sábado, 26 de dezembro de 2015

Vidas Breves


Uma das coisas que mais acho legal nos Perpétuos, os personagens do Neil Gaiman que aparecem na série Sandman, é que eles mostram perspectivas diferentes pra “coisas” que a gente costuma ver de uma forma definitiva e específica. Por exemplo, sempre curti imensamente a Morte, porque ela é a mais simpática e bem humorada entre eles, e isso quebrava aquele clima de ‘a morte é trágica e terrível’ que 99,9% das histórias que a gente conhece têm.

Os Perpétuos são uma espécie de personificação de aspectos que fazem parte da nossa existência – Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (que já foi Deleite antes). Em Sandman, as histórias giram em torno do Sonho (óbvio, né, o nome da história é Sandman :P). Só que tudo é dividido em arcos, que foram publicados em edições próprias depois que a série acabou.

Esse mês fui a São Paulo ver o show do David Gilmour (como muitas outras pessoas foram; o avião parecia até excursão) e aproveitei pra dar uma voltinha na Livraria Cultura, só pra não perder a tradição. Eu não tinha muito tempo, só um pedacinho da manhã seguinte, logo antes de ir pro aeroporto pra voltar pra casa. Mas o Destino (olha a piadinha) quis que eu tentasse e acabasse encontrando uma edição de Brief Lives em inglês com um descontão (tava “de R$99 por R$30 – ok, eu arredondei pq não lembro os valores exatos, mas vcs entenderam) e não resistisse à compra. Nem o vendedor conteve o espanto e perguntou “como assim esse preço?”

Enfim, eu to numa fase de mudanças na vida em que ler Brief Lives caiu como uma luva. Me fez focar a atenção no personagem Destruição, que eu já achava bem curioso antes. É muito importante lembrar que Destruição aqui não tem a ver só com tragédia, coisas explodindo e se desfazendo, perdas. Não tem a ver com a Morte também. Destruição é o que acontece depois dessas coisas: mudanças. Algo que, como está na história, TODO MUNDO resiste e morre de medo.

A diferença desse arco para os outros de Sandman é que quem guia a história não é mais apenas o Sonho, mas Delírio. É ela que tem a ideia inicial e leva todo mundo na jornada, e isso acaba dando um tom infantil, espontâneo, meio sem sentido e colorido. E acaba que essa abordagem é o que conta, pois foge do que estamos acostumados. Ironicamente, ao final das contas todo mundo sai mudado, menos a própria Delírio (que já é inconstante e não muito estável).

Brief Lives não é uma história muito fácil pra quem nunca ouviu falar de Sandman e os Perpétuos. É um dos últimos arcos, já anunciando o final da revista, e por isso não perde tempo apresentando ninguém, só explicando e revelando novas facetas. As únicas coisas apresentadas são as mudanças.

Acho que foi uma das minhas histórias preferidas de Sandman, talvez porque gosto desse clima colorido e maluco provocado tanto pela presença forte de Delírio quanto pelos desenhos da Jill Thompson. E por tocar no assunto mudanças, que eu acho interessantíssimo.

Uma das coisas que me chamou atenção é que um dos pontos mais importantes da história é perigosíssimo de traduzir pro português. Queria saber como foi feito nas edições brasileiras: Gaiman começa a história admitindo que na Terra existem alguns seres humanos que se lembram dos dinossauros, do cheiro dos mamutes, da transformação dos gases em um planeta, e por aí vai. Até que vemos um deles morrer em um acidente, e pensar “ainda não!” mesmo já tendo vivido 15 mil anos. Quando esse personagem encontra a Morte e diz que não foi nada mal, viveu bastante, ela responde que ele teve o que todo mundo tem, um tempo de vida.

Em inglês, o termo “lifetime”, que pra mim teve uma carga mais interessante do que “tempo de vida”. O que a Morte quis dizer é que não interessa se foram 30, 70 ou 15 mil anos, você teve o seu tempo tanto quanto qualquer outra pessoa. E isso faz com que todo tempo parece breve, independente da duração.


Todas as vidas são breves e sujeitas à destruições inevitáveis. E isso tá longe de ser algo ruim. :)

Nome: Sandman - Brief Lives
Autor: Neil Gaiman
Arte: Jill Thompson e Vince Locke
Capa e design: Dave McKean
Páginas: 168
Editora: Vertigo
Nota no Skoob: 5/5

Nenhum comentário:

Postar um comentário