quarta-feira, 18 de maio de 2016

Felizmente, o Leite


Pra manter a tradição, da última vez que topei sem querer com um livro do Neil Gaiman, comprei. Felizmente, o Leite é um livro relativamente recente do autor, publicado em 2013. Pode parecer que já tem tempo, mas pra quem tava acostumada a pedir livro em inglês e esperar a demora pra entregar porque não existiam traduções para o português do Brasil, to achando que as editoras locais aprenderam a prestar atenção no autor. É, eu sei que tem todo o papo de ler na língua original pra ter contato mais direto com o estilo do autor, mas o fato é que boa parte de eu ter lido vários dos livros do Gaiman  em inglês também vem de não existirem livros dele em português, o que os deixaria mais acessíveis nas estantes das livrarias (e me pouparia de uns meses de espera).

Felizmente, o Leite é um livro para o público infanto-juvenil, daqueles com aventuras que parecem não ter pé nem cabeça para os adultos. No Brasil, foi publicado pela Rocco Jovens Leitores, e tem ilustrações de Skottie Young.

Na história, um pai precisa comprar leite para o café da manhã dos filhos (e para o seu chá), mas acaba demorando muito para voltar da mercearia e precisando se explicar. Acreditar nessa explicação fica a seu critério – e, pra ajudar caso você fique na dúvida, os filhos dele deixam bem claro que não acreditam, porque é tudo muito absurdo. Enfim, você é quem sabe. Mas envolve wumpiros, dinossauros espaciais e uns piratas. E, claro, o leite.

Logo no início do livro vemos as dedicatórias do escritor e do ilustrador, ambos dedicando o trabalho a seus pais. Não só por causa desse detalhe, mas pela forma como a explicação é conduzida, li o livro inteiro pensando no filme Peixe Grande, do Tim Burton, uma homenagem do diretor ao seu pai, contador de histórias absurdas e fantásticas, o que, no fim das contas, o inspirou e influenciou em seu trabalho. Ao mesmo tempo em que a explicação do pai para a demora em trazer o leite parece absurda e muito “viajada”, a gente (público crescidinho) percebe um pouco do esforço do pai em atrair o interesse das crianças, da tentativa de colocar um pouco mais de imaginação na vida delas. É muito legal pensar nisso durante a leitura!

Nome: Felizmente, o Leite
Autor: Neil Gaiman
Ilustrações: Skottie Young
Editora: Rocco Jovens Leitores
Páginas: 128
Nota no Skoob: 4/5 

domingo, 24 de abril de 2016

Bazar de livros usados ou Como criar coragem pra desapegar e se livrar dos seus livros


Já faz algum tempo que criei um álbum no meu facebook oferecendo objetos que não uso mais por preço de bazar. A ideia surgiu porque eu precisava levantar uma grana na mesma época em que comecei a ficar incomodada com meu quarto cheio de coisas. Tenho essa mania de esvaziar meu armário e gavetas de tempos em tempos, querendo abrir espaço pra energias novas me livrando das acumuladas. Todo objeto me cansa depois de um tempo. Minhas mãos coçam pra mudar ele de lugar ou mesmo para tirar ele dali de vez.

Só que dessa vez o incômodo apareceu na parede onde fica minha escrivaninha. Além de uma bancada grande com um armário pequeno e um gaveteiro, toda vez que a encaro dou de cara com duas caixas de plástico no chão, abarrotadas de papel (experimentem ter duas faculdades além de ser músicos e ter que guardar partitura, vai!), além de três prateleiras entupidas de livros – uma delas tem o comprimento da parede toda. Não vou mencionar que tem livros numa parte da escrivaninha também, porque não coube nas estantes. Pra coroar, a parede é pintada de roxo, num tom forte, o que dá a impressão de excesso de informações.

No momento atual, me pareceu bem natural me desfazer de alguns dos livros expostos pra abrir espaço. O interior dos armários e gavetas já está explodindo de tanta partitura, Xerox, documentos, objetos em geral e por aí vai, então guardá-los não é opção. O negócio é passar pra frente mesmo. Eu poderia doar alguns, mas outros estão em tão bom estado que se juntam à necessidade de arrumar um dinheirinho extra, então resolvi tentar a sorte e vender.

