domingo, 18 de outubro de 2015

A Colina Escarlate


A Colina Escarlate (Crimson Peak)

“Ghosts are real. This much I know.”

Assim começa o filme que me deixou morrendo de saudades da faculdade de Letras! S2
Pelos trailers e outros materiais de divulgação que vi, parece que o filme estava sendo vendido como ‘filme de terror’, o que me deixou com um pé atrás no início.

MAAAASSS:

  • 1       Era Guillermo Del Toro
  •       Tinha o Tom Hiddleston e Jessica Chastain S2 (não é ~só~ puxa-saquismo de fã, é confiança de que atores bons escolhem coisas legais pra fazer)
  •       O visual nos trailers tava INCRÍVEL. É Del Toro, né? (já falei isso, eu sei)


Na sala de cinema, já descobrindo do que a coisa toda se tratava, fui constatando, aprendendo, percebendo e pescando um monte de coisas. Uma delas é que não se trata muito do que o mercado atual chama de “filmes de terror” (ainda bem). Mas é sim uma história fantástica, das bem feitas.

O filme é não só um apanhado de referências, mas uma homenagem enorme aos e contos romances góticos do século XIX. Não só está cheio de citações diretas como usa o cenário ou a fotografia pra fazer alusões a histórias famosas do estilo. Mas não fica só nisso, porque a visão atual está lá, e toda a inocência romântica fica por conta apenas da protagonista – que tem motivos pra ser assim).

Edith (Mia Wasikowska), a donzela, é escritora, e tudo começa quando ela está tentando mostrar seu livro às pessoas e conseguir que ele seja publicado. E é óbvio que quebra as expectativas de todos que esperam que ela escreva romances no estilo de Jane Austen, já que ela na verdade criou outra coisa: não uma história de fantasmas, mas uma história com fantasmas nela. “Os fantasmas são uma metáfora para o passado”, ela diz, e aí está o primeiro adiantamento do que está por vir (mais uma saudadezinha das aulas de literatura hehehe).

O passado é o que rege os irmãos Sharpe (Tom Hiddelston e Jessica Chastain), que surgem na vida de Edith com propósitos “obscuros”. Não é spoiler dizer porque é óbvio que tem coisa errada aí. Aliás, toda a história pode ser deduzida por quem prestar atenção às referências e às pistas que surgem já no início do filme. A casa dos Sharpe, por exemplo, está afundando literal e metaforicamente, e o filme mostra isso não apenas no desespero dos irmãos, como na visão da casa enorme, nobre e afastada da civilização se afundando na lama vermelha (é, que nem a casa já caída do Usher hehehe). 

A história também passeia entre a Inglaterra e a América, deixando a coisa meio dupla, dividida entre o lado bom e o mau: a América é a terra de Edith, é onde pessoas boas trabalharam duro e melhoraram de vida (como seu pai), enquanto a Inglaterra é a terra dos Sharpe, do passado que volta, da casa que afunda, da decadência...

Enfim, não to aqui pra fazer press release nem crítica de nariz empinado, então só digo que tá cheio de referências legais de “pescar” no filme, e nenhuma delas vem solta, o que eu achei super legal. Sério, isso me empolga hahaha. Uma simples menção a Arthur Conan Doyle na verdade é um adiantamento de que alguém vai dar uma de Sherlock Holmes. Um comentário crítico com cara de alfinetada socialite na verdade quase adianta o final do filme (Mary Shelley!), e por aí vai.

E como estamos no século XIX, com muita gente gostando de racionalizar e analisar tudo por aí, tem até Freud na história: o motivo de Edith ser ingênua e cair tão fácil na armadilha (e nós, do público, só não gritamos pra tela um “deixa de ser retardada” porque o filme prende e a gente quer saber onde isso vai dar) tem a ver com ela ter sido privada do pai antes da hora certa. Só quando ela amadurece ela consegue se livrar do problema todo, com a ajuda do mocinho certo.

Isso sem contar na “treta” dos Sharpe, que é bem mundo real mesmo, o que acaba surpreendendo, de certa forma.

E é meio contos de fadas também, que tiveram seu auge justamente no século XIX (quando a maioria foi publicada, revisada, reescrita, reeditada, etc e tal): a mãe de Edith já está morta desde o início do filme (spoiler fail haha), mas continua tendo o papel de protegê-la, mesmo que indiretamente. Quase como a fada madrinha (que era sim uma versão da mãe, né). Só que mais macabra aqui hehehehe

Acho que talvez esse lado conto de fadas aliviou um pouco o peso da história, o lado "horror" de tudo. Edith não segue necessariamente o caminho das donzelas em perigo, mas sim o das protagonistas dos contos: se vê sozinha e ameaçada, enfrenta um monte de desafios terríveis (com a ajuda de seu fiel bichinho companheiro, o "cachorro zumbi" - apelidei assim hahaha), e no fim sai fortalecida, vencendo o mal ameaçador. 

Pois é, dei um spoiler indireto: o final é razoavelmente feliz. Talvez algumas pessoas não gostem, porque esperam algo mais assustador e terrível. Mas eu achei que a mistura de referências, as fontes variadas e as homenagens a diversos estilos literários do século XIX fez tudo ficar ótimo e divertido!

E sim, o Doug Jones continua fazendo todas as criaturas fantásticas de filmes do Del Toro :P

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