domingo, 9 de agosto de 2015

O Temor do Sábio


Estou órfã. :S

Não, não se preocupem! Estou órfã de livros... Esse é o termo que a gente usa quando termina uma leitura e se vê expulsa daquele outro mundo fantástico onde passou muito tempo imersa. Quando sabemos que não vamos mais ter a companhia de um (ou vários) personagem maravilhoso com a qual a gente se identificou/ se apaixonou/ virou fã.

Já fiquei órfã de livros muitas, mas muuuuuitas outras vezes. Mas fazia tempo que não sentia tanto o término de uma leitura.

Desculpa o texto enoooorme, mas o blog é meu e eu escrevo o quanto eu quiser quando me empolgar com algum livro! :P  (Lembro também que to escrevendo nomes e títulos em português aqui, mas li versão epub em inglês - mesmo tendo comprado livro físico da edição brasileira)

O Temor do Sábio é o segundo livro da série Crônicas do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss, mais conhecido como “a sequência de O Nome do Vento”. Sem sombra de dúvidas, afirmo e reafirmo que achei esse segundo volume ainda melhor que o primeiro (que já é muito bom). Talvez porque já esteja num ponto em que não só o protagonista – e outros personagens – já foi apresentado, já deixando caminho livre pra gente se identificar, escolher lados, e por aí vai. Talvez porque agora sim vemos a vida de Kvothe “fluir”, acompanhamos os processos que fazem a versão jovem dele ser mais parecida com a versão mais velha, que é quem narra toda a história.

Pois é, a estrutura continua a mesma: Kote, versão disfarçada de estalajadeiro do grande e famosíssimo e encrenqueiro herói – ou anti-herói, depende do capítulo – Kvothe (também conhecido por um monte de outros nomes), conta sobre sua vida para o Cronista, que está registrando tudo para publicação, e para Bast, seu aprendiz. Nesse segundo volume temos mais informações, mais habilidades sendo aprendidas, mais acontecimentos definidores de caráter. Temos Kvothe aprendendo a lutar com o povo de Adem, que eu achei fantástico, temos sua “iniciação no mundo das mulheres”, temos sua crescente facilidade em chamar o nome do vento, e um monte de coisas mais.

Temos também mais um monte da “enrolação” com a sua amada Denna, que às vezes me deixa sem paciência, mas depois ameniza, quando o autor faz a gente ver que existe uma razão pra duas pessoas com uma história de vida difícil e meio quebrada não se transformarem num casalzinho clichê de Hollywood, mas terem muita dificuldade pra assumirem o que sentem. Denna, inclusive, deve ser um desafio pra homens machistas que venham a ler o livro...

Devo ressaltar, de novo, e sempre:

Kvothe, como ele mesmo sempre faz questão de repetir, veio dos Edema Ruh, que não são simplesmente uma trupe, mas A TRUPE, o grupo de verdadeiros artistas fantásticos e talentosos, cujas habilidades são difíceis de superar. Além disso, já nasceu meio geniozinho, tendo uma memória fabulosa e uma facilidade absurda pra aprender, o que faz dele um exímio ator, músico e contador de histórias (e outras coisinhas).

Ou seja: um mentiroso profissional e um aparecido de marca maior. Desde o início do primeiro livro ele próprio nos alerta que ajudou sua fama a crescer, acrescentando um boatozinho aqui, um elemento mágico ali. Desconfie de tudo!

Junte-se a isso sua habilidade para atrair encrencas e seu temperamento impulsivo e estourado, já apresentado na forma da sua aparência: cabelo vermelho rebelde como fogo e olhos verdes vivos que mudam de tom de acordo com seu humor. 

A parte mais legal está justamente aí: para mostrar o quanto Kvothe (cuja pronúncia é como em “quote”, termo em inglês para citação – sacou? Hein? Hein?) é bom nisso, o autor usa todas as artimanhas possíveis pra contar a história, seja na forma como as coisas acontecem, seja na escrita e na estrutura do texto em si. Patrick Rothfuss consegue provocar no leitor o mesmo efeito que Kvothe provoca em quem o escuta cantar e tocar: quase um torpor, uma hipnose, uma imersão tão grande que quando a gente é acordado dela, parece que o mundo perdeu um pouco da graça.

