segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A Arte de Pedir


Minha primeira leitura de 2016 não poderia ser mais significativa. Um livro sobre conectar, sobre estar disponível, sobre confiar. 

A Arte de Pedir, da Amanda Palmer.

Pra começar, eu confesso que nunca fui muito interessada ou conhecedora do trabalho da Amanda. Já tinha ouvido falar vagamente dela, e sabia da existência do The Dresden Dolls, banda que fez ela “crescer” e ficar mais conhecida.

Amanda Palmer entrou na minha vida, inicialmente, porque se casou com meu autor preferido, e ele ficava divulgando coisas dela nas redes sociais hahaha. Essas coisas me interessaram, e eu comecei a seguí-la no Twitter.

Aí veio a palestra dela no TED Talk (se quiser assistir, clique AQUI), que mais tarde originou esse livro. E aí, não só eu entendi melhor o funcionamento da conta dela no Twitter (melhor ferramenta de conexão entre pessoas), como ela entrou bem mais na minha vida...

Neste livro, ela conta um pouco da vida dela, que é bem interessante, mas focando na parte da ligação entre as pessoas. No ato de pedir.

Basicamente, pedir nos faz pensar em ajuda. Só que muitas vezes a gente confunde pedir com mendigar, e é aí que está o problema: pedir vira sinal de fracasso, e aí a gente tem medo. A verdade é que nós não sabemos pedir, e quanto menos a gente sabe, mais a gente estraga esse ato e arruína a possibilidade de ajuda.

As vezes, a ajuda já é oferecida pelo universo, cai no nosso colo, mas a gente se recusa a aceitar. Porque não nos achamos merecedores. Porque “ainda não dói o suficiente” (palavras dela.

Eu não vou conseguir passar pra esse texto o tanto que o livro mexeu comigo, como deve ter mexido com outras pessoas. Aposto que muita gente se identificou quando ela falou sobre as dificuldades dela, ou das dificuldades dos outros quando ela conseguia fazer coisas do tipo. Achei fantástico como ela formou uma quase uma sociedade paralela de ajuda mútua e amigos e mais coisas legais, constituída basicamente de fãs dela.

E aí é preciso destacar: os fãs da Amanda Palmer não são tipo fãs da Beyoncé, não são pessoas que admiram uma “divindade inalcançável”. São pessoas que descobriram músicas que falam com eles, com as quais se identificam, e que acabam descobrindo que a artista que as compôs responde os contatos, dá abraços, publica sua localização na internet e fala “quem estiver de bobeira vem cá bater um papo ou fazer uma festa”.

São pessoas que querem ou precisam desesperadamente ser vistas. A maioria pessoas tidas como “esquisitas” e que são de alguma forma, excluídas. E a Amanda os vê, e aí surge um laço impressionante.

Enfim, isso tudo foi pra mostrar que é isso que ela fala no livro: sobre a diferença entre ser visto e ser olhado, sobre conectar, sobre o papel dos artistas nessas coisas. Se você é artista, por favor, NÃO DEIXE DE LER. Sério.

Ela fala também sobre a tal “Patrulha da Fraude”, que é o nome que ela deu pra Síndrome do Impostor, quando a gente se acha falso e não confia que tem direito de receber pelo que está fazendo. Sobre o medo de deixar alguém entrar e vê-la de verdade, mesmo que ela seja a rainha de ver e se conectar com pessoas desconhecidas.

Sobre como pedir também é uma forma de deixar os outros ajudarem, porque é mais educado e gentil do que exigir.

Sobre olhar nos olhos.

(caso você já tenha se preocupado, esse é o tchan da sobrancelha dela: é um resquício de quando ela pintava a cara de branco no The Dresden Dolls, pra fazer com que a olhassem no rosto durante o show e as chances de cruzar olhares e “ver” aumentassem. Hoje ela não pinta a cara, mas as pessoas olham a sobrancelha hehehe)

Ela fala sobre as diferentes fases, ou diferentes abordagens da arte e dos artistas: coletar (ou observar e vivenciar o mundo pra colher pontos), conectar o que foi observado (ou juntar os pontos) e compartilhar (distribuir impressões sobre o que foi conectado). Músicos e artistas performáticos geralmente são os compartilhadores. E compartilhar exige uma CORAGEM absurda. E as vezes a gente tem que pedir ajuda com isso.

Ela fala sobre a coragem de aceitar as rosquinhas. Tem vez que a gente até consegue pedir, mas não consegue aceitar a ajuda. Aceitar o presente, a flor.

Também sobre as dificuldades, as merdas que acontecem (e se você estranhou eu escrever "merda", se prepara pro livro :P), sobre as polêmicas de gente que não entende certas conexões e o efeito delas. E como não entender isso faz com que as pessoas fiquem violentas e agressivas e percam a noção das coisas. E como a gente se atinge.

Sobre como essas coisas todas podem acontecer, sobre como elas podem influenciar a forma como a arte e a música (especificando o que ela faz) pode tirar proveito disso. Sobre crowdfunding, que muita gente tem recorrido como forma de financiar suas produções, e que tem surpreendido. Sobre como muita gente não entendeu o que faz com que as pessoas financiem projetos de crowdfunding, e sobre como esse financiamento, que é ajuda, não cai do céu e não é mágico. (E sobre como isso tudo pode causar uma mega confusão e mais incompreensão.)

Enfim, como eu já disse, não dá pra falar tudo, todas as impressões. Parece que começar a ler o livro fez alguma engrenagem funcionar na minha cabeça, que acabou movimentando outras engrenagens, e agora tem muita coisa funcionando e precisando ser processada. Além de mais uma forma de ver artistas como pessoas reais (cara, eu nunca fui de endeusar ninguém, MESMO, mas foi tão estranho ver alguém falando do Neil Gaiman como ela fala, como um cara com inseguranças, altas travas e dificuldades, muitas coisas legais e por aí vai hahahaha)

Recomendo altamente a leitura, principalmente se você é interessado (ou precisa urgentemente ter contato com) em pontos de vista diferentes do seu, se identificar e tentar se convencer que pedir não é um crime e não machuca, ver que existem formas diferentes de conexão entre as pessoas e todas as coisas do mundo, formas que a gente nem imagina e que surpreendem mesmo.

Tudo girando em torno de uma coisa simples, mas dificílima de ter de verdade:

Confiança.

Nome: A Arte de Pedir - Ou como aprendi a não me preocupar mais e a deixar as pessoas ajudarem
Autora: Amanda Palmer
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Nota no Skoob: 5/5