Outro dia, uma amiga comentou comigo que não teria coragem. E isso me fez pensar...

Eu também não teria coragem, se fosse há alguns meses atrás. Acho que tudo depende do momento da vida e do nosso “estado psicológico”.

Veja só: conheço um monte de gente que consome livros como consome roupas. Ou mais. Só que nem todos realmente leem esses livros. Pois é, livros também contam pela aparência, pelo design, pela decoração. Livros também contam só por estarem lá. Não é que a pessoa queira exibir que tem muitos, é que tê-los dá um certo conforto, uma empolgação, uma vontade de sentir o cheiro, tatear e olhar as capas bonitas (meio raras no mercado editorial brasileiro, mas ok), e por aí vai. Talvez seja bem mais difícil abrir mão de livros nessa situação. Se é a presença física deles que conta, a ausência física é muito mais sentida.

Não é o meu caso, pelo menos nesse momento. Livros pra mim são conteúdo. São histórias, são pontos de vista, são universos que existem em dimensões paralelas. Os meus universos paralelos preferidos vão continuar com seu lugar cativo nas estantes, mas outros podem se mudar.

Óbvio que não vou abrir mão de um livrozinho sequer do Tolkien ou do Gaiman. Mesmo quando surgem edições novas mais bonitas e resistentes, eu ainda prefiro a sensação daquela edição de “O Senhor dos Anéis” fuleira e imunda que tá na prateleira, porque foi o primeiro livro que eu li, porque foi quando eu aprendi a nunca mais emprestar livro que eu goste muito (pois é, eu sou hiper cuidadosa, não fui eu que deixou ela “fuleira e imunda”), porque eu acho a capa mais legal que a das edições que andaram circulando por aí, etc e tal.

O negócio pra saber de quais livros dá pra abrir mão é esse: quais precisam de matéria e quais podem ser só dados, informações.  Minha estante está lotada de livros que eu gosto, mas sei que não vou ler de novo tão cedo. Tenho certeza. Mesmo que aquela vozinha lá dentro diga “ah, mas vai que”. E outros que eu até posso querer ler de novo um dia, mas não preciso mais tê-los à disposição no meu quarto. E alguns são tão comuns que é fácil pedir emprestado ou passar numa biblioteca.

Além disso, hoje em dia a gente tem a tecnologia. Que é meio magia também. Eu tenho um Kobo, que é um leitor digital parecido com tablet, mas com tela branca que não cansa a vista, pra quem não sabe. E meu Kobo tem espaço pra 30 mil arquivos em formato epub, pdf, Word e outros. Pros arquivos da Amazon, que têm formato diferente (mobi), tem aplicativo do Kindle no celular e computador. Vários dos livros que ocupam espaço aqui eu comprei pelo apego ao cheiro do papel, mas li no formato digital em inglês (porque curto ler o original). Ou seja, eu curto a ideia deles, mas nunca fiz muita questão da parte material.



Pra mim não faz sentido aquela história de livros digitais ameaçarem livros físicos. É tudo uma questão de estratégia e escolhas: compramos os preferidos, deixamos os outros no Kobo ou computador. Se rola compulsão por comprar livros só por comprar, mesmo sem ler, tentamos descobrir o que leva aquilo, já que compulsão é compulsão e deve ter algo por trás (vai saber). Se gostamos muito de algum livro, se ele teve um papel importantíssimo pra nós, mas sabemos que ele não será lido mais porque a fase da vida é outra, deixamos a vida seguir seu fluxo e passamos ele pra alguém que crie uma nova história com ele. Vai que sua doação/venda faz diferença na vida de alguém?

No mais, é sempre bom abrir espaço pra livros novos. Energia acumulada sendo limpa e abrindo espaço pra energia nova, lembra?

É assim que, essa semana, vão embora da estante os livros do George R.R. Martin (o plano é daqui uns anos, SE saírem os dois livros que faltam, comprar um Box com livros menores, porque estes aqui são tijolões), a trilogia de Jogos Vorazes (que eu realmente achei muito melhor ler em inglês no Kobo) e mais alguns variados, além de DVDs e CDs de bandas que eu curtia muito mas já estão no Spotify.


