domingo, 24 de abril de 2016

Bazar de livros usados ou Como criar coragem pra desapegar e se livrar dos seus livros


Já faz algum tempo que criei um álbum no meu facebook oferecendo objetos que não uso mais por preço de bazar. A ideia surgiu porque eu precisava levantar uma grana na mesma época em que comecei a ficar incomodada com meu quarto cheio de coisas. Tenho essa mania de esvaziar meu armário e gavetas de tempos em tempos, querendo abrir espaço pra energias novas me livrando das acumuladas. Todo objeto me cansa depois de um tempo. Minhas mãos coçam pra mudar ele de lugar ou mesmo para tirar ele dali de vez.

Só que dessa vez o incômodo apareceu na parede onde fica minha escrivaninha. Além de uma bancada grande com um armário pequeno e um gaveteiro, toda vez que a encaro dou de cara com duas caixas de plástico no chão, abarrotadas de papel (experimentem ter duas faculdades além de ser músicos e ter que guardar partitura, vai!), além de três prateleiras entupidas de livros – uma delas tem o comprimento da parede toda. Não vou mencionar que tem livros numa parte da escrivaninha também, porque não coube nas estantes. Pra coroar, a parede é pintada de roxo, num tom forte, o que dá a impressão de excesso de informações.

No momento atual, me pareceu bem natural me desfazer de alguns dos livros expostos pra abrir espaço. O interior dos armários e gavetas já está explodindo de tanta partitura, Xerox, documentos, objetos em geral e por aí vai, então guardá-los não é opção. O negócio é passar pra frente mesmo. Eu poderia doar alguns, mas outros estão em tão bom estado que se juntam à necessidade de arrumar um dinheirinho extra, então resolvi tentar a sorte e vender.

Outro dia, uma amiga comentou comigo que não teria coragem. E isso me fez pensar...

Eu também não teria coragem, se fosse há alguns meses atrás. Acho que tudo depende do momento da vida e do nosso “estado psicológico”.

Veja só: conheço um monte de gente que consome livros como consome roupas. Ou mais. Só que nem todos realmente leem esses livros. Pois é, livros também contam pela aparência, pelo design, pela decoração. Livros também contam só por estarem lá. Não é que a pessoa queira exibir que tem muitos, é que tê-los dá um certo conforto, uma empolgação, uma vontade de sentir o cheiro, tatear e olhar as capas bonitas (meio raras no mercado editorial brasileiro, mas ok), e por aí vai. Talvez seja bem mais difícil abrir mão de livros nessa situação. Se é a presença física deles que conta, a ausência física é muito mais sentida.

Não é o meu caso, pelo menos nesse momento. Livros pra mim são conteúdo. São histórias, são pontos de vista, são universos que existem em dimensões paralelas. Os meus universos paralelos preferidos vão continuar com seu lugar cativo nas estantes, mas outros podem se mudar.

Óbvio que não vou abrir mão de um livrozinho sequer do Tolkien ou do Gaiman. Mesmo quando surgem edições novas mais bonitas e resistentes, eu ainda prefiro a sensação daquela edição de “O Senhor dos Anéis” fuleira e imunda que tá na prateleira, porque foi o primeiro livro que eu li, porque foi quando eu aprendi a nunca mais emprestar livro que eu goste muito (pois é, eu sou hiper cuidadosa, não fui eu que deixou ela “fuleira e imunda”), porque eu acho a capa mais legal que a das edições que andaram circulando por aí, etc e tal.

O negócio pra saber de quais livros dá pra abrir mão é esse: quais precisam de matéria e quais podem ser só dados, informações.  Minha estante está lotada de livros que eu gosto, mas sei que não vou ler de novo tão cedo. Tenho certeza. Mesmo que aquela vozinha lá dentro diga “ah, mas vai que”. E outros que eu até posso querer ler de novo um dia, mas não preciso mais tê-los à disposição no meu quarto. E alguns são tão comuns que é fácil pedir emprestado ou passar numa biblioteca.

Além disso, hoje em dia a gente tem a tecnologia. Que é meio magia também. Eu tenho um Kobo, que é um leitor digital parecido com tablet, mas com tela branca que não cansa a vista, pra quem não sabe. E meu Kobo tem espaço pra 30 mil arquivos em formato epub, pdf, Word e outros. Pros arquivos da Amazon, que têm formato diferente (mobi), tem aplicativo do Kindle no celular e computador. Vários dos livros que ocupam espaço aqui eu comprei pelo apego ao cheiro do papel, mas li no formato digital em inglês (porque curto ler o original). Ou seja, eu curto a ideia deles, mas nunca fiz muita questão da parte material.



Pra mim não faz sentido aquela história de livros digitais ameaçarem livros físicos. É tudo uma questão de estratégia e escolhas: compramos os preferidos, deixamos os outros no Kobo ou computador. Se rola compulsão por comprar livros só por comprar, mesmo sem ler, tentamos descobrir o que leva aquilo, já que compulsão é compulsão e deve ter algo por trás (vai saber). Se gostamos muito de algum livro, se ele teve um papel importantíssimo pra nós, mas sabemos que ele não será lido mais porque a fase da vida é outra, deixamos a vida seguir seu fluxo e passamos ele pra alguém que crie uma nova história com ele. Vai que sua doação/venda faz diferença na vida de alguém?

No mais, é sempre bom abrir espaço pra livros novos. Energia acumulada sendo limpa e abrindo espaço pra energia nova, lembra?

É assim que, essa semana, vão embora da estante os livros do George R.R. Martin (o plano é daqui uns anos, SE saírem os dois livros que faltam, comprar um Box com livros menores, porque estes aqui são tijolões), a trilogia de Jogos Vorazes (que eu realmente achei muito melhor ler em inglês no Kobo) e mais alguns variados, além de DVDs e CDs de bandas que eu curtia muito mas já estão no Spotify.


Escolhas que a gente faz na vida :D