Aliás, se você for músico, leia o livro. Acho que nunca um escritor de ficção entendeu tanto a nossa vida hahaha Kvothe se mostra apreensivo pra aprender a lutar por medo de machucar os dedos e não poder mais tocar, se preocupa com ínfimos detalhes de interpretação, execução, tem taquicardia em pensar em qualquer coisa acontecendo com o alaúde, usa a voz forte de barítono pra conseguir certos "efeitos" nas pessoas. E vem da classe mais baixa e ralé da sociedade, tendo que lidar com pessoas que não dão a mínima e ainda desvalorizam seu talento... Mas continua com seu orgulho e fazendo questão de um mínimo de qualidade em sua música (e o mínimo dele é muito alto, viu). 

Há momentos em que a gente se vê mergulhado numa melancolia absurda. Kvothe ainda carrega enterrado dentro de si a perda abrupta e ainda não explicada da família inteira, seguida de três anos completamente sozinho mendigando em uma cidade grande, fedorenta e extremamente cruel. Pois é, não existe cartinha mágica de Hogwarts. Aqui, o menino órfão de enorme potencial precisa primeiro ser retirado do torpor e conseguir lutar e correr atrás da sua tão sonhada vaga na Universidade. E não tem conta bancária rechonchuda: ele tem que trabalhar e fazer por merecer, e passar muito aperto pra se manter investindo no sonho e nos planos futuros. Mas é assim que ele acaba vivendo as maiores aventuras, tanto as tensas quanto as empolgantes, e aprendendo um monte de coisas, além de ganhar habilidades (como a facilidade de andar em telhados e se esgueirar, vinda dos dias de menino de rua).

Há outros – vários – momentos em que ficamos bravos, enfurecidos ou impulsivos como ele. Quando ficamos alegres nos poucos momentos em que ele está assim. E por aí vai.

Me senti quase uma estudante de kung fu durante a estadia dele entre os Ademre, onde aprendeu a lutar (pra mim o estilo de luta deles, filosofia inclusa, me lembrou Kung Fu - só que em versão nórdica haha -, mas não sei outros leitores). Um pouquinho. Como um bebê. Mas melhor que os bárbaros (as pessoas comuns). Sério gente, o povo de Adem foi uma das melhores sacadas, com toda uma abordagem diferente da que a gente está acostumada nessa sociedade: com os costumes mais pacíficos, liberais, práticos e bem mais sábios, uma visão completamente diferente e superior das mulheres e uma filosofia fantástica de vida, o resto do mundo é visto por eles como bárbaros.

Eu sei que o texto já tá enorme, mas preciso comentar aqui que nunca vi uma cena de sexo tão poética, fantástica e mágica quanto nesse livro. Não só é lindo de ler, como é genial: você não esperava que um herói tão inacreditável como Kvothe fosse “se iniciar” nesse quesito com menos do que A lenda do povo das fadas, Felurian, criatura mágica sedutora, irresistível, terrível, responsável pela morte e desaparecimento de milhares de homens ao longo da história, assunto de canções e histórias, motivo de medo em toda a humanidade, né? Muito menos que ele seria mais um desses homens que se perdem para sempre depois de ser enfeitiçados por uma criatura mágica. Dá vontade de rir e bater palmas pro autor! 

Concluindo: virei super mega fã da série, mesmo que ainda incompleta; me identifiquei com Kvothe ao ponto de ter alterações de humor baseadas nas “tretas” em que ele vivia (o que foi aquele momento em que, drogado por um inimigo, ele revive sem querer cenas do passado com a família e consegue chorar um pouco depois de anos, e é consolado pela Auri? #chorei); to aflita com uns momentos em que o autor já entrega um pouco do final da história, e por aí vai.

Pelo menos tem o livro spin off da Auri pra me consolar mais um poquinho...

(Antes das piadinhas: não, não me identifiquei com o Kvothe por causa do cabelo "hehehe". Teve muito mais a ver com o temperamento mesmo :P )

Quero dizer também que as capas das edições britânicas são muito legais, mas a editora Arqueiro caprichou nas versões brasileiras, viu? Curti!

Nome: The Wise Man's Fear
Autor: Patrick Rothfuss
Páginas: 1107 (no epub)
Editora: Arqueiro (no Brasil)
Nota no Skoob: 5/5

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