Escolhas que a gente faz na vida :D

quinta-feira, 31 de março de 2016

Excalibur


Com um pouco de correria, acabei de ler o último volume da trilogia As Crônicas de Artur. A sensação é bem essa de fim mesmo. Já comecei a leitura com clima de despedida, de finalização. Ao contrário de outras trilogias, onde o terceiro volume costuma ser o que cria mais expectativas, já que promete a resolução de vários mistérios e pendências, aqui a gente começa a leitura com medo de acabar, pois o mais importante não é como as coisas se resolvem, mas o fato de que a história de Artur está terminando.

Durante os três livros, acompanhamos Derfel narrando a história do amigo para a Rainha Igraine, enquanto escreve para que ela possa ter registro dos verdadeiros fatos (ainda que ela queira alterar uma coisinha ou outra, pra tudo ficar mais bonito e mais emocionante). No terceiro livro, sabemos que Derfel já está acabando, e dá vontade de pedir que ele conte mais, não pare por aí.

Sem spoilers, preciso dizer que acho que o arco não poderia ter um final melhor. A história de Artur não acaba simplesmente, ela meio que evapora e deixa espaço pra que a gente imagine. O que não deixa de ser verdade: se até hoje nos perguntamos se Artur existiu mesmo, se foi como nas histórias que ouvimos, é porque a história tá mais viva e em curso do que nunca. Também é uma forma de evitar final clichê, com excesso de heroísmo e romantismo e sei lá o que mais. Ao mesmo tempo, Bernard Cornwell mantém as partes icônicas do mito, não decepcionando quem já era fã da história de Artur, independente da versão que ouviu.

Enfim, o livro acabou e Artur partiu. Fica a sensação de despedida, mas também a sensação de “será que nos veremos mais uma vez?” que Cornwell deixa. Gostei muito mais assim!


(e como já disse, pra mim a história verdadeira agora é a desse livro hehe)

E que venham as leituras de TCC agora! :S

Nome: Excalibur
Autor: Bernard Cornwell
Páginas: 532
Editora: Record
Nota no Skoob: 5/5

terça-feira, 1 de março de 2016

O Inimigo de Deus


Acabei de ler o primeiro volume da série As Crônicas de Artur e não me aguentei, tive que dar um jeito de ler a sequência. Como estou em contenção de despesas, consegui emprestado com uma amiga-xará e já to quase conseguindo devolver...

O Inimigo de Deus é, como dá pra deduzir pelo parágrafo acima, o segundo volume de As Crônicas de Artur, série de Bernard Cornwell. Como uma outra amiga comentou, já estou num ponto em que a história narrada aqui já virou a “história verdadeira” na minha cabeça. Pra mim o verdadeiro Artur foi esse do livro, e seus verdadeiros companheiros também.

Por que? Porque a narrativa é inteira construída de forma a dar a impressão de que pretende desfazer enganos, mal entendidos e absurdos inventados ao longo da história só para agradar leitores/ouvintes. Não apenas no conteúdo, mas na estrutura: o narrador, Derfel, tem que enfrentar o tempo todo a incredulidade de sua ouvinte, a Rainha Igraine, pois ela prefere as versões com mágica, dragões e guerreiros romantizados ao invés da verdade, que muitas vezes pode ser cruel, ou pior, sem graça. 

Enquanto faz isso, Cornwell joga na nossa cara alguns costumes e crenças da época, e eu adoro o jeito que ele faz isso: quase “des-romantizando” os pagãos, que tem sim todo aquele lado celta que muitos hoje em dia adoram e idealizam, mas isso também inclui urinar no chão pra quebrar feitiços, cuspir no chão para afastar o mal, cometer injustiças pra seguir juramentos, e por aí vai. Não falo isso como crítica, mas pra lembrar que era um mundo real também, com vantagens e defeitos. Da mesma forma, o autor lembra que o Cristianismo não se espalhou na Inglaterra através de um líder malvadão e ganancioso que decretou “destruam os templos pagãos”. Ele foi quase uma febre, se espalhando de boca em boca, aproveitando as fraquezas e vulnerabilidades de um povo que queria se sentir seguro e acreditar em algo. Ou seja, virou fanatismo e perdeu o controle. Mas claro, também vemos na história que dos dois lados existem pessoas “boas” e pessoas “más”, como o herói Gahalad, cristão, ou Tanaburs, druida perverso.

