terça-feira, 1 de março de 2016

O Inimigo de Deus


Acabei de ler o primeiro volume da série As Crônicas de Artur e não me aguentei, tive que dar um jeito de ler a sequência. Como estou em contenção de despesas, consegui emprestado com uma amiga-xará e já to quase conseguindo devolver...

O Inimigo de Deus é, como dá pra deduzir pelo parágrafo acima, o segundo volume de As Crônicas de Artur, série de Bernard Cornwell. Como uma outra amiga comentou, já estou num ponto em que a história narrada aqui já virou a “história verdadeira” na minha cabeça. Pra mim o verdadeiro Artur foi esse do livro, e seus verdadeiros companheiros também.

Por que? Porque a narrativa é inteira construída de forma a dar a impressão de que pretende desfazer enganos, mal entendidos e absurdos inventados ao longo da história só para agradar leitores/ouvintes. Não apenas no conteúdo, mas na estrutura: o narrador, Derfel, tem que enfrentar o tempo todo a incredulidade de sua ouvinte, a Rainha Igraine, pois ela prefere as versões com mágica, dragões e guerreiros romantizados ao invés da verdade, que muitas vezes pode ser cruel, ou pior, sem graça. 

Enquanto faz isso, Cornwell joga na nossa cara alguns costumes e crenças da época, e eu adoro o jeito que ele faz isso: quase “des-romantizando” os pagãos, que tem sim todo aquele lado celta que muitos hoje em dia adoram e idealizam, mas isso também inclui urinar no chão pra quebrar feitiços, cuspir no chão para afastar o mal, cometer injustiças pra seguir juramentos, e por aí vai. Não falo isso como crítica, mas pra lembrar que era um mundo real também, com vantagens e defeitos. Da mesma forma, o autor lembra que o Cristianismo não se espalhou na Inglaterra através de um líder malvadão e ganancioso que decretou “destruam os templos pagãos”. Ele foi quase uma febre, se espalhando de boca em boca, aproveitando as fraquezas e vulnerabilidades de um povo que queria se sentir seguro e acreditar em algo. Ou seja, virou fanatismo e perdeu o controle. Mas claro, também vemos na história que dos dois lados existem pessoas “boas” e pessoas “más”, como o herói Gahalad, cristão, ou Tanaburs, druida perverso.

(deixo claro que minha abordagem é essa porque, pelo menos entre as minhas convivências e timeline do facebook, tem sempre alguém achando que cristianismo é sinônimo de fanático intolerante e que os celtas eram lindos e gentis. Claro que tem gente que vive num contexto oposto ao meu, então é só inverter a lógica aí, tá?)

O título desse volume é a forma como Artur passa a ser visto pelos cristãos por ser pagão e por tolerar não-cristãos num momento em que estes crescem em número e em fanatismo, por acreditarem que Jesus voltaria à Terra em quatro anos. E aí vem as dificuldades (treta!). E esse momento coincide com o momento em que Artur perde a ingenuidade com relação a algumas coisas, o que o deixa mais duro, de certa forma, tendo que tomar atitudes drásticas em algumas situações.

Outra coisa legal é que o segundo livro não serve apenas como continuação da história dos mesmos personagens, mas apresenta outros tão interessantes quanto (eu queria muito ver mais sobre o Diwrnach psicopatão hahaha).

Só não curti a parte em que Cornwell resolveu recontextualizar Tristão e Isolda, porque me pareceu desconectado da história, solto, e aí ficou forçado. Quase como se ele quisesse escrever um livro sobre essa história também, mas tivesse preguiça e aí enfiou no outro livro que tivesse mais a ver.

Mas to curtindo! Bom que o terceiro volume já tá aqui do lado também!

Autor: Bernard Corwell
Páginas: 518
Editora Record

2 comentários:

  1. Oi, Redd! Estou para ler esta série há anos. Faz um tempão, dei um box com os três livros de aniversário para o marido e ele leu, mas eu não. Eita XD.

    Achei muito interessante isso que você falou sobre "des-romantizar" os pagãos, porque também observo essa tendência nos círculos que eu frequento (claro que existe o outro extremo). É como se o cristianismo fosse todo o mal do mundo e tivesse passado como um rolo compressor em cima de povos pacíficos e idílicos, com culturas maravilhosas de paz. Eu mesma já tive meu período de pensar assim, lá na adolescência, mas lembro que um dia li "Os Príncipes da Irlanda", um romance histórico sobre o surgimento de Dublin, e tive esse "despertar", percebendo que havia coisas boas e ruins dos dois lados e que quando se trata de ser humano, nada é simples. Mais do que isso, percebi porque o cristianismo acabou sendo um "hit" em uma época em que as pessoas estavam vulneráveis e precisavam de algo em que confiar. Fora que na Irlanda, por exemplo, esse movimento se deu de uma maneira muito peculiar, com a cultura celta e cristã meio que se fundindo em um catolicismo próprio, muito mais "místico", digamos.

    Enfim, desculpe o textão XD. É que esse é um assunto que me interessa e achei legal a maneira como você abordou no texto.

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    1. hehehe eu gosto de tudo que desmistifica tudo! Adoro versões alternativas com outros pontos de vista! Enfim, aproveita o box do marido e lê também, é muito bom!

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