes.


Eu recomendo a leitura do livro sim, claro! Não sei como ela poderia ser aproveitada sem a leitura de O Nome do Vento e O Temor do Sábio antes, mas imagino que não seja tão difícil. Os próprios nomes das coisas e dos lugares são nomes que Auri deu de acordo com a “clima” ou a “energia” deles, então não acho que tenha alguma confusão além da que faz parte da cabeça dela. E isso é o que dá graça pra história!

P.S.: O nome original do livro é The Slow Regard of Silent Things, que eu achei bem mais poético do que a versão em português (coisa normal de acontecer, já que línguas diferentes tem sonoridades diferentes, né). Mas enfim, li em português porque comprei o livro por impulso, depois de ver a capa bonita na livraria hehehe (as edições brasileiras estão com capas lindas, às vezes melhores que as edições estrangeiras, porque investiram em ilustrações de Marc Simonetti, o mesmo cara que fez as capas brasileiras dos livros de George Martin) 

Nome: A Música do Silêncio
Autor: Patrick Rothfuss
Páginas: 144
Editora: Arqueiro
Nota no Skoob: 5/5

domingo, 9 de agosto de 2015

O Temor do Sábio


Estou órfã. :S

Não, não se preocupem! Estou órfã de livros... Esse é o termo que a gente usa quando termina uma leitura e se vê expulsa daquele outro mundo fantástico onde passou muito tempo imersa. Quando sabemos que não vamos mais ter a companhia de um (ou vários) personagem maravilhoso com a qual a gente se identificou/ se apaixonou/ virou fã.

Já fiquei órfã de livros muitas, mas muuuuuitas outras vezes. Mas fazia tempo que não sentia tanto o término de uma leitura.

Desculpa o texto enoooorme, mas o blog é meu e eu escrevo o quanto eu quiser quando me empolgar com algum livro! :P  (Lembro também que to escrevendo nomes e títulos em português aqui, mas li versão epub em inglês - mesmo tendo comprado livro físico da edição brasileira)

O Temor do Sábio é o segundo livro da série Crônicas do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss, mais conhecido como “a sequência de O Nome do Vento”. Sem sombra de dúvidas, afirmo e reafirmo que achei esse segundo volume ainda melhor que o primeiro (que já é muito bom). Talvez porque já esteja num ponto em que não só o protagonista – e outros personagens – já foi apresentado, já deixando caminho livre pra gente se identificar, escolher lados, e por aí vai. Talvez porque agora sim vemos a vida de Kvothe “fluir”, acompanhamos os processos que fazem a versão jovem dele ser mais parecida com a versão mais velha, que é quem narra toda a história.

Pois é, a estrutura continua a mesma: Kote, versão disfarçada de estalajadeiro do grande e famosíssimo e encrenqueiro herói – ou anti-herói, depende do capítulo – Kvothe (também conhecido por um monte de outros nomes), conta sobre sua vida para o Cronista, que está registrando tudo para publicação, e para Bast, seu aprendiz. Nesse segundo volume temos mais informações, mais habilidades sendo aprendidas, mais acontecimentos definidores de caráter. Temos Kvothe aprendendo a lutar com o povo de Adem, que eu achei fantástico, temos sua “iniciação no mundo das mulheres”, temos sua crescente facilidade em chamar o nome do vento, e um monte de coisas mais.

Temos também mais um monte da “enrolação” com a sua amada Denna, que às vezes me deixa sem paciência, mas depois ameniza, quando o autor faz a gente ver que existe uma razão pra duas pessoas com uma história de vida difícil e meio quebrada não se transformarem num casalzinho clichê de Hollywood, mas terem muita dificuldade pra assumirem o que sentem. Denna, inclusive, deve ser um desafio pra homens machistas que venham a ler o livro...

Devo ressaltar, de novo, e sempre:

Kvothe, como ele mesmo sempre faz questão de repetir, veio dos Edema Ruh, que não são simplesmente uma trupe, mas A TRUPE, o grupo de verdadeiros artistas fantásticos e talentosos, cujas habilidades são difíceis de superar. Além disso, já nasceu meio geniozinho, tendo uma memória fabulosa e uma facilidade absurda pra aprender, o que faz dele um exímio ator, músico e contador de histórias (e outras coisinhas).

Ou seja: um mentiroso profissional e um aparecido de marca maior. Desde o início do primeiro livro ele próprio nos alerta que ajudou sua fama a crescer, acrescentando um boatozinho aqui, um elemento mágico ali. Desconfie de tudo!

Junte-se a isso sua habilidade para atrair encrencas e seu temperamento impulsivo e estourado, já apresentado na forma da sua aparência: cabelo vermelho rebelde como fogo e olhos verdes vivos que mudam de tom de acordo com seu humor. 