(deixo claro que minha abordagem é essa porque, pelo menos entre as minhas convivências e timeline do facebook, tem sempre alguém achando que cristianismo é sinônimo de fanático intolerante e que os celtas eram lindos e gentis. Claro que tem gente que vive num contexto oposto ao meu, então é só inverter a lógica aí, tá?)

O título desse volume é a forma como Artur passa a ser visto pelos cristãos por ser pagão e por tolerar não-cristãos num momento em que estes crescem em número e em fanatismo, por acreditarem que Jesus voltaria à Terra em quatro anos. E aí vem as dificuldades (treta!). E esse momento coincide com o momento em que Artur perde a ingenuidade com relação a algumas coisas, o que o deixa mais duro, de certa forma, tendo que tomar atitudes drásticas em algumas situações.

Outra coisa legal é que o segundo livro não serve apenas como continuação da história dos mesmos personagens, mas apresenta outros tão interessantes quanto (eu queria muito ver mais sobre o Diwrnach psicopatão hahaha).

Só não curti a parte em que Cornwell resolveu recontextualizar Tristão e Isolda, porque me pareceu desconectado da história, solto, e aí ficou forçado. Quase como se ele quisesse escrever um livro sobre essa história também, mas tivesse preguiça e aí enfiou no outro livro que tivesse mais a ver.

Mas to curtindo! Bom que o terceiro volume já tá aqui do lado também!

Autor: Bernard Corwell
Páginas: 518
Editora Record

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Cinderella, No Limite e O Regresso


Cinderella

Faz um tempão que to com o filme pra assistir mas enrolava. Confesso, tava com preconceito porque não curti muito essas adaptações recentes de filmes da Disney pra live-action. Falem o que quiser, mas achei a Malévola forçadíssima, estilo "angelina-fodona-vamos-ser-girl-power-uhuuu", e a Branca de Neve eu nem comento. A da Lily Collins até ficou "divertidinha", mas aquele outro filme (que é mais do caçador do que dela) só tem uma única coisa que não é péssima, a Charlize Theron. hahaha 
O negócio é que eu tava afim de assistir algum filme leve e que me entretesse, e a Cinderella conseguiu fazer isso e ainda me deixar com astral pra cima. É daqueles contos de fadas com mágica, beleza e inocência, com visual e efeitos lindos contribuindo pra isso. Acho que só não vemos as meninas vestidas de Cinderella dominando o mundo porque o filme deu o azar de sair na mesma época que Frozen... 
O roteiro teve algumas coisas que eu achei desnecessárias, tipo a discussão sobre o príncipe ter que se casar com uma princesa, obrigatoriamente. Acho que colocaram aquilo pra tentar dar mais veracidade pra história, já que os casamentos da realeza envolvem política no mundo real. Mas esse filme não precisava de veracidade, principalmente depois de colocar referências à diversas versões antigas da história, fugindo da obrigatoriedade de se parecer com o filme da Disney de 1950. Até a música que a personagem canta nessa versão - dilly dilly! - é mil vezes melhor que a música do rouxinol na animação antiga. Podiam trocar isso por dar mais atenção ao galho que o pai traz para a filha (que, em alguns contos, vira uma árvore que se torna a "base" da fada madrinha, os desejos e a magia da história), ou pro ensinamento da mãe, que é o que mantém Cinderella firme mesmo com os sofrimentos. Gostei também que o nome "Cinderella" teve explicação, com direito a brincar com o trocadilho da palavra "cinder" e o nome da personagem, Ella, e não foi tão jogado.
Enfim, confesso que o tanto que eu não dava atenção à Cinderella-desenho-da-Disney eu dei pra esse filme. Me fez gostar da personagem, parabéns! (e que vestido maravilhoso é esse, olha ele rodopiando na valsa, cara!)




No Limite (The Edge)

No início de janeiro, quando estava na praia, vi um trechinho rápido do filme na tv da pousada e anotei o nome pra assistir depois (eu tinha que curtir as férias, né, gente?) Por que eu quis ver? Porque ANTHONY HOPKINS, fim. 
Além da vibe anos 1990 (que eu adoro porque me lembra infância - alô Kevin!) e do ator mais legal de todos os tempos Hollywoodianos, fiquei apaixonada pela paisagem! Gente, quero ir pras montanhas do Alaska também! Sem me perder, claro. A história não era tão surpreendente, eu ia adivinhando o que estava por vir toda hora, mas acho que a intenção era outra mesmo: acompanhar a tensão entre os dois personagens e sua evolução ao longo do filme. Curti!



O Regresso (The Revenant)

Eu não vou muito com a cara do Leonardo Dicaprio (não, nem na época do Titanic), não sei porque, mas admito que ele faz uns filmes bons. Se ele vai ou não ganhar o Oscar eu não sei (e confesso que se ganhar eu vou achar que foi só por pressão da torcida), mas curti o filme! Pela sinopse eu imaginei uma perseguição mais clichê e cheia de ação, mas esqueci que o filme era do Iñarritu e que esse cara só faz filme pra concorrer ao Oscar. A fotografia é linda, as imagens da floresta, da natureza selvagem (já contextualizando a história) são maravilhosas. 
E preciso dizer que fiquei um bom tempo olhando pra cara do Tom Hardy e falando "esse cara é maluco! MA-LU-CO!", além de ter certeza que ele tá muito mais Mad Max aqui do que no filme do Mad Max (que eu curti demais, deixo claro). 
Também fiquei prestando atenção em algumas coisas que o Leandro Karnal falou no facebook, como a cena do cavalo ser freudiana, os índios não serem romantizados e a natureza ser sempre neutra, entre outras coisas, e acabei achando o filme mais interessante do que eu esperava!
Mas o ponto é todo pro Iñarritu, viu!

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O Rei do Inverno


No final do ano passado, ganhei um exemplar de O Rei do Inverno, de Bernard Cornwell, primeiro volume da série As Crônicas de Artur. Foi meio que a vida falando "vai, filhinha, para de falar que tem vontade e lê isso logo". Tinha uma outra leitura na frente, um festival inteiro que não me deu tempo nem de respirar (que dirá ler), mas de volta e, enfim de férias, li, em uma semana. 

Tô órfã. Preciso dos próximos volumes! O saldo bancário não me deixa fazer estripulias no momento pra comprar, então tenho que traçar estratégias. Por enquanto, to no dilema "comecei a ler em portugês, será que vou estranhar muito se arrumar um epub em inglês?" 

Veremos.

Só posso dizer que essa versão da história do famoso Rei Artur (que aqui não é exatamente "rei" e talz) é tão bem escrita e bem contada que me fez comprar como se fosse a versão real. Claro que não existe versão real da história de Artur, já que ninguém tem nenhuma informação além de discussões sem fim e polêmicas, mas de vez em quando alguém acerta o jeito de contar e consegue quase nos convencer.

Acho que o que o Cornwell fez de melhor pra conseguir conquistar o leitor nesse sentido foi não só colocar um narrador que presenciou os fatos desmentindo as lendas romantizadas (ele já tem que ficar dizendo que Lancelot não era o bravo cavaleiro das histórias, Camelot tinha outro nome, e por aí vai), mas contar os fatos "originais" com tanta precisão, oferecendo uma alternativa que parece menos fantasiosa do que as que estamos acostumadas. É muito mais legal ler sobre Artur como um cara com qualidades extraordinárias, que fazem a gente querer conhecer ele pessoalmente imediatamente, mas ainda assim, um cara real, com defeitos, do que imaginar um semideus na Terra...