A parte mais legal está justamente aí: para mostrar o quanto Kvothe (cuja pronúncia é como em “quote”, termo em inglês para citação – sacou? Hein? Hein?) é bom nisso, o autor usa todas as artimanhas possíveis pra contar a história, seja na forma como as coisas acontecem, seja na escrita e na estrutura do texto em si. Patrick Rothfuss consegue provocar no leitor o mesmo efeito que Kvothe provoca em quem o escuta cantar e tocar: quase um torpor, uma hipnose, uma imersão tão grande que quando a gente é acordado dela, parece que o mundo perdeu um pouco da graça.

Aliás, se você for músico, leia o livro. Acho que nunca um escritor de ficção entendeu tanto a nossa vida hahaha Kvothe se mostra apreensivo pra aprender a lutar por medo de machucar os dedos e não poder mais tocar, se preocupa com ínfimos detalhes de interpretação, execução, tem taquicardia em pensar em qualquer coisa acontecendo com o alaúde, usa a voz forte de barítono pra conseguir certos "efeitos" nas pessoas. E vem da classe mais baixa e ralé da sociedade, tendo que lidar com pessoas que não dão a mínima e ainda desvalorizam seu talento... Mas continua com seu orgulho e fazendo questão de um mínimo de qualidade em sua música (e o mínimo dele é muito alto, viu). 

Há momentos em que a gente se vê mergulhado numa melancolia absurda. Kvothe ainda carrega enterrado dentro de si a perda abrupta e ainda não explicada da família inteira, seguida de três anos completamente sozinho mendigando em uma cidade grande, fedorenta e extremamente cruel. Pois é, não existe cartinha mágica de Hogwarts. Aqui, o menino órfão de enorme potencial precisa primeiro ser retirado do torpor e conseguir lutar e correr atrás da sua tão sonhada vaga na Universidade. E não tem conta bancária rechonchuda: ele tem que trabalhar e fazer por merecer, e passar muito aperto pra se manter investindo no sonho e nos planos futuros. Mas é assim que ele acaba vivendo as maiores aventuras, tanto as tensas quanto as empolgantes, e aprendendo um monte de coisas, além de ganhar habilidades (como a facilidade de andar em telhados e se esgueirar, vinda dos dias de menino de rua).

Há outros – vários – momentos em que ficamos bravos, enfurecidos ou impulsivos como ele. Quando ficamos alegres nos poucos momentos em que ele está assim. E por aí vai.

Me senti quase uma estudante de kung fu durante a estadia dele entre os Ademre, onde aprendeu a lutar (pra mim o estilo de luta deles, filosofia inclusa, me lembrou Kung Fu - só que em versão nórdica haha -, mas não sei outros leitores). Um pouquinho. Como um bebê. Mas melhor que os bárbaros (as pessoas comuns). Sério gente, o povo de Adem foi uma das melhores sacadas, com toda uma abordagem diferente da que a gente está acostumada nessa sociedade: com os costumes mais pacíficos, liberais, práticos e bem mais sábios, uma visão completamente diferente e superior das mulheres e uma filosofia fantástica de vida, o resto do mundo é visto por eles como bárbaros.

Eu sei que o texto já tá enorme, mas preciso comentar aqui que nunca vi uma cena de sexo tão poética, fantástica e mágica quanto nesse livro. Não só é lindo de ler, como é genial: você não esperava que um herói tão inacreditável como Kvothe fosse “se iniciar” nesse quesito com menos do que A lenda do povo das fadas, Felurian, criatura mágica sedutora, irresistível, terrível, responsável pela morte e desaparecimento de milhares de homens ao longo da história, assunto de canções e histórias, motivo de medo em toda a humanidade, né? Muito menos que ele seria mais um desses homens que se perdem para sempre depois de ser enfeitiçados por uma criatura mágica. Dá vontade de rir e bater palmas pro autor! 

Concluindo: virei super mega fã da série, mesmo que ainda incompleta; me identifiquei com Kvothe ao ponto de ter alterações de humor baseadas nas “tretas” em que ele vivia (o que foi aquele momento em que, drogado por um inimigo, ele revive sem querer cenas do passado com a família e consegue chorar um pouco depois de anos, e é consolado pela Auri? #chorei); to aflita com uns momentos em que o autor já entrega um pouco do final da história, e por aí vai.

Pelo menos tem o livro spin off da Auri pra me consolar mais um poquinho...

(Antes das piadinhas: não, não me identifiquei com o Kvothe por causa do cabelo "hehehe". Teve muito mais a ver com o temperamento mesmo :P )

Quero dizer também que as capas das edições britânicas são muito legais, mas a editora Arqueiro caprichou nas versões brasileiras, viu? Curti!

Nome: The Wise Man's Fear
Autor: Patrick Rothfuss
Páginas: 1107 (no epub)
Editora: Arqueiro (no Brasil)
Nota no Skoob: 5/5