Também curti a forma como mostram as religiões. Toda vez que vemos uma versão da história, o Cristianismo passa como um trator maligno varrendo tradições pacíficas idealizadas sem consideração, tipo novela mexicana. Sabemos que o Cristianismo foi imposto de uma forma não muito legal no mundo, sabemos que a Idade das Trevas tem esse nome porque foi "treta" e por aí vai, mas tava me incomodando essa romantização das crenças antigas, esse clima de "vamos todos ser wicca e fingir que as coisas daquele povo se aplica à nossa vida hoje em dia". 

No livro não é assim. Cornwell coloca tanto o Deus único como os Deuses pagãos como dois lados de uma moeda, cada um com vantagens e defeitos, e sempre mostrando que eles são tão humanos quanto as pessoas que acreditam neles. Algumas coisas funcionam ou não pras pessoas, mas tudo ainda obedece a forma de pensamento deles, que é simplória ao ponto de "se um soldado chega numa fazenda e quiser pegar tudo lá pra ele, ele pode, porque ele é mais forte e fim". 

Pra mim, foi também uma forma legal de pensar no tanto que a humanidade "evoluiu", por mais que as pessoas adorem gritar "já deu, para o mundo que eu quero descer" e por aí vai. Pelo menos hoje em dia as pessoas se questionam do porque fazem algumas coisas... hahaha

Enfim, comecei o texto achando que não ia conseguir escrever nada, mas acabei falando até demais, né? Pois quero as sequências. Não me mandem ler livros até eu conseguir ler o que acontece com o pessoal. :P

Nome: As Crônicas de Artur - O Rei do Inverno
Autor: Bernard Cornwell
Páginas: 546
Editora: Record
Nota no Skoob: 5/5

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A Arte de Pedir


Minha primeira leitura de 2016 não poderia ser mais significativa. Um livro sobre conectar, sobre estar disponível, sobre confiar. 

A Arte de Pedir, da Amanda Palmer.

Pra começar, eu confesso que nunca fui muito interessada ou conhecedora do trabalho da Amanda. Já tinha ouvido falar vagamente dela, e sabia da existência do The Dresden Dolls, banda que fez ela “crescer” e ficar mais conhecida.

Amanda Palmer entrou na minha vida, inicialmente, porque se casou com meu autor preferido, e ele ficava divulgando coisas dela nas redes sociais hahaha. Essas coisas me interessaram, e eu comecei a seguí-la no Twitter.

Aí veio a palestra dela no TED Talk (se quiser assistir, clique AQUI), que mais tarde originou esse livro. E aí, não só eu entendi melhor o funcionamento da conta dela no Twitter (melhor ferramenta de conexão entre pessoas), como ela entrou bem mais na minha vida...

Neste livro, ela conta um pouco da vida dela, que é bem interessante, mas focando na parte da ligação entre as pessoas. No ato de pedir.

Basicamente, pedir nos faz pensar em ajuda. Só que muitas vezes a gente confunde pedir com mendigar, e é aí que está o problema: pedir vira sinal de fracasso, e aí a gente tem medo. A verdade é que nós não sabemos pedir, e quanto menos a gente sabe, mais a gente estraga esse ato e arruína a possibilidade de ajuda.

As vezes, a ajuda já é oferecida pelo universo, cai no nosso colo, mas a gente se recusa a aceitar. Porque não nos achamos merecedores. Porque “ainda não dói o suficiente” (palavras dela.

Eu não vou conseguir passar pra esse texto o tanto que o livro mexeu comigo, como deve ter mexido com outras pessoas. Aposto que muita gente se identificou quando ela falou sobre as dificuldades dela, ou das dificuldades dos outros quando ela conseguia fazer coisas do tipo. Achei fantástico como ela formou uma quase uma sociedade paralela de ajuda mútua e amigos e mais coisas legais, constituída basicamente de fãs dela.

E aí é preciso destacar: os fãs da Amanda Palmer não são tipo fãs da Beyoncé, não são pessoas que admiram uma “divindade inalcançável”. São pessoas que descobriram músicas que falam com eles, com as quais se identificam, e que acabam descobrindo que a artista que as compôs responde os contatos, dá abraços, publica sua localização na internet e fala “quem estiver de bobeira vem cá bater um papo ou fazer uma festa”.

São pessoas que querem ou precisam desesperadamente ser vistas. A maioria pessoas tidas como “esquisitas” e que são de alguma forma, excluídas. E a Amanda os vê, e aí surge um laço impressionante.

Enfim, isso tudo foi pra mostrar que é isso que ela fala no livro: sobre a diferença entre ser visto e ser olhado, sobre conectar, sobre o papel dos artistas nessas coisas. Se você é artista, por favor, NÃO DEIXE DE LER. Sério.

Ela fala também sobre a tal “Patrulha da Fraude”, que é o nome que ela deu pra Síndrome do Impostor, quando a gente se acha falso e não confia que tem direito de receber pelo que está fazendo. Sobre o medo de deixar alguém entrar e vê-la de verdade, mesmo que ela seja a rainha de ver e se conectar com pessoas desconhecidas.

Sobre como pedir também é uma forma de deixar os outros ajudarem, porque é mais educado e gentil do que exigir.

Sobre olhar nos olhos.

(caso você já tenha se preocupado, esse é o tchan da sobrancelha dela: é um resquício de quando ela pintava a cara de branco no The Dresden Dolls, pra fazer com que a olhassem no rosto durante o show e as chances de cruzar olhares e “ver” aumentassem. Hoje ela não pinta a cara, mas as pessoas olham a sobrancelha hehehe)

Ela fala sobre as diferentes fases, ou diferentes abordagens da arte e dos artistas: coletar (ou observar e vivenciar o mundo pra colher pontos), conectar o que foi observado (ou juntar os pontos) e compartilhar (distribuir impressões sobre o que foi conectado). Músicos e artistas performáticos geralmente são os compartilhadores. E compartilhar exige uma CORAGEM absurda. E as vezes a gente tem que pedir ajuda com isso.

Ela fala sobre a coragem de aceitar as rosquinhas. Tem vez que a gente até consegue pedir, mas não consegue aceitar a ajuda. Aceitar o presente, a flor.

Também sobre as dificuldades, as merdas que acontecem (e se você estranhou eu escrever "merda", se prepara pro livro :P), sobre as polêmicas de gente que não entende certas conexões e o efeito delas. E como não entender isso faz com que as pessoas fiquem violentas e agressivas e percam a noção das coisas. E como a gente se atinge.

Sobre como essas coisas todas podem acontecer, sobre como elas podem influenciar a forma como a arte e a música (especificando o que ela faz) pode tirar proveito disso. Sobre crowdfunding, que muita gente tem recorrido como forma de financiar suas produções, e que tem surpreendido. Sobre como muita gente não entendeu o que faz com que as pessoas financiem projetos de crowdfunding, e sobre como esse financiamento, que é ajuda, não cai do céu e não é mágico. (E sobre como isso tudo pode causar uma mega confusão e mais incompreensão.)

Enfim, como eu já disse, não dá pra falar tudo, todas as impressões. Parece que começar a ler o livro fez alguma engrenagem funcionar na minha cabeça, que acabou movimentando outras engrenagens, e agora tem muita coisa funcionando e precisando ser processada. Além de mais uma forma de ver artistas como pessoas reais (cara, eu nunca fui de endeusar ninguém, MESMO, mas foi tão estranho ver alguém falando do Neil Gaiman como ela fala, como um cara com inseguranças, altas travas e dificuldades, muitas coisas legais e por aí vai hahahaha)

Recomendo altamente a leitura, principalmente se você é interessado (ou precisa urgentemente ter contato com) em pontos de vista diferentes do seu, se identificar e tentar se convencer que pedir não é um crime e não machuca, ver que existem formas diferentes de conexão entre as pessoas e todas as coisas do mundo, formas que a gente nem imagina e que surpreendem mesmo.

Tudo girando em torno de uma coisa simples, mas dificílima de ter de verdade:

Confiança.

Nome: A Arte de Pedir - Ou como aprendi a não me preocupar mais e a deixar as pessoas ajudarem
Autora: Amanda Palmer
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Nota no Skoob: